Numa decisão histórica, os líderes dos partidos protestante e católico da Irlanda do Norte acertaram ontem a formação de um governo conjunto a partir de 8 de maio na província britânica. O pastor protestante Ian Paisley (foto) será o primeiro-ministro da Irlanda do Norte.

O anúncio foi feito pelo pastor protestante Ian Paisley, do Partido Unionista Democrático (DUP), e pelo católico Gerry Adams, do partido republicano Sinn Fein, que se reuniram frente a frente pela primeira vez e, sem apertar as mãos, colocaram um ponto final a décadas de hostilidades entre os dois grupos.

“Não devemos permitir que nosso passado de tragédias e ódios se torne uma barreira na criação de um futuro melhor e mais estável para nossos filhos”, afirmou Paisley, que será o primeiro-ministro da Irlanda do Norte. “Esse acordo marca o início de uma nova era na política desta ilha”, disse Adams. Até então, os dois líderes só haviam negociado por meio de representantes. Paisley e Adams anunciaram que começarão imediatamente a formar as bases da nova plataforma conjunta do governo. Já está determinado que o republicano Martin McGuinness será o vice-premiê de Paisley.

A Grã-Bretanha e a República da Irlanda tinham dado um prazo até a meia-noite de ontem para que os partidos chegassem a um acordo. A data agora foi estendida para 8 de maio. Britânicos e irlandeses vinham pressionando os dois rivais há quase uma década para que concordassem em dividir o poder, já que essa seria a única alternativa para acabar com o conflito, que desde 1969 matou cerca de 3.600 pessoas e deixou 35 mil feridos – a maioria civis.

A divisão de poder na Irlanda do Norte foi determinada em abril de 1998, no Acordo da Sexta-Feira Santa. O novo sistema de governo foi adotado no ano seguinte, mas fracassou. Isso porque, em 2002, a coalizão foi suspensa por causa de um impasse na questão do desarmamento do Exército Republicano Irlandês (IRA), grupo armado católico ligado ao Sinn Fein. A situação fez com que a província voltasse a ser administrada pela Grã-Bretanha, como ocorre até hoje e sempre foi o desejo dos unionistas. Já o Sinn Fein defendia o fim do domínio britânico e a incorporação à República da Irlanda, de maioria católica.

Os partidos voltaram a negociar somente em 2005, quando o IRA finalmente anunciou que deixaria a luta armada. No dia 7, foram realizadas eleições legislativas nas quais os unionistas obtiveram 36 das 108 cadeiras do Parlamento e o Sinn Fein, 28.

“Este é um dia muito importante para os norte-irlandeses. Tudo o que fizemos na última década foi em preparação para este momento”, afirmou o primeiro-ministro britânico, Tony Blair. Para o premiê irlandês, Bertie Ahern, “a decisão pode transformar o futuro da ilha”. Tom Casey, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, afirmou que a decisão “dará continuidade ao processo de paz na região”.

Décadas de conflito

1969 – O grupo católico IRA inicia luta armada para acabar com o domínio britânico na Irlanda do Norte e uni-la à República da Irlanda.

1972 – Domingo Sangrento: forças britânicas matam 13 católicos em Londonderry.

1998 – Acordo da Sexta-Feira Santa prevê governo de coalizão.

2002 – Governo conjunto fracassa com impasse sobre desarmamento do IRA. Britânicos voltam a administrar a Irlanda do Norte.

2005 – IRA abandona armas. Negociações são retomadas.

2007 – Novo governo de união.

Ian Paisley: de crítico a premiê

A imagem de Ian Paisley, protestante radical e líder do Partido Democrático Unionista (DUP), sentado ao lado do católico Gerry Adams, do Sinn Fein, certamente parecia impossível há alguns anos. Paisley, que declarava que nunca dialogaria com os nacionalistas católicos, está agora prestes a tornar-se primeiro-ministro do governo de união entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte.

Paisley, de 80 anos, construiu sua carreira política combatendo os nacionalistas católicos. Agora, no entanto, parece ter percebido a chance de colocar seu nome na história. “Paisley quer ser lembrado como a pessoa que selou o acordo entre católicos e protestantes”, afirmou por telefone ao Estado o professor Henry Patterson, da Universidade de Belfast.

Autor de vários livros sobre o conflito na Irlanda do Norte, Patterson explicou que a guinada de Paisley começou depois que o DUP bateu seu principal rival, o Partido Unionista do Ulster, nas eleições de 2003 e 2005. Além disso, nas eleições do dia 7, o DUP obteve uma votação ainda maior do que em outros anos. “Sem nenhum partido para atacá-lo da direita e com um mandato popular, Paisley percebeu que está seguro em sua posição política para fazer um acordo”, disse Patterson.

Paisley passou praticamente toda a vida política rejeitando um acordo para um governo compartilhado. Em 1998, ele abandonou as negociações do Acordo da Sexta-Feira Santa depois que o Sinn Fein foi convidado a participar.

Nos anos 70, ele já havia liderado várias greves e manifestações contra tentativas de acordo de paz lideradas pela Inglaterra e a República da Irlanda. Em 1974, seus partidários organizaram a greve geral que derrubou o Acordo de Sunningdale, assinado em 1973 – uma das primeiras tentativas para estabelecer um governo compartilhado em Belfast. Em 2006, no entanto, durante as negociações de um novo pacto para um governo de união (o Acordo de Saint Andrews, na Escócia), Paisley deu os primeiros sinais de que poderia chegar a um entendimento.

A grande questão agora é se, depois de tantos anos de violência e desconfiança, Paisley e políticos católicos conseguirão trabalhar em conjunto. Para Patterson, apesar de ainda haver muita desconfiança, o DUP e o Sinn Fein devem conseguir governar juntos. “Os dois, por incrível que pareça, têm em comum suas posições sobre política econômica e social.”

Fonte: Estadão