A Polícia Federal em Altamira (PA) intimou um padre católico e um secretário do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) para prestar depoimento hoje no inquérito sobre as agressões contra o engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende, ocorridas na terça.

Segundo o delegado Jorge Eduardo Ferreira de Oliveira, o padre espanhol Joseba Andoni Ledesma Sanchez e o secretário do Cimi em Altamira, José Cleanton Curioso Ribeiro, aparecem em imagens gravadas por uma loja de Altamira comprando três facões, acompanhados por um índio.

“Não quero dizer que eles estavam mal-intencionados. Mas temos que descobrir se houve co-autoria material na lesão corporal contra o servidor da Eletrobrás. Incitar a violência é indício de co-participação”, disse. A PF quer identificar quem comprou ao menos 50 facões entregues aos caiapós.

O delegado da PF disse que as imagens são um indício forte de que houve ajuda aos índios na compra do material que acarretou a lesão corporal contra o representante da Eletrobrás. O engenheiro foi agredido pelos índios após terminar sua exposição em defesa da construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Encontro “Xingu Vivo para Sempre”, que reúne 2.500 pessoas em Altamira.

O delegado da PF afirmou que a compra dos três facões ocorreu na segunda-feira e a nota fiscal foi feita em nome do Movimento das Mulheres Trabalhadoras de Altamira, uma das ONGs que organizam o encontro. Mais facões foram comprados em outras cinco lojas de Altamira, mas até agora a PF não apreendeu as notas fiscais.

Os índios e o Cimi são contra a obra. O engenheiro teve a camisa rasgada, foi chutado e teve um corte profundo no braço. A Folha não conseguiu falar ontem com o padre, que é ligado à prelazia do Xingu. A organização do evento disse que divulgaria nota, mas não o fez até 19h30. O bispo da prelazia do Xingu e presidente do Cimi, Erwin Krautler, disse ontem que “os facões não foram comprados para essa finalidade. Para os índios, os facões não são armas, são uma ferramenta usada como adereço em suas manifestações”. Ele eximiu o padre e o funcionário do Cimi de qualquer culpa. “Eles são gente minha. Mesmo se compraram, para mim não há nada de anormal. Não foi comprado com a intenção de ferir ninguém.”

Krautler disse que, apesar de ser contra “qualquer agressão, qualquer derramamento de sangue”, viu o fato como uma defesa dos indígenas. “Os índios se sentiram provocados.
Essa é a pura verdade. Eles não queriam isso. Aconteceu. Agora se faz um grande drama, uma tragédia. Não dá para tratar os índios com arrogância. A reação foi inimaginável. Mas o índio reage à sua maneira.”

O advogado Marco Apolo Santana Leão, que defende o padre e o secretário, disse que “não existe crime praticado pelo padre ou pelo secretário”.

Fonte: Folha de São Paulo