O relacionamento entre as mulheres que usam véu e as que não usam tem se tornado mais hostil na Turquia nos últimos tempos, desde que a peça se tornou uma espécie de “símbolo” do partido governante. Essa é a opinião da tradutora turca Özlem Ergun, 40, muçulmana que –assim como sua mãe e sua avó– não usa véu.

Em entrevista à Folha Online, Ergun disse que concorda “em partes” com a decisão do Tribunal Constitucional do país que vetou, no último dia 5, uma emenda que permitia às muçulmanas usar o véu islâmico nas universidades. A emenda havia sido aprovada em fevereiro pelo Parlamento turco, mas o tribunal entendeu que ela seria uma “ameaça aos princípios laicos do Estado”.

Ergun diz que não é contra o uso do véu em si, mas contra “o que ele significa”. “Acredito que, o véu vem se tornando cada vez mais um símbolo do partido político que está governando no momento [Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AK)]”, afirma a tradutora.

“Na minha opinião, todos têm o direito de usar o que quiserem, mas desde que [o véu] não seja usado para sugerir certas intenções políticas. A questão não é sobre cobrir ou não o cabelo, mas sobre usar o véu de um jeito específico –da mesma maneira que as mulheres do primeiro-ministro e do presidente turcos”, diz ela.

A questão do véu nas universidades tem gerado grande polêmica na Turquia. A emenda aprovada pelo Parlamento em fevereiro deste ano constitui um dos principais argumentos de uma ação judicial que está sendo analisada atualmente e que pede que o AK –partido islâmico moderado pró-ocidente– seja considerado ilegal por suas atividades antilaicas.

Um dia após a decisão do tribunal, os líderes do AK se reuniram para avaliar a sentença. O AK alega que a proibição do véu é “contrária à liberdade de consciência e ao direito à educação”. O partido, que chegou ao poder em 2002, venceu as últimas eleições legislativas de julho de 2007 com 47% dos votos.

Também no dia seguinte à decisão, centenas de mulheres –todas usando véus islâmicos– protestaram em várias cidades turcas contra a decisão do tribunal. Cerca de 99% da população da Turquia é muçulmana –há mulheres que usam e outras que não usam véu.

“As universidades são lugares de aprendizado, desenvolvimento, e de uma passagem para uma sociedade mais educada. Não deveria tornar-se um lugar para mostrar sua tendência pró-governo ou para ganhar pontos extras para seu futuro bem-estar econômico e social. Em uma república secular, a religião não deveria interferir na política ou na educação, que é o que estamos, infelizmente, enfrentando no momento”, afirma a tradutora.

Hostilidades

A brasileira Mara Elaine Comertoglu, 33, que casou-se com um turco e mudou-se para o país no final de 2002, tem a mesma opinião sobre o acirramento da relação entre as “cobertas” e “descobertas”, como ela classifica as mulheres que usam e as que não usam véu.

“Quando vou às compras e em tal loja a atendente é ‘coberta’ ou se há várias ‘cobertas’ no local é comum eu perceber elas comentando sobre mim”, afirmou ela em entrevista à Folha Online.

Ela diz também que o relacionamento entre as partes ficou mais hostil a partir do momento em que o governo tentou aprovar a lei de uso dos véus nas universidades. “Até minhas amigas turcas ‘descobertas’, que até então nunca reclamava começaram a se sentir incomodadas com a presença das mulheres cobertas'”, diz Comertoglu, para quem a questão do uso do véu é “totalmente política”.

Comertoglu explica que os cabelos e o pescoço são considerados partes muito sensuais da mulher, daí a importância de cobri-los com véu. Segundo ela, na Turquia, somente os pais com uma mentalidade considerada mais moderna deixam as filhas tirarem o véu e irem à universidade. “Já os ‘fanáticos’ de cidades menores não deixam sequer as meninas irem à escola”, afirma ela.

Segundo Comertoglu, a Turquia possui campanhas e órgãos para mostrar que a escola é direito de todos. É obrigatória em todo país a educação para meninas, com multa e até prisão dos pais”, diz.

Ela diz ser a favor da decisão do tribunal, mas descarta a possibilidade de o governo tentar implantar a sharia. “O governo atual é inteligente, implantar a sharia não seria um avanço para o país. Acredito, sim, que a intenção é fortalecer o poder da religião, mas não ao ponto de impor a lei islâmica. Com a decisão do tribunal, fico feliz em saber que ainda há pessoas lutando contra as intenções do governo”, conclui a brasileira.

Fonte: Folha Online