Bandeira da China
Bandeira da China

Nesta quarta-feira se inaugura em Pequim, capital da China, o congresso do Partido Comunista chinês. É a grande reunião política quinquenal em que o presidente chinês, Xi Jinping, renovará seu mandato para outros cinco anos e será aclamado como o líder com mais poder desde Mao Zedong, falecido em 1976.

Durante seu primeiro quinquênio, Xi frisou a importância da “estabilidade social”. E deixou claro que considera a religião, especialmente se é de origem estrangeira como o islã e o cristianismo, uma ameaça a essa estabilidade em um país nominalmente ateu e onde o Partido Comunista é a única autoridade suprema.

“A religião é vista como uma ameaça existencial ao mandato do Partido Comunista, e Xi Jinping pediu a nacionalização das religiões estrangeiras como o islã em 2015. Outros gostariam de ver uma sociedade chinesa completamente laica”, explica James Leibold, da universidade australiana de Latrobe e especialista nas minorias muçulmanas na China.

Partido ateu

Funcionários do Partido Comunista foram alertados a não “orar a Deus” ou “confraternizar” com líderes religiosos pelo jornal oficial da China, People’s Daily, na última quinta-feira (12).

“Alguns funcionários, muitas vezes, vão para mosteiros, oram a Deus e adoram o Buda”, descreveu a publicação. “Alguns funcionários estão obcecados em esfregar seus ombros com mestres, confraternizando com eles como irmãos, se tornando seus aduladores e suas árvores de dinheiro”.

O People’s Daily disse que as autoridades devem se lembrar das palavras de Karl Marx, que afirmou que “o comunismo começa onde começa o ateísmo”. “A superstição é como uma poluição e anestesia espiritual que não pode ser subestimada e deve ser cuidadosamente removida”, disse o jornal.

Uma outra publicação observa que enquanto a China garante oficialmente a liberdade de religião para os principais sistemas de crenças como o cristianismo, budismo e islamismo, os membros do partido comunista devem aderir ao ateísmo.

“Os membros do partido não deve ter crenças religiosas, que são uma linha vermelha para todos”, escreveu Wang Zuoan, diretor da Administração Estatal para Assuntos Religiosos, na última edição da revista do Partido, Qiuishi Journal.

“Os membros do Partido deve ser ateus marxistas firmes, obedecer às regras do Partido e manter a fé do Partido… Eles não estão autorizados a procurar valor e crença na religião”, ele acrescentou.

Wang alegou que as forças estrangeiras estão usando a religião “para se infiltrar na China”, se tornando uma ameaça à segurança do país. “As atividades religiosas ilegais estão se espalhando em alguns lugares, ameaçado a segurança nacional e a estabilidade social”, argumentou.

Os fiéis, entre o cristianismo e o islã, são relativamente poucos. O cálculo aponta que, dentre os 1,37 bilhão de chineses, 70 milhões praticam o cristianismo. E o islã, aproximadamente 23 milhões (2% da população). Ambas são religiões antigas em solo chinês, mas de origem estrangeira. O cristianismo está presente desde o século VII. O islã chegou com as caravanas da Rota da Seda: o Alcorão mais antigo da China (do século XI) está guardado justamente em outra mesquita de Xunhua.

Masudi, um muçulmano de 75 anos, reconhece que existem momentos em que o controle é intensificado. “Eles insistem mais para que tenhamos cuidado”. Mas esse muçulmano, cuja família vive no bairro há 80 anos, afirma que jamais teve algum problema: “Graças à política de sociedade harmoniosa do Governo, não há animosidade. Todos nos damos bem”.

A situação é bem diferente na vizinha região autônoma de Xinjiang. Centenas de pessoas morreram em ataques violentos desde 2009, quando os enfrentamentos entre a etnia muçulmana Uigur e a maioria Han deixaram mais de 200 cadáveres.

O Governo chinês respondeu com mão de ferro, no que os defensores dos direitos humanos afirmam que gera um ciclo de repressão e radicalização: aumentou em 30.000 suas tropas na região, confiscou os passaportes dos uigures que os tivessem e até mesmo proibiu os homens de deixarem a barba comprida. Nomes considerados muito islâmicos, como Meca e Mohamed, foram vetados aos recém-nascidos. Diante do iminente congresso comunista, os hotéis receberam ordem de não admitirem hóspedes uigures, sob pena de pesadas multas. Pequim alega que são medidas necessárias porque a China enfrenta uma grave ameaça de separatistas uigures ligados ao Estado Islâmico e a Al Qaeda.

A vigilância, sem dúvida, continuará aumentando. As advertências chegaram até os Hui, a maior etnia muçulmana e bem integrada na China. Em agosto, Pequim aprovou uma reforma de suas leis sobre prática religiosa, que entrará em vigor em fevereiro e que aumenta a supervisão do Estado para impedir, no seu entendimento, o extremismo.

Segundo o responsável do departamento de Assuntos Religiosos chinês, Wang Zuoan, a revisão era urgente porque “o uso estrangeiro da religião para infiltrar [o país] se intensifica a cada dia e o pensamento extremista religioso está se espalhando em algumas áreas”. A desconfiança não vem só das altas esferas do regime. A maioria Han enxerga um tratamento favorável às etnias muçulmanas e suas queixas aumentaram, especialmente na Internet, desde os distúrbios de 2009 em Xinjiang.

“Existe uma longa história de ressentimento dos Han contra o tratamento preferencial que as minorias étnicas como os Hui e os Uigur recebem segundo a lei chinesa de Autonomia Regional Étnica”, diz o professor Leibold. “A revolução da Internet deu novas vias de expressão pública ao nacionalismo racial Han, e a islamofobia é uma expressão de seu chauvinismo. Como em outros países, os ataques terroristas de inspiração jihadista criaram um medo desproporcional ao “outro muçulmano”, e as redes sociais são formatos onde prolifera esse tipo de discurso de ódio irracional”.

As decisões que originam as queixas por discriminação podem soar um tanto quanto fúteis pois incluem a designação de duchas individuais em uma universidade a estudantes muçulmanos; o anúncio de que uma empresa de distribuição de comida a domicílio ofereceria pratos halal em recipientes separados; e que a premiação de Fim de Ano na televisão estatal evitaria alusões à carne de porco, que o islã proíbe. “A China é um país laico, governado por um partido ateu, e deve boicotar com firmeza as leis islâmicas”, é um comentário típico nas redes sociais.

Os cristãos estão sob crescente pressão das autoridades, que tentam forçá-los a aceitar os ideais comunistas. Mais de 2 mil igrejas foram demolidas na província costeira de Zhejiang, e a polícia continua prendendo centenas de pastores e advogados de direitos humanos.

Por outro lado, de acordo com um estudo da Universidade de Xangai, mais de 60% dos estudantes estão interessados em aprender mais sobre o cristianismo e o número de jovens cristãos tem crescido entre as igrejas reconhecidas oficialmente e igrejas subterrâneas.

Fonte: El País e Guia-me