A Igreja Católica Apostólica Romana está ficando sem candidatos a padre. Quem quer ser padre nos dias de hoje e nesta era? Uma visita ao Seminário Saint Georgen, em Frankfurt.

Uma passagem escura conduz ao Seminário Saint Georgen, da Igreja Católica, uma estrutura arredondada de concreto exposto que poderia abrigar uma sala de cinema 3-D. O corredor é azul-marinho e se estreita à medida que se aproxima da igreja. No meio do caminho há uma pesada porta de vidro dotada de uma grande maçaneta, uma cruz de metal frio que precisa ser manipulada por todos que ali ingressam.

São pouco mais de 18h. Os devotos chegam para a missa da noite, uns poucos padres e freiras idosos, assim como a mulher pequenina que toca o órgão. A congregação é quase que inteiramente composta de seminaristas.
Os jovens candidatos ao sacerdócio passam pelo corredor em silêncio. No que diz respeito à aparência, eles são iguais aos rapazes leigos.

Os candidatos usam calças jeans baggy pretas ou cáqui e camisas pólo ou blusas de moletom, com ou sem logomarcas. Alguns têm o cabelo curtíssimo, outros trazem a franja à altura dos cílios. Correntes e anéis cintilam em alguns dos rapazes. Um deles usa uma pulseira de tecido verde. Vários trazem no rosto a marca da barba que, feita pela manhã, volta a crescer. E alguns exageraram na dose de colônia pós-barba. Um odor de Hugo Boss toma conta do corredor.

A porta da igreja se abre à esquerda, mas os homens fazem uma breve pausa antes de entrarem a fim de tocar a testa com a mão molhada em água-benta. Com uma ligeira inclinação em sinal de respeito em direção ao altar, cada um deles pega um hinário vermelho em uma pilha e senta-se em um dos assentos cinzas.

Essa igreja pequena e alongada foi construída para homens como esses. Homens que renunciam a uma vida mundana com o propósito de disseminar os Evangelhos. E que juraram levar uma vida celibatária -passada em completa abstinência sexual.

Pouquíssima gente acredita que tais pessoas ainda existam, mesmo na Igreja. Os católicos alemães estão enfrentando uma escassez de rapazes com vocação para o sacerdócio. Ser padre se tornou para eles a antítese do moderno.

Faz frio na igreja. A organista entoa a liturgia com uma voz clara como cristal. Um padre visitante da Polônia usando uma casula verde celebra a missa. Para os 16 novos seminaristas que vêm de toda a Alemanha, esta é apenas a segunda celebração do gênero aqui em Frankfurt. A homilia gira em torno de São Paulo, que escreveu à sua congregação: “Mas quando quis Deus, que me separou do útero da minha mãe e me chamou por meio da sua graça para revelar o seu Filho em mim, que eu pregasse a sua existência entre os gentios, eu não confabulei imediatamente com a carne e o sangue”. Esses homens foram escolhidos? Como é que eles sabem quem lhes fez o “chamado”? Como sabem quais são as vozes que têm ouvido? No fim das contas, será que eles apenas têm problemas de ordem sexual?

Nesta manhã de outono, um cheiro de terra invade o quarto de Nils Schellhaas através da janela aberta do seu quarto. O Seminário Saint Georgen situa-se em um amplo parque ao sul do Rio Main. Além do seminário para os 37 aspirantes a padre, o complexo conta com uma comunidade jesuíta e uma Universidade de Filosofia e Teologia freqüentada por 430 alunos.

O homem de 24 anos de óculos de aros de chifre e que tem covinhas no queixo e na face é um ex-protestante que se converteu ao catolicismo. Quando Schellhaas dirigiu o seu carro até aqui no início de setembro, os seus sentimentos eram confusos. Será que o que o esperava era um nicho de homossexuais? Um clube gay disfarçado, possivelmente envolvendo pedófilos -tal como o Saint Pölten, na Áustria, onde um escândalo levou ao fechamento temporário do seminário?

Uma cela com uma pia

Atualmente faz quatro meses que ele está aqui. Ele tem calos nas mãos devido a todo o trabalho feito. Juntamente com os outros recém-chegados, Schellhaas espalhou cascalho em uma estrada e pintou uma casa de madeira. Juntos eles suaram e xingaram. E os seus temores desapareceram. “Embora nenhum deles pareça ter estado algum dia em um relacionamento, não há um só que dê a impressão de ser gay”.

Schellhaas, um homem de expressão honesta e dono de uma voz alta e clara, deixou uma vida boa para trás. Estudante universitário, ele morava em um apartamento de dois quartos em Kiel, com uma vista para o Báltico – até recentemente, com a namorada. Ele sente saudade do espaço. A sua atual residência, “uma cela com uma pia”, tem apenas 9,3 metros quadrados. Ele não sente saudade da namorada.

“Ela me abandonou porque eu estava dedicando tempo demais à minha fé e muito pouco tempo ao nosso relacionamento”, explica o aluno de teologia. A separação mudou a sua vida. “Certa noite eu ia de bicicleta para casa e mal podia esperar para ver se me sentiria sozinho no apartamento sem ela”. Quando abriu a porta, aconteceu um milagre. Ele se sentiu menos sozinho do que antes.

Schellhaas passa a mão pela barba rala e loura no queixo. “Ter uma parceira é algo que exige tempo e devoção. Sou uma pessoa que prospera na devoção a Deus, e se me dedico a uma namorada, fico sem tempo para receber esse amor de Deus”. Vindo deste jovem devoto, tal raciocínio parece verossímil.

“Definitivamente sem celibato”

Schellhaas não herdou esse fervor religioso. Os seus pais deixaram a igreja. Esse rapaz do Estado de Hesse encontrou a primeira vez o Salvador quando, ainda garoto, viu crucifixos durante uma viagem à Itália. O garoto de sete anos observou fascinado as pessoas se ajoelhando diante das imagens de um homem pregado a uma cruz.
Mais tarde, as manhãs de domingo em casa se tornaram estressantes: ele queria assistir a programas religiosos na televisão, enquanto o irmão preferia desenhos animados. Schellhaas obteve a sua primeira bíblia em uma lixeira.

Na sétima série, ele ouviu o seu chamado. “Até então, eu queria ser jornalista, um repórter de televisão ou algo do gênero. Mas após uma discussão com os meus pais, essa idéia surgiu subitamente na minha cabeça: serei padre. À época, eu sequer sabia o significado disso”.

Os seus pais – o pai de Schellhaas é vendedor de programas de computação – esperavam que o filho acabasse superando essa fase com a idade. Mas no segundo grau Schellhaas escolheu latim como língua estrangeira e começou a freqüentar a igreja. “Eles disseram que estava tudo bem, mas só se eu me tornasse protestante. Assim, a coisa soaria menos estranha para eles”.

O protestantismo se revelou uma escolha conveniente. “Embora eu nunca tenha gostado do atos excessivamente intelectualizado e anti-ritualista da Igreja Luterana, naquela época eu definitivamente não queria levar uma vida celibatária.”

Ele decidiu se tornar um pastor luterano de cultura católica. Já no seu primeiro semestre como estudante de teologia na Universidade de Frankfurt ele rezava todas as noites com os monges capuchinhos. Schellhaas mudou-se para a Universidade de Kiel para ficar perto da namorada.

A decisão de se converter veio no verão passado, em Erfurt. Schellhaas tinha ido ao monastério agostiniano para desfiar o rosário. Quando deixava a capela, ele percebeu a existência de um sinal na porta comemorando o dia em que Martinho Lutero entrara neste mesmo monastério: 17 de julho de 1505 – “500 anos atrás neste dia”. Um sinal do céu: era hora de colocar um fim à farsa, hora de o rebelde da igreja dar meia-volta – e se dedicar ao catolicismo.

Assim que concluir a sua graduação em teologia, Schellhaas participará de um seminário em Hamburgo para o curso subsequente de um ano em práticas pastorais – e a seguir será ordenado diácono. Se tudo correr bem, após mais um ano ele será padre na Arquidiocese de Hamburgo.

Os pais de Schellhaas também parecem ter se tornado religiosos. Originalmente casados apenas no civil, eles agora renovaram os seus votos na igreja para celebrarem as bodas de prata. Durante a viagem subsequente da família à Itália, Schellhaas espiou secretamente a sua mãe acendendo uma vela em Assis, e o seu pai fazendo o sinal da cruz.

Faz mais de um ano que Schellhaas não beija uma mulher. Esse organista devoto diz: “Estou feliz por já ter tido namoradas. Caso contrário, talvez algum dia procurasse saber se alguém gostaria de ficar comigo”.

Mas Schellhaas não jura que jamais voltará a se apaixonar – e ele não é o único. Aqui, todos dizem o mesmo, até mesmo o padre católico Stephan Kessler, de 47 anos, o reitor do Seminário Saint Georgen – um homem grande que usa uma uma camisa de flanela sem forma definida e que tem uma expressão facial que lembra Mr. Bean. O escritório de Kessler é espaçoso e confortável. Há ícones nas paredes e um aroma de café fresco e de biscoitos se espalha pelo ar. O reitor é famoso pelos seus biscoitos.

Kessler é um homem tagarela cuja linguagem é temperada por mais que latinismos. “É claro que os padres também se apaixonam”, diz o jesuíta. “Essa foi a causa efficiens para diversos seminaristas para os quais eu mostrei a porta da rua – e que às vezes foram recebidos de volta de braços abertos”.

Segundo Kessler, todos eles precisam aprender a “integrar” a sexualidade e as emoções com o modo de vida celibatário. Ele próprio também já se apaixonou, quando era um capelão com pouco mais de 30 anos. Atualmente o ex-objeto dos seus desejos secretos é uma mãe de três filhos. Kessler é amigo dela e do marido.

Resistindo à tentação

A abstinência é um sacrifício que uma pessoa faz a Deus, assim como Jesus Cristo morrendo na cruz para salvar a humanidade? O padre repele rapidamente tal idéia. “Ninguém vai muito longe com uma mentalidade de sacrifício. Este modo de vida não significa um sacrifício maior do que a interação responsável com um parceiro em um relacionamento. A pessoa casada às vezes também se apaixona, e ela precisa resistir à tentação.”

Todos os alunos do Seminário Saint Georgen ouviram essa argumentação – de que o celibato não é mais difícil que a fidelidade conjugal. Kessler fala enquanto as mesas são limpas após a refeição comunitária. A sala de jantar é um local convidativo para as reuniões. Mais do que um mero refeitório, ela tem mais em comum com uma cafeteria de um albergue da juventude. Os estudantes em volta prestam atenção a cada palavra de Kessler. O padre diz como, recentemente, a sua fé na ressurreição o abandonou após 30 dias de um retiro em silêncio. Ele pensou: “O.k. É isso. É hora de procurar um novo emprego”. Durante meses ele lutou com a sua consciência – e foi então que conheceu um monge que o ajudou a superar as dúvidas.

Um rapaz muito jovem e bonito se destaca no grupo. Um pouco antes ele estava reclamando de que os corredores longos e altos do seminário, nos quais cada passo ecoa, fazem com que sinta que está na Escola Hogwarts, de Harry Potter. Tendo Albus Dumbledore como reitor. Agora o rapaz está mais perto, os seus ombros inclinados para frente, os olhos verdes luminosos ardendo em concentração. Lapsos de fé, questões referentes ao celibato – esses são assuntos intrigantes!

Seria esse o caminho certo para alguém como ele, que sempre se enxergou como um “homem de família?”. O rapaz de 20 anos veio de um ambiente protegido. Ele foi criado como católico e tem dois irmãos. Estudante talentoso, o rapaz decidiu se tornar professor de religião. Mas quando confessou ao pai, um carpinteiro, que o que realmente queria ser era padre, foi surpreendido pela resposta: “Sempre soube disso”, disse o pai.

Todas as árvores no Seminário Saint Georgen têm placas com nomes em alemão e latim. Christian Fahl aguarda do lado de fora, entre carvalhos, freixos e faias. O rapaz de 28 anos está radiante. Na sua blusa de moletom branco há a inscrição “Champion”. A pele de Fahl tem a mesma tonalidade da camisa, e não lhe confere uma aparência saudável. Mas todo o estudo deu resultado: o seminarista foi aprovado na prova de história da igreja com menção honrosa.

Sempre ser feliz

“Agora posso começar o meu quarto semestre”, diz Fahl. “E ficarei muito feliz por isto!”. O rapaz está exultante, com um sorriso de orelha a orelha. Ele tem sido feliz durante toda a vida. Fosse como membro do coral infantil, como estudante ou como caixa de banco. Fahl sempre foi feliz.

O trabalho com a juventude o atrai sobremaneira. “Me conscientizei da minha vocação porque muitos jovens me procuravam com questões”, conta ele.

Mas talvez ele não tivesse outra escolha. Fahl foi presidente da classe na escola, porta-voz da juventude no conselho paroquial, diretor regional da Organização da Juventude Católica Hochtaunus. Ele integrou o comitê diocesano, o conselho editorial do jornal da paróquia, o comitê religioso Uma Palavra e o “Círculo da Casa Carismática”.

Fahl ingressou no Seminário Saint Georgen sem ser seminarista. Após trabalhar cinco anos como caixa de banco, ele quis primeiro dar o próximo passo para testar o seu sentido de vocação. Além do mais, ele percebeu que, com o seu grau de comprometimento com a comunidade e a igreja, restava-lhe pouco tempo para uma namorada. “A contemplação era algo muito importante”, diz Fahl apressadamente. Para ele a reza era a única forma de encontrar as respostas para as questões que importavam: “O que Deus quer? Onde reside o Espírito Santo?”.

Fahl não precisa parar para pensar. Ele enumera as suas impressões de vida como se fossem contas em um colar que o conecta a Deus: começando pela sua avó, que – graças à intervenção divina – sobreviveu a uma febre enquanto dava a luz à mãe de Fahl durante um bombardeio aéreo, e tendo continuidade com os seus professores devotos da escola de segundo grau e o patrão no banco, que o apoiaram na sua escolha.

Pessoas como Fahl não se constituem em uma surpresa em um local como o Seminário Saint Georgen. A surpresa é o fato de Fahl não parecer ser a regra, mas a exceção. Por outro lado, todos aqui são uma exceção, cada um ao seu modo. O mais jovem seminarista tem 20 anos, o mais velho 42.

Alguns vieram diretamente da escola. Muitos já trabalharam – como enfermeiros geriátricos, advogados, biólogos. Eles têm histórias diferentes. Lares intactos e destroçados. Famílias cristãs e atéias. Alguns cresceram em mansões, outros em orfanatos.

Astronauta ou padre?

Ao contrário de Fahl, a maioria deles entende a surpresa de quem está de fora com a escolha de vida que fizeram. Talvez porque eles próprios ainda estejam surpresos.

Vejamos por exemplo Mathias Mütel, um seminarista de 23 anos de Blankanese, um elegante subúrbio de Hamburgo à beira-rio. Aos 14 anos, ele decidiu provar ao seu professor de religião que Deus não existia. Até então, o adolescente se definira sucessivamente como anarquista, marxista e niilista.

“Mas não foi fácil como eu achava que seria”, diz o rapaz de ombros largos e expressão circunspecta. Os seus pais, ambos arquitetos, não gostaram quando ouviram que ele queria estudar teologia. “Em Hamburgo é melhor você dizer que quer ser astronauta do que padre”.

Hendrik Klentze, 35, precisou fazer duas tentativas até se acostumar ao seminário. Da primeira vez, cinco anos atrás, ele nutria altas expectativas. Mas os seminaristas sempre estavam brigando, havia pelejas da mesma forma que em qualquer outro lugar. E como recém-convertido ao catolicismo, muita coisa era completamente incompreensível: por exemplo, as horas passadas rezando ante o hostiário. A rodela de pão sem fermento lhe lembrava o biscoito usado para fazer o Lebküchen alemão. “Eu não parava de pensar: ‘Eles estão idolatrando um biscoito'”.

Mas Klentze mostrou-se obstinado. Ele abandonara a carreira de arqueólogo e se separara da namorada. Os seus pais – o pai era ginecologista e a mãe psicoterapeuta – criaram-no segundo o espírito anti-autoritário de 1968, e acharam que ele estava maluco. Naquela época, Klentze se esquivou da questão indo estudar teologia em Münster. Agora ele sente-se pronto para o Seminário Saint Georgen.

O seminarista polonês Michal Swiatkowski está se preparando para ser padre em uma diocese alemã. O rapaz de 26 anos de olhos hipnóticos freqüentou anteriormente um seminário polonês. Ele permaneceu naquele seminário por dois anos antes de se tornar jornalista. Mas tarde arranjou também uma namorada. A falta de padres na Alemanha lhe permitiu retomar a rota sacerdotal aqui. “Há candidatos suficientes na Polônia. Não dá para tirar uma licença em meio aos estudos”.

O candidato a padre acredita que o celibato seja importante, embora saiba que será algo difícil de praticar. A certeza de saber que venceu esse desafio poderá vir muito tarde, conforme um velho padre lhe revelou certa vez: no leito de morte.

Fonte: Der Spiegel