Quarenta anos depois do assassinato do líder negro americano, o pastor Martin Luther King Jr., abatido a tiros no dia 4 de abril em Memphis, Tennessee, os EUA ainda são um país repleto de desigualdades raciais.

E, se em sua época áurea o movimento dos direitos civis tinha como foco principal a aprovação de leis que banissem de uma vez por todas a segregação da sociedade dos EUA, hoje o maior desafio da agenda contra as desigualdades raciais americanas está na economia.

Especialistas como o professor Michael Eric Dyson, sociólogo e professor da Universidade de Georgetown, em Washington, explicam na edição desta sexta-feira do jornal O Globo por que a questão central da luta pela igualdade racial nos EUA deixou de ser jurídica para se tornar econômica: estudos e pesquisas realizados ao longo dos últimos anos revelam que, apesar de todas as leis aprovadas ao longo da década de 1960, as escolas americanas são hoje mais segregadas que há quarenta anos, e que as minorias raciais ainda sofrem com a falta de acesso ao mercado de trabalho e a boas oportunidades de emprego.

– As leis contra a discriminação existem, resta fazer com que elas se tornem também uma realidade econômica – diz Dyson.

Mas, apesar das desigualdades que permanecem, houve algumas mudanças nos 40 anos desde a morte de King. Como o surgimento de uma nova classe média negra. Segundo o pesquisador Timothy Nelson, da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, autor de mais de dez livros sobre o movimento de direitos civis americano, a campanha do senador Barack Obama à Casa Branca (e o fato de ele ser o primeiro negro com chances reais de chegar à Casa Branca) é prova disso. Ele lembra que Obama “é um advogado negro formado por Harvard”, e que avanços como esse só foram possíveis nos EUA devido a avanços ligados ao movimento pelos direitos civis.

Especialistas afirmam que duas conquistas dos anos 1960 foram fundamentais: a Lei dos Direitos Civis de 1964, que aboliu instrumentos legais de segregação racial, e a lei da garantia do direito ao voto, de 1965, eliminando mecanismos que na prática impediam os negros de votar.

Obama representa o que analistas convencionaram chamar de uma “terceira via” na maneira de pensar o movimento em defesa da igualdade racial dos EUA. Nos anos 1960, a luta pelos direitos dos negros americanos se dividia entre a liderança de Martin Luther King Jr., favorável à integração racial, e a forte influência de Malcom X e de sua Nação do Islã, favoráveis, num primeiro momento, a um confronto racial e à derrota do que chamavam de “supremacia branca” vigente nos Estados Unidos. Obama, dizem analistas, é um herdeiro desse confronto de filosofias dos anos 1960, mas avança em relação às duas propostas, com um apelo próprio a uma união multirracial.

Especialistas lembram ainda que existe nos EUA uma vertente radical e combativa que tem em igrejas – e sobretudo nos discursos dos líderes religiosos da comunidade negra – uma forte tradição que permanece intocada.

É bom lembrar, segundo eles, que tanto King Jr. quanto Malcolm X eram líderes religiosos: o primeiro numa igreja protestante de Memphis e o segundo numa mesquita muçulmana da Nação do Islã no Harlem, em Nova York.

EUA ainda longe de serem democracia racial

Segundo a professora Lillian Williams, coordenadora de estudos afro-americanos na Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo, nos últimos 40 anos, a sociedade americana mudou radicalmente. Mas a professora não considera que a pauta de reivindicações do movimento de direitos civis esteja esgotada. Bem ao contrário, para ela ainda há muito por fazer para reduzir as tremendas desigualdades raciais que ainda persistem nos EUA.

Entre as principais mudanças apontadas pela acadêmica, está o surgimento de uma classe média negra, que antes não existia. Ela cita as leis sobre direitos civis, de 1964, e sobre a garantia do direito de voto, de 1965, como fundamentais para que estas mudanças acontecessem, assim como as ações afirmativas dos anos 70, que garantiram, por exemplo, cotas para professores e estudantes de minorias raciais nas universidades. Apesar disso, a acadêmica mantém suas ressalvas.

– Mas mesmo assim, 40 anos depois do assassinato de Luther King, não se pode dizer que os EUA sejam uma democracia racial. Não é verdade. As escolas de ensino fundamental, por exemplo, tornaram-se ainda mais segregacionistas, e as oportunidades em termos de trabalho, educação e saúde não são iguais. As minorias raciais ainda são segregadas economicamente – analisa ela. – Chegamos a um ponto em que não se trata mais de conquistar direitos legais, e sim de garantir a implementação dos direitos existentes. O conflito agora é econômico, e nesse sentido se pode pensar numa coalizão ampla de todas as minorias.

Fonte: O Globo