Navid Kermani, escritor alemão de origem iraniana, havia sido indicado para receber prêmio cultural em Hessen. Bispo da Igreja Católica recusa receber premiação ao lado do escritor e governo retira a indicação.

O estado alemão de Hessen planejava conceder seu prêmio cultural (Kulturpreis) no ano de 2009 a representantes das três grandes religiões monoteístas: cristinanismo, judaísmo e islã. Na realidade, o prêmio, no valor de 45 mil euros, já deveria ter sido entregue no dia 22 de março último, na cidade de Wiesbaden. Uma série de polêmicas, contudo, impediu que isso acontecesse.

De início, um júri escolhido pelas autoridades estaduais havia indicado, ao lado do cardeal Karl Lehmann, bispo de Mainz, do presidente da Igreja Luterana, Peter Steinacker, e do representante da comunidade judaica em Frankfurt, Salomon Korn, também o fundador do Instituto de História e Ciências Árabo-Islâmicas de Frankfurt, Fuat Sezgin. Este, por sua vez, resolveu recusar o prêmio, por não estar de acordo com a postura de Korn – ao lado de quem ele receberia a premiação – em relação ao conflito entre israelenses e palestinos.

Guido Reni e a cruz

Diante da lacuna surgida após a recusa de Sezgin, o júri optou por indicar para o prêmio o escritor e especialista em Ciências Orientais Navid Kermani, que nasceu em 1967 no Irã, mas cresceu na Alemanha e hoje vive na cidade de Colônia. No dia 14 de março último, porém, Kermani publicou no diário suíço Neue Zürcher Zeitung um texto sobre a obra do pintor barroco italiano Guido Reni (1575-1642), no qual o artista representa Jesus Cristo crucificado.

No artigo, Kermani explicita suas dificuldades de compreender a simbologia da cruz para os cristãos. “Em relação ao crucifixo, minha posição é, em princípio, negativa. Não que eu respeite menos as pessoas que oram em frente à cruz que outras que rezam em outros lugares, não se trata de uma acusação, mas apenas de uma recusa. Exatamente por levar a sério o que está ali representado é que recuso o crucifixo por completo. Além disso, acho a hipóstase da dor bárbara, avessa ao corpo e uma ingratidão em relação à criação”, escreveu o escritor, membro da Conferência Islâmica Alemã, uma organização subordinada ao ministério do Interior, que une representantes do governo e dos muçulmanos que vivem na Alemanha.

Para mim, não para os outros

Num parágrafo adiante, Kermani relata, ainda, como não deixou de sentir um certo mal-estar ao presenciar como sua filha participava – de forma absolutamente integrada à sociedade local – dos rituais religiosos católicos de uma escola do ensino fundamental na cidade de Colônia.

“Para mim, o crucifixo é um símbolo que não consigo aceitar. Digo somente para mim, na educação de meus filhos. Os outros devem acreditar no que quiserem, não sou o dono da verdade”, resume o autor, que mais tarde ainda descreve como ficou, apesar de tudo, tocado diante da pintura de Guido Reni, ao observar a obra, que retrata Jesus Cristo na cruz, numa visita a uma igreja na Itália.”Remi conduz o sofrimento [de Cristo] da esfera corpórea à metafísica”, complementa Kermani em tom comovido frente à obra do pintor italiano.

Réplicas e tréplicas

O que poderia ter sido lido como um exemplo de diálogo intercultural acabou, aos olhos do cardeal Karl Lehmann, bispo de Mainz – que receberia o prêmio ao lado de Kermani – se transformando numa justificativa para não aceitar a premiação. Steinacker, representante da Igreja Luterana, se solidarizou com o eclesiástico católico, recusando também receber o prêmio ao lado do escritor.

Diante disso, o governo do estado de Hessen resolveu retirar a concessão do prêmio a Kermani, o que desencadeou no país uma verdadeira polêmica nacional, com réplicas e tréplicas em diversos jornais.

Prêmio: ideia fracassada

Para Norbert Lammert, presidente do Parlamento alemão, a retirada do prêmio a Kermani deve preocupar todos aqueles “que têm um interesse real na dignidade do Estado e da cultura. Se a cultura é louvável, a tolerância também é. E nenhuma das duas pode existir sem esforço”, afirmou o parlamentar democrata-cristão.

Omid Nouripour, deputado do Partido Verde, também saiu em defesa de Kermani, elogiando o escritor como “um representante de um islã liberal e secular e, acima de tudo, um defensor do diálogo entre as religiões”.

“A ideia básica do Prêmio Cultural 2009 fracassou”, resumiu Helmut Seemann, presidente da Fundação Clássica de Weimar e um dos membros do júri que indicou Kermani para o prêmio, não escondendo seu desapontamento com a postura do cardeal Lehmann. Segundo Seemann, as declarações do bispo demonstram que ele não não tem capacidade para compreender um texto. “Isso é uma coisa terrível quando se trata de um prêmio no setor cultural”, resume Seemann.

Fonte: DW World