Dois dias após o ataque de quatro jovens evangélicos a um templo de umbanda e kardecismo no Catete , o peso da intolerância religiosa ainda paira no ar. O presidente do centro Cruz de Oxalá, Clemente Abtibol Neto, ainda procura compreender a atitude extrema daqueles jovens, que, segundo ele, ainda têm uma vida inteira pela frente para aprender a praticar a caridade ensinada por Jesus Cristo.

– Assim como Jesus sofreu todo tipo de violência, nós também estamos sujeitos a agressões por causa das diferenças entre as formas de crer. Não tenho nada contra os jovens que agrediram nossa casa de oração. Eu só repito as palavras de Cristo na cruz: ‘Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem’ – disse seu Clemente, com a voz mansa, como um pai que perdoa uma travessura de um filho

Mas, ao lembrar-se da barbárie, seu Clemente, de 84 anos, volta a se emocionar. Ele conta que estava num local de Convivência da Terceira Idade da Aeronáutica quando recebeu a visita do filho e da nora, com o jornal nas mãos.

– Chorei de tristeza e descontentamento, não pela agressão em si, mas pela violência gratuita contra um povo que só prega a caridade. A imagem que eles (os jovens) destruíram era uma relíquia, trazida pelo fundador do centro há anos – lembra seu Clemente, presidente da entidade há mais de 30 anos.

O líder espiritual estranha o ataque dos jovens evangélicos, já que a religião prega, acima de tudo, o amor ao próximo, como ele mesmo afirmou.

– O que mais machuca é que, em vez de distribuírem carinho e amor ao próximo, o primeiro mandamento divino, alguns evangélicos maculam a própria fé, espalhando a violência e a falta de respeito ao próximo.

Abalada com o ocorrido, a filha dele, Regina Coeli Abtibol, de 30 anos, disse que jamais pensaria que alguém pudesse entrar num templo religioso para destruir e agredir os freqüentadores.

– Primeiro eu fiquei com o coração partido. A gente tem uma linha de perdoar e de levar a caridade a qualquer pessoa, mas quando soube do que aconteceu, fiquei magoada e triste de saber que um caso desses tenha acontecido em pleno século 21. É um retrocesso – lamenta.

Ela acredita ainda que os jovens teriam usado a igreja para justificar o ato de vandalismo.

– Acho que eles (os agressores) já estavam com vontade de arrumar confusão, a religião foi uma mera desculpa para justificar a violência – disparou Regina, que cresceu no centro de umbanda.

Não é a primeira vez que fanáticos religiosos atacam freqüentadores do templo Cruz de Oxalá, na Rua Bento Lisboa 146, no Catete, invadido e depredado, na noite de segunda-feira, por quatro membros da igreja neopentecostal Geração Jesus Cristo. Segundo um dos diretores do centro Celso Quadros, em quase todos os dias de funcionamento da entidade, grupos de religiosos agridem e ofendem as pessoas que estão na rua aguardando para entrar.

Fonte: O Globo