Apesar de a primeira viagem de Bento XVI ao Oriente Médio como pontífice, a partir desta sexta-feira (8), estar sendo tratada pela maior parte dos analistas como uma tentativa de construir a paz na região e de aproximar as três religiões envolvidas no encontro (cristianismo, judaísmo e islamismo), os oito dias do papa na Jordânia, em Israel e nos territórios palestinos são aguardados com ansiedade e tensão.
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Há a preocupação de que, em vez de melhorar a relação, a visita possa trazer novos conflitos e polêmicas entre as diferentes crenças.

A preocupação vem de diferentes lados, pois o próprio Bento XVI criou uma forte polêmica em 2006, ao vincular o islamismo à violência, e analistas dizem que líderes judeus e muçulmanos podem tentar explorar a visita politicamente. O governo e a Igreja Católica jordanianos, entretanto, negam que haja preocupação.

Em entrevista coletiva em Amã nesta quinta-feira (7), o senador Akel Biltaji, considerado o “padrinho” do turismo jordaniano, disse que não há ressentimento por parte da população jordaniana, formada em sua maioria por muçulmanos sunitas (92%). “Ele se explicou após ter cometido o deslize, e foi aceito pelos islâmicos. Temos uma boa relação com o papa e uma grande aceitação entre as diferentes religiões, o que é melhor de que a coexistência pacífica”, disse.

Segundo ele, fazer dessa “pequena irregularidade” centro das atenções só gera disputas desnecessárias.

O representante do Vaticano no país disse que o papa pediu desculpas, recuou de uma frase equivocada e acabou abrindo um diálogo entre as diferentes fés, o que levou a uma aproximação entre as religiões.

Ponte para a paz

Por mais que o discurso público de todas as lideranças seja no sentido de amenizar todas as tensões em nome de uma visita histórica, uma reportagem publicada no site “Jewish Journal” cita analistas que alegam que dificilmente os ideólogos judeus e muçulmanos vão permitir que Bento XVI cruze o que os governos estão chamando de “ponte para a paz”.

Segundo o texto, se os muçulmanos vão estar prontos para confrontá-lo com suas declarações polêmicas, os israelenses vão prestar muita atenção a seus gestos e palavras pelo fato de ele ter feito parte, ainda que involuntariamente, da juventude hitlerista. Os judeus vão questionar o papa, ainda, pelas controvérsias envolvendo seu antecessor Pio XII durante a Segunda Guerra e as declarações de um bispo católico que negou o Holocausto .

Em Israel, a visita do Papa inclui o memorial do Holocausto, e a posição formal do Vaticano tem sido de equilíbrio nos comentários sobre conflitos entre israelenses e palestinos. Mesmo assim, a preocupação dos analistas ligados ao Estado judeu é de que os palestinos instrumentalizem a visita do papa a refugiados, e o fato de que sua visita se encerra no dia tratado como “catástrofe” pelos palestinos para atacar Israel.

Polêmicas com o Islã

Ao chegar pela primeira vez ao Oriente Médio desde que se tornou papa, em 2005, Bento XVI tenta desfazer uma imagem negativa construída por ele mesmo há quase três anos. Em setembro de 2006, durante visita à Alemanha, ele fez um discurso numa universidade em que fazia uma análise sobre questões de religião e fé, propondo a paz entre as diferentes religiões, mas fazendo uma ligação entre o islamismo e a violência, dizendo que “o deus do Islã transcende a razão”.

“Ele (o imperador) se dirige a seu interlocutor, de maneira flagrantemente brusca, com a questão central sobre a relação entre religião e violência, dizendo: ‘Mostre o que Maomé trouxe de novo, e achará somente coisas más e desumanas, como sua ordem para espalhar pelo medo da espada a fé que pregava'”, dizia o texto, em que analisava a fé e citava um livro sobre o imperador Manoel II e um persa do século 14.

No dia seguinte ao discurso e à divulgação de notícias sobre ele, os países muçulmanos do Oriente Médio passaram a protestar e a pedir a retratação formal de Bento XVI. Na Turquia, Bento XVI chegou a ser comparado, como personagem histórico, a Hitler e Mussolini.

De início, o Vaticano tentou acalmar os ânimos do mundo islâmico.

Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, defendeu o Papa e disse que a palestra não tinha a intenção de ofender os muçulmanos, mas os protestos continuaram acontecendo com violência. Dias depois, um comunicado oficial do vaticano dizia que “o papa lamenta que algumas passagens de sua fala possam ter soado ofensivas às sensibilidades dos fiéis muçulmanos”. O próprio Bento XVI alegou, em seguida, que as palavras eram, na verdade, uma citação de um texto medieval, “que de modo nenhum expressa meu pensamento pessoal”, disse.

Depois de algum tempo da retratação, os protestos perderam sua intensidade, mas o incidente e o discurso deram início a uma relação tensa entre o Vaticano e os países muçulmanos, qe Bento XVI deve tentar melhorar com a visita à Jordânia e aos territórios palestinos.

Em algumas cidades árabes foram distribuídos panfletos nas últimas semanas incentivando protestos contra a visita do papa durante sua estada na região.

Fonte: G1