A polêmica criada na semana passada pelo filme Fitna, produção do parlamentar holandês de ultradireita Geert Wilders que fala sobre o Islã, mostra como o assunto tornou-se sensível na Europa de hoje. Filme provocativo expõe convivência difícil entre europeus e muçulmanos.

De um lado, está uma população muçulmana cansada de ser criticada e caracterizada como terrorista. Do outro, os europeus nativos, temendo que qualquer comentário sobre o Islã leve a novas manifestações como as ocorridas em 2005, com a publicação num jornal dinamarquês de charges sobre o Profeta Maomé.

Após a divulgação do curta-metragem Fitna na internet, o que se viu foi um continente respirando aliviado, ao perceber que o filme não era o compêndio de ódio que se imaginava. Mesmo assim, ficou a pergunta: o Islã está se tornando um tabu na Europa?

‘Os muçulmanos radicados em países europeus vêm enfrentando duras críticas ao Islã, especialmente após os atentados do 11 de Setembro. Isso os tornou altamente sensíveis ao assunto. As críticas ao Islã não são vistas apenas como um insulto a sua religião, mas como uma espécie de novo anti-semitismo’, afirmou, por telefone, ao Estado, o especialista em Islã Maurits Berger, da Universidade de Leiden, na Holanda. ‘O problema é que do outro lado você tem uma população européia preocupada com a ortodoxia islâmica, que quer discutir o assunto.’

Segundo Berger, de um ponto de vista estritamente legal, o Fitna – que mostra imagens de atentados da Al-Qaeda intercaladas com versículos do Alcorão – não é um problema. Isso que não quer dizer, no entanto, que o curta-metragem não seja ofensivo aos muçulmanos. ‘A mensagem central do filme é que os muçulmanos são potencialmente perigosos, que o Islã é fascista’, explicou.

Peça polêmica

Desde 2004, uma série de incidentes deixou diversos países europeus com os nervos à flor da pele. O primeiro foi o assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh, que havia lançado um filme sobre a repressão do Islã às mulheres, por um muçulmano de origem marroquina. No ano seguinte, o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou as charges de Maomé, que enfureceram o mundo islâmico.

Após um período de relativa calmaria, o curta de Wilders voltou a causar tensão no continente. Temendo reações por parte da comunidade muçulmana na Holanda (cerca de 6% da população), o governo organizou uma campanha preventiva meses antes do lançamento do filme. Mesmo assim, várias emissoras de TV se recusaram a exibir Fitna. A única que aceitou fez duas exigências: que seus advogados vissem antes o filme e Wilders participasse de um debate sobre o assunto. O parlamentar recusou a oferta.

Na mesma semana em que Fitna foi veiculado na internet, um teatro em Potsdam, na Alemanha, inaugurou a peça Versos Satânicos, com base no livro de mesmo nome de Salman Rushdie. Em 1988, a publicação da obra fez com que uma fatwa (decreto religioso) fosse emitida no Irã, ordenando a morte de Rushdie. Na estréia da peça, o governo alemão reforçou a segurança no teatro.

Em meio a essa polêmica sobram protestos e provocações. As lápides de um cemitério de soldados muçulmanos da 1ª Guerra, em Ablain-Saint-Nazaire, norte da França, amanheceram ontem pichadas com símbolos nazistas. Também ontem, mais de 25 mil pessoas marcharam em Karachi, no Paquistão, num protesto contra o curta-metragem de Wilders convocado por um partido islâmico.

Desafio

Com uma população de 53 milhões de muçulmanos, a Europa parece estar tentando adaptar-se à sua nova realidade. A adaptação, porém, não vem sendo fácil. ‘Faz parte da cultura européia criticar a religião ou seus símbolos. Mas isso não é aceito em outras parte do mundo, seja entre cristãos ou muçulmanos’, disse Berger.

Muito além das diferenças culturais, há outro componente na atual tensão no continente. Para a professora de Relações Internacionais da City University, em Londres, Sara Silvestri, ‘a questão do Islã na Europa foi ‘seqüestrada’ por pessoas que dizem representar os muçulmanos ou defender os valores democráticos e liberais da sociedade ocidental’.

‘O assunto vem sendo usado por esses grupos para fortalecer suas posições políticas. A extrema-direita de vários países europeus, por exemplo, explora o tema para reconquistar sua importância. O problema é que os muçulmanos estão ficando espremidos no meio dessa disputa’, afirmou Sara, para quem a única maneira de se superar o problema é ampliar o diálogo aberto entre as comunidades.

Para os especialistas, a questão não é se o Islã é incompatível com a Europa, mas se os muçulmanos estão dispostos a se adaptar. ‘Você não pode comparar uma religião a um sistema político e cultural. É como um japonês budista ler a Bíblia para entender a Europa’, afirmou Berger. A adaptação parece possível, mas será preciso paciência e tempo. ‘Para meus avós, meus pais e até para mim, esse é realmente um assunto complicado. Mas vejo meus filhos, que estudam com muçulmanos, e para eles a questão da diferença cultural simplesmente não existe’, completou.

Disputas recentes

02/11/2004
Assassinato
Cineasta holandês Theo Van Gogh é assassinado em Amsterdã pelo muçulmano Mohammed Bouyeri, de origem marroquina. Van Gogh vinha sendo duramente criticado por seu filme Submission, no qual denuncia a repressão do Islã às mulheres.

30/09/2005
Caricaturas
Jornal dinamarquês Jyllands-Posten publica 12 charges, a maioria retratando o Profeta Maomé, gerando uma onda de protestos em vários países islâmicos.

12/09/2006
Citação
Papa Bento XVI cita trecho de um discurso do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, do século 14, segundo o qual tudo o que vinha de Maomé era desumano, “como sua ordem para difundir a fé que ele pregava por meio da espada”.

27/03/2008
‘Fascista’
Político holandês de ultradireita Geert Wilders coloca na internet o curta-metragem Fitna, no qual afirma que “o Islã é fascista”. Manifestantes saem às ruas na
Holanda, no Irã e na Arábia
Saudita.

29/03/2008
Versos Satânicos
Temendo protestos, governo alemão reforça policiamento na estréia da
peça Versos Satânicos, baseada no livro de Salman Rushdie,
na cidade de Potsdam

‘Quem ofende Alá são os terroristas’
Entrevista: Magdi Allam Vice-diretor do jornal italiano ‘Corriere della Sera’ e muçulmano convertido ao cristianismo; Considerado no passado um dos muçulmanos mais influentes da Europa, Allam diz que o Islã não favorece o diálogo

Magdi Allam já foi considerado o mais proeminente muçulmano na Itália. Vice-diretor do principal jornal do país, o Corriere della Sera, foi batizado pelo papa Bento XVI na semana passada, na Basílica de São Pedro. Nesta entrevista ao Estado, Allam defendeu o polêmico curta-metragem Fitna do holandês Geert Wilders, que mescla cenas de ataques terroristas com trechos do Alcorão. Afirmou não acreditar num “Islã moderado”, mas sim no diálogo com “islâmicos moderados”.

O que o sr. achou da polêmica gerada pelo documentário ‘Fitna’?

Quem ofende o Islã não é o europeu que denuncia o terrorismo islâmico, mas os responsáveis por esses atos de terror. O secretário-geral da ONU (Ban Ki-moon) sugeriu que o documentário fosse censurado. Ele deveria condenar o extremismo, que produziu a realidade apenas retratada nesse documentário.

O sr. acredita em um Islã moderado?

Não. Os escritos de Maomé não fundamentam uma disposição ao diálogo. Neste caso, toda a “moderação” vem de uma reinterpretação dos textos sagrados. Porém acredito em islâmicos moderados. Com eles, é possível e necessário dialogar.

Quais são as raízes do terrorismo atual?

Com a derrota da ideologia pan-arabista na Guerra dos Seis Dias (1967), houve um processo interno de radicalização do Islã, que levou ao poder, em alguns países, grupos extremistas. Mas a principal causa dessa escalada de violência foi o empenho de Osama bin Laden, um milionário saudita que conseguiu “globalizar” o terrorismo. Hoje, o extremismo islâmico na Europa tornou-se um fenômeno autóctone, com pessoas de cidadania européia dispostas a participar da Jihad (guerra santa) e, eventualmente, promover atentados suicidas como vimos em Londres em 2005.

Conversões como a sua não podem tornar mais difícil a vida dos cristãos em países islâmicos?

Já assistimos à perseguição dos cristãos no Iraque, no Egito, no Sudão e em outros países. Os muçulmanos convertidos ao cristianismo são condenados à morte por apostasia (renúncia à fé). Mas, mesmo na Europa, não há reciprocidade religiosa. Milhares de europeus puderam converter-se, com toda segurança, ao Islã. O mesmo não ocorre com muçulmanos convertidos ao cristianismo. Na maior parte dos casos, vivem clandestinamente sua nova fé. Quis chamar atenção sobre a necessidade de que essas pessoas saiam das catacumbas. Tenho exigido que o Estado e a Igreja protejam os convertidos. Só assim a Europa terá autoridade para pressionar por liberdade religiosa nos países islâmicos.

Como o sr. definiria a postura de Bento XVI com relação ao Islã?

Defendi o papa firmemente depois do seu discurso na Universidade de Ratisbona (Alemanha). Não o considerei inoportuno ou provocativo. Posso dizer o mesmo do meu batismo. No diálogo com outras religiões, este papa, em vez de partir de questões dogmáticas, dificilmente conciliáveis, prefere refletir sobre os valores universais e os direitos fundamentais do homem, onde seria possível um entendimento também no plano religioso. Creio que isso é uma revolução.

Como o sr. vê o cristianismo na Europa?

A Europa atravessa uma profunda crise de valores e de identidade. Amplos setores abraçam o relativismo ético, que nos leva a imaginar que todas as religiões são iguais, prescindindo dos seus conteúdos, e a abraçar o “politicamente correto” que nos cala frente a injustiças para não ferir suscetibilidades.

Fonte: Estadão