O SIG (Setor de Investigações Gerais) da 5ª Delegacia Seccional de São Paulo abriu inquérito para apurar a denúncia de uma testemunha que teria presenciado uma cena de suposto abuso do padre Júlio Lancelotti (foto) contra um ex-interno da Febem (atual Fundação Casa).

A testemunha tem seu nome protegido pela polícia e o nome do ex-interno, vítima do suposto abuso, também não foi revelado pela SSP. O caso teria ocorrido no final de 1999.

Coordenador da Pastoral do Povo de Rua e um dos principais defensores dos direitos de jovens infratores, o padre também acusa um ex-interno da Febem, Anderson Marcos Batista, foragido da Justiça, de tê-lo extorquido, por quase três anos.

Lancelotti disse que o ex-interno alegava dificuldades financeiras e ameaçava procurar a imprensa para denunciá-lo por pedofilia –o alvo do abuso seria o enteado de Batista, de oito anos. O padre também diz ter recebido ameaças de agressão e nega as acusações de abuso.

Nesta semana a Polícia Civil informou que abriu inquérito para investigar o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, entidade jurídica que representa serviços sociais na zona leste de São Paulo, e que tem o padre no conselho deliberativo.

A Polícia Civil de São Paulo informou que investiga o contrato da ONG com o objetivo de identificar, por exemplo, se o valor pago pela extorsão saiu dos cofres da entidade. A ONG nega que o padre tenha acesso a seus recursos financeiros.

Funcionária da Casa Vida diz estranhar acusação

Roseli Lopes Martins trabalha há 13 anos na Casa Vida II e se disse surpresa com as denúncias contra o padre Júlio Lancellotti. “Todo mundo quer saber quem é essa mulher. A história é muito estranha”, disse, sobre a ex-funcionária que fez as acusações. Roseli saiu em defesa do religioso, que conhece desde que entrou na ONG: “Muitas pessoas estão se aproveitando dele para aparecer.”

Segundo Roseli, vários jovens que passaram pela Casa Vida têm ligado nos últimos dias, preocupados com Lancellotti. Ela afirmou que, mesmo depois que as crianças deixam a instituição, o padre continua acompanhando a vida dos jovens. “Algumas até chamam ele de pai.”

Segundo o padre Juarez Pedro de Castro, secretário de Comunicação da Arquidiocese de São Paulo, d. Odílio Scherer, cardeal de São Paulo, ficou sabendo da acusação contra Lancellotti pela manhã e acredita que a denúncia é “infundada”. “D. Odílio reiterou total apoio ao padre Lancellotti”, disse.

O bispo Pedro Luiz Stringhini, da região episcopal de Belém, zona leste, disse confiar no religioso, que conhece há mais de 30 anos. Para ele, Lancellotti é uma pessoa “pobre” que se viu vítima de um esquema de extorsão. “Ele anda de ônibus e metrô; foi enganado e teve de dar dinheiro sem querer.”

Desde janeiro, padre pede empréstimos

Desde janeiro, o padre Júlio Lancellotti passou a pedir dinheiro emprestado a amigos. Ele diz ter sido obrigado a comprar uma Mitsubishi Pajero em nome de Conceição Eletério, mulher do ex-interno da Febem Anderson Marcos Batista, a quem acusa de extorsão. “Ele (o padre) disse que está com os recursos (financeiros) exauridos”, registra um depoimento prestado à polícia na segunda-feira.

O fato deixou preocupadas pessoas próximas de Lancellotti. O padre já disse não ter acesso às finanças do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e informou que o dinheiro que financiou o carro é seu. O religioso contou à polícia que vinha sendo extorquido havia três anos. Ao todo, teria pago R$ 80 mil. Foram R$ 30 mil só de entrada na Pajero, pagos à vista na concessionária André Ribeiro, no Shopping Aricanduva. A prestação é de R$ 2.012,92.

Como ex-funcionário da Febem, Lancellotti recebe R$ 2.330. Tem ainda ajuda de custo mensal de R$ 1 mil da Paróquia São Miguel Arcanjo e R$ 1 mil da Casa Vida. Eventualmente recebe doações por casamentos.

Fonte: Folha Online e Estadão