Um manifestante interrompeu aos gritos uma missa na Abadia de Westminster, que comemorava os 200 anos da lei que acabou com o tráfico negreiro.

Estavam presentes na cerimónia a Rainha Elizabeth II e o Primeiro-Ministro britânico, Tony Blair. Toyin Agbetu, 39 anos de idade, começou a gritar que todos “deveriam estar envergonhados” e condenou os cristãos africanos que estavam participando da missa.

Poucos minutos depois, alguns seguranças o expulsaram da abadia e, em seguida, ele foi interrogado pela polícia. Além da rainha e de Blair, também assistiam à cerimónia Felipe de Edimburgo, marido de Elizabeth II; o ministro da Economia, Gordon Brown; o prefeito de Londres, Ken Livingstone; o ministro do Interior, John Reid; a ministra da Cultura, Tessa Jowell; e cerca de dois mil convidados especiais.

A cerimónia foi interrompida no momento em que o arcebispo de Canterburry e o chefe da Igreja Anglicana, Rowan Williams, pediu um minuto de silêncio para relembrar os mortos pela escravidão, quando se ouviu um som de corneta tradicionalmente utilizado para advertir a presença de piratas de escravos.

Williams qualificou o tráfico de escravos como uma “ofensa à dignidade e à liberdade”, e completou que esse erro histórico “foi a maior dor no espírito de Deus”. Segundo o prelado protestante, a escravidão não foi um problema regional do passado, mas “algo que persiste nas nações e culturas” do mundo. “Nós, que somos herdeiros do comércio de escravos do passado, temos que enfrentar o facto de que nossa prosperidade histórica foi construída à base dessa atrocidade”, destacou Rowan Williams.

“Aqueles que herdaram as comunidades destroçadas pela escravidão sabem que o sofrimento do presente é resultado de séculos de abuso”

A missa foi transmitida ao vivo pela rede de TV BBC One e pela Rádio 4 da mesma emissora pública, que comemorava a Lei de Abolição do Comércio de Escravos, aprovada em março de 1807 pelo Parlamento de Londres.

Lady Kate Davson, a tataraneta de William Wilberforce, o responsável pela legislação e considerado o pai do movimento contra a escravidão, leu um documento que foi já lido pelo seu antepassado na Câmara dos Comuns. A rainha deixou um buqut de flores no memorial de William Wilberforce e outro arranjo floral no Mausoléu das Vítimas Inocentes, que homenageia a todos aqueles que foram afectados pela escravidão.

Ao finalizar a missa, mais de dez sinos soaram da abadia mais de 200 vezes, para recordar o bicentenário histórico. Linda Ali, da associação religiosa Sociedade Unida para a Propagação do Testamento, exortou Blair a pedir desculpas públicas pelo papel que os governos britânicos do passado desempenharam no comércio de escravos.

“Não vejo porque é tão difícil para o Primeiro-Ministro pedir desculpas pelo que foi um crime contra a humanidade”, declarou.

O vice-Primeiro-Ministro britânico, John Prescott, prevê inaugurar mais tarde uma fonte em memória ao movimento anti-escravidão no Victoria Tower gardens, em Londres.

Neste sábado (24 de Março), milhares de pessoas participaram numa marcha em Londres liderada por Williams e pelo arcebispo de York, o doutor John Sentamu, que caminharam acorrentados para relembrar o sofrimento de milhões de escravos.

Fonte: AngolaPress