O presidente da Bolívia, Evo Morales, recorreu à Igreja Católica para uma mediação na recorrente crise política no país –que afeta os governos regionais de diversos Departamentos (Estados), um Congresso fortemente polarizado e agora o tribunal eleitoral.

A iniciativa pode enfrentar a resistência dos líderes dos Departamentos de Santa Cruz, Tarija, Pando e Beni –redutos da oposição–, decididos a levar adiante processos de autonomia, considerados ilegais pelo governo.

O porta-voz da poderosa prefeitura de Santa Cruz, Carlos Dabdoub, afirmou que não é tempo de conversações e repetiu que o referendo de autonomia será realizado em 4 de maio.
O prefeito de Tarija, Mario Cossío, advertiu que sua região –que abriga 85% do gás boliviano– “não suspenderá a consulta” pela autonomia.

Os governantes de Pando e Beni, Leopoldo Fernández e Ernesto Suárez, respectivamente, admitiram a possibilidade de iniciar novas negociações com o governo, mas anunciaram que darão prosseguimento aos plebiscitos para decidir a autonomia que já estão programados.

Enquanto as regiões insistem com as autonomias, Morales trabalha para submeter a um referendo, em 4 de maio, uma nova Constituição, de teor estatal e indigenista.

A Igreja Católica se disse disposta a atuar como “facilitadora, não mediadora”, em um processo de aproximação entre os dois lados, que disputam batalhas ideológicas em todos os campos, especialmente no Congresso, onde a oposição é forte no Senado e o governo na Câmara dos Deputados.

“A Igreja busca a forma de colocar seu grão de areia neste processo de busca da paz e da justiça”, declarou o porta-voz eclesiástico, monsenhor Jesús Juárez, depois de uma reunião na sexta-feira entre Morales e o cardeal Julio Terrazas.

O líder da oposição, o ex-presidente de direita Jorge Quiroga –do partido Podemos, que domina o Senado–, se mostrou disposto a participar em um diálogo com regras claras e mediações da Igreja e organismos internacionais para “dar confiabilidade à aproximação”.

“Estamos à disposição, na hora e data que o cardeal convocar, para levar propostas que garantam a unidade e permitam que se reconstrua a economia do país, e que tenhamos um pacto nacional que permita avançar na direção que todos os bolivianos querem”, declarou Quiroga.

A intensa polarização política obrigou o presidente do Congresso, Alvaro García Linera, também vice-presidente boliviano, a suspender uma sessão parlamentar que pretendia debater a crise, o que provocou protestos e insultos da oposição.

Em meio ao clima tenso, três tribunais eleitorais –os de Santa Cruz, Pando e Beni– não reconheceram a autoridade do presidente da Corte Nacional Eleitoral, José Luis Exeni, que havia determinado a nulidade dos referendos, tanto do governo para consultar a nova Constituição como os das regiões para tentar legitimar suas autonomias.

Fonte: Folha Online