A classificação do vinho como alimento, aprovada pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, gerou polêmica na sociedade. Médicos, religiosos e organismos que se empenham pela redução do consumo de bebidas alcoólicas são contra a proposta.

Entrevistado pela ALC, o pastor da Paróquia Matriz da Comunidade Evangélica de Porto Alegre, Cláudio Kupka, destacou que o vinho é uma bebida alcoólica e, transformado por força da lei em alimento, “pode ser visto como algo supostamente inofensivo”.

De autoria do deputado Estilac Xavier, do Partido dos Trabalhadores (PT), a proposta de classificar o vinho como alimento natural foi aprovada por unanimidade pela Assembléia Legislativa gaúcha, na terça-feira, 29 de agosto.

Para se transformar em lei, o projeto ainda carece da sanção do governador do Estado. Se aprovado, o vinho passará de produto supérfluo a alimento, sofrendo, assim, redução no Imposto de Circulação de Mercadoria sobre o produto, de 12% para 7%, beneficiando o setor vinícola. O Rio Grande do Sul tem 14,4 mil propriedades produtoras de uva.

“O vinho é uma bebida alcoólica. Não pode ser tratado como se fosse um produto qualquer, inofensivo, e incluído na cesta básica. Vinho não é feijão, arroz ou batata”, frisou a coordenadora das ações para o álcool dentro do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, Ana Maria Marins.

A venda indiscriminada do vinho, enfatizou Kupka, pode representar um perigo aos mais jovens e um estímulo para que muitas pessoas que já experimentaram o alcoolismo regridam na resistência de evitar o primeiro gole.

Para vir ao encontro de pessoas que conseguiram se libertar da dependência do álcool, a Paróquia Matriz da Comunidade Evangélica de Porto Alegre usa suco de uva na distribuição da Santa Ceia.

“Optamos pelo suco porque sabemos que uma parte da população é vulnerável ao alcoolismo e que um só gole, ou até mesmo o cheiro do álcool, pode representar uma enorme ‘tentação’”, justificou Kupka.

Na avaliação do bispo da Segunda Região Eclesiástica da Igreja Metodista, Luiz Vergílio Batista da Rosa, a forte presença de imigrantes italianos na serra gaúcha, região produtora de uva no Estado, estimulou um maior consumo da bebida na região. “Na serra, o vinho é historicamente utilizado como complemento alimentar e servido também nas celebrações da Santa Ceia”, enfatizou.

Contudo, ponderou Vergílio, a postura histórica da Igreja Metodista é pela abstinência do álcool, o que não impede que pastores e pastoras, em consentimento com a comunidade, sirvam o vinho em suas celebrações.

Segundo o pastor da Paróquia do Salvador da Comunidade Evangélica de Porto Alegre, Eloir Weber, a classificação do vinho como alimento deve levar em conta a utilização que cada um faz da bebida. “Tudo o que ingerimos precisa ser submetido a um rígido controle”, enfatizou.

Weber destacou que nas celebrações da Santa Ceia realizadas na sua paróquia o suco de uva é servido em substituição ao vinho. O pastor sublinhou que a medida não tem conotação moral, mas ela respeita os membros da comunidade que eventualmente tenham dificuldades com a ingestão do álcool.

Números da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que 17 milhões de brasileiros são dependentes de bebidas alcoólicas e que o dano provocado pelo consumo de álcool no Brasil seja da ordem de 7,3% do Produto Interno Bruto (IPB).

Fonte: ALC