Numa manhã do dia 31 de agosto de 2001, o então capitão da Tropa de Choque Osvaldo Luiz Sorge voava em uma viatura da PM perseguindo quatro ladrões em fuga pela Rodovia dos Bandeirantes. Os policiais pegaram um desvio no km 36 e deram de cara com o carro dos bandidos vindo no sentido contrário. Levaram 13 tiros de fuzil. “As balas que vieram em minha direção não ultrapassaram o pára-brisa. Foi um livramento. Glória a Deus”, afirma Sorge.

Evangélico há dez anos, crente em milagres cotidianos de Jesus Cristo, em setembro Sorge assumiu um cargo que lhe traria provas e desafios. Foi escolhido para comandar o 18º Batalhão na zona norte de São Paulo – unidade onde trabalhavam nove PMs que estão presos por suspeita de participarem no dia 16 de janeiro do assassinato do superior direto, o coronel José Hermínio Rodrigues. “Não acredito em coincidências. Deus me escolheu para estar aqui. Se viesse um policial sem fé, baixava a cabeça. O evangélico não pode pular do barco. Se vier a morte, é desejo de Deus.”

Para contornar a crise que ainda ferve no 18, Sorge tenta investir na “transformação” do batalhão. “Todo rebanho tem ovelhas desviadas. Trabalhamos para que elas sejam alcançadas e curadas. Só assim marcharemos de cabeça erguida. As notícias sobre o envolvimento de policiais do 18 são um combustível que aumenta minha vontade de esclarecer os fatos.”

No trabalho para “endireitar” o caminho dos policiais desviados, desde janeiro, o 18º BPM conta com a ajuda dos PMs de Cristo – grupo de policiais evangélicos que levam “a palavra de Deus e apoio para os soldados do 18”. “É um projeto piloto, que começou a pedido do próprio coronel Hermínio, poucos dias antes de ele morrer. Por enquanto, estamos em uma companhia do 18. Vamos chegar às quatro (companhias). Depois, treinaremos novos capelães para reproduzirem esse modelo nas mais de 400 companhias da PM do Estado”, diz o major Alexandre Terra, um dos organizadores do projeto.

Com o aval do Comando-Geral e do governo estadual, os PMs de Cristo realizam o trabalho espiritual no 18 fazendo três visitas por semana. São quatro capelães, todos civis, treinados para falar sobre religião com os militares. Eles aprendem, por exemplo, que não se deve gritar “glória a Deus” em um quartel. Jogar sal grosso nas viaturas nem pensar. O capelão deve mais ouvir do que falar e nunca pode se esquecer de pedir a autorização do comandante para iniciar a pregação.

Os PMs de Cristo chegam ao 18 durante a troca dos turnos e falam com os policiais por cerca de dez minutos. Em um dos encontros, acompanhado pelo Estado, a pastora Vania Menon, capelã do grupo, falou sobre o ofício do policial. “Vocês enfrentam perigos e arriscam a vida para nos defender. São nossos heróis. Em troca, estamos aqui para oferecer apoio a quem precisar. Quem quiser, estaremos esperando do lado de fora para uma conversa”, diz a pastora, que também oferece seu telefone pessoal para qualquer pedido de socorro.

A estratégia é tentar “amolecer os corações embrutecidos” dos soldados do 18. Resgatar princípios que são perdidos na dura realidade das ruas. Os resultados, garante o comando, já começaram a aparecer. O subtenente Passos conta que os PMs de Cristo conseguiram “abrir o coração do sargento Elber para as palavras de Deus” pouco antes de o policial ter a prisão temporária decretada por suspeitas de participar do grupo de extermínio na zona norte. “O tempo dele na cadeia agora é determinado pelo Pai.”

Já o cabo Bonfim pediu ao grupo que visitasse sua irmã, doente, em estágio terminal de câncer. A família do cabo estava desestruturada. Os PMs de Cristo foram à casa dele. A irmã de Bonfim morreu na quarta-feira. No enterro, coube ao coronel Sorge transmitir uma mensagem religiosa aos presentes.

Sorge garante ainda que recebeu o dom da sensibilidade para sentir os dramas dos soldados que comanda. Ele conta que, certa vez, um policial sentou-se em uma cadeira em frente a ele com o semblante carregado. “Ô, menino”, disse o coronel, com o sotaque carregado de Presidente Venceslau, no interior do Estado, onde nasceu. “Não quero te enterrar amanhã.” Em seguida, o PM, emocionado, confessou que estava com pensamentos suicidas. “Deus tem poder. Glória a Deus”, completa o coronel.

Após a oração, um tiro na nuca

Será mesmo que um criminoso, sangue nos olhos, dá realmente ouvidos a essa ladainha propagada pelos religiosos? Diante de tanto ceticismo, os PMs de Cristo sacam da manga um depoimento que, segundo eles, serve para mostrar o poder de transformação de tudo o que falam.

Em 1981, o tenente Luiz Wilson Pereira, de 47 anos, assumiu uma tropa na zona leste, em Itaquera. Era um policial idealista e chegava a dobrar o turno na tentativa de tirar os ladrões do bairro. Em seis meses na rua, viveu uma série de desilusões. Durante um tiroteio com quatro assaltantes, viu um aspirante da sua equipe ser assassinado. Três ladrões morreram e um deles foi preso. “O advogado do cara veio falar comigo. Disse que eu era novo, não conhecia como as coisas funcionavam por aqui.”

Ele compreendeu a malícia do delegado semanas depois. Havia prendido um criminoso do bairro, que reencontrou na rua depois de dois dias. Ao abordá-lo, novo choque. “Ele me disse para ficar frio, porque minha parte do dinheiro estava com o delegado.”

Durante o velório de um policial, Pereira decidiu que iria fazer Justiça por conta própria. “Levava o bandido para o matão, dava um minuto para ele rezar e dava um tiro na nuca.” Pereira prefere não dizer quantos matou dessa forma. Fala que perdeu a conta. “Resolvi ocupar o lugar de Deus. Tire o ‘d’ e o ‘s’. Sobra a palavra eu. Eu iria julgar e aplicar a sentença.”

Em 1988, foi condenado a 43 anos de prisão por um triplo homicídio. A mudança de vida, conta Pereira, ocorreu sete anos depois, quando estava no Romão Gomes. Por três meses, ouviu as palestras dos PMs de Cristo no presídio. Converteu-se ao Evangelho e recebeu o indulto em 2003. Hoje está livre. Trabalha na área de finanças do Cruz Azul Saúde e hoje é missionário da Igreja Metodista do Brasil. Casou-se novamente. Namorou seis meses e consumou o ato somente depois da cerimônia.

‘O marginal é um irmão e pode se transformar’

Em 1999, quando trabalhava na zona oeste de São Paulo, o major Alexandre Terra, PM de Cristo desde a fundação do grupo, há 15 anos, passou por um teste de fogo. Eram 2 horas da manhã quando os policiais que comandava encontraram em uma rua escura da Lapa uma mulher que acabara de ser vítima de estupro.

Os policiais pegaram o criminoso, que ainda os provocou, dizendo que em um ano estaria solto. “Nesse momento, a presença de um policial cristão foi decisiva para evitar o pior”, disse Terra que conseguiu controlar o grupo argumentando que a vítima era cristã e abominaria um assassinato. O major levou o estuprador para a delegacia. Durante uma hora, conversou e fez o bandido ler trechos da Bíblia. “Estamos dando uma chance para você mudar de vida”, disse ao criminoso.

Se, historicamente, os policiais militares se acostumaram a estigmatizar os defensores dos direitos humanos como pessoas que protegem bandidos, o discurso dos policiais religiosos parece conseguir tratar de maneira mais eficiente o mesmo assunto. Saem as palavras abstratas como “cidadania”, “dignidade da pessoa humana”, para dar lugar a termos simples e diretos como “bem”, “mal”, “Jesus” e “diabo”. “O marginal também é um irmão e pode se transformar. Trabalhamos para isso”, diz o coronel Luiz Flávio Codelo, católico carismático, que circula por diferentes igrejas para cantar, fardado, com outros oito policiais.

Os PMs de Cristo alegam ainda que respeito à lei não significa fragilidade. Terra cita o episódio de Jesus expulsando os vendilhões do templo como uma ação firme, que deveria servir de modelo para a Tropa de Choque. O mandamento “Não matarás”, conforme explicam, deve ser “relativizado”. “Existem excludentes, como a legítima defesa”, diz Terra. Para nortear os policiais, os PMs de Cristo imprimiram 95 mil Bíblias de bolso para serem levadas durante o serviço.

Fonte: Estadão