O reverendo protestante Ian Paisley anunciou nesta terça-feira que irá deixar em maio do cargo de primeiro-ministro do governo compartilhado da Irlanda do Norte e da direção do Partido Democrático Unionista (DUP).

“Poderia continuar, mas decidi sair”, declarou Paisley, que irá fazer 82 anos em maio e é alvo há várias semanas de forte pressão, por parte de membros do seu partido, para deixar os cargos.

Paisley deixará as suas funções após a convenção do partido, que irá ser realizada também em maio.

O reverendo protestante aceitou compartilhar o poder com os seus antigos rivais, os católicos de Sinn Féin.

Ian Paisley, chamado de “Doutor Não” da política norte-irlandesa, absolutamente intransigente com os católicos, tornou-se em 8 de maio do ano passado o novo primeiro-ministro de uma Irlanda do Norte a caminho da reconciliação.

“É um dia especial, abrimos um novo caminho”, declarou na ocasião, em Belfast, o ex-pregador do “não”. “Abrimos um caminho que nos levará à paz e à prosperidade”, acrescentou, colocando-se na posição de consenso condizente com a nova função, e fazendo um apelo aos norte-irlandeses para que “aceitem o desafio”.

Poucos haviam antecipado esta evolução. Homem religioso, tão inflexível em sua fé como em suas convicções, Ian Richard Kyle Paisley, nascido no dia 6 de abril de 1926 em Armagh, dedicou sua vida à defesa da causa protestante e à manutenção do Ulster na órbita britânica.

O antigo pastor do Partido Unionista Democrata (DUP) não perdeu seus dotes de orador, mas seu gosto pelo anátema se diluiu, uma evolução talvez inevitável.

Paisley aceitou trabalhar com seus inimigos de ontem e deixar para trás um combate arcaico. A partir de então, liderava o governo norte-irlandês ao lado do vice-primeiro-ministro Martin McGuinness, número dois do Sinn Fein, ex-tenente de seu braço armado, o Exército Republicano Irlandês (IRA).

Ian Paisley pronunciou seu primeiro discurso aos 16 anos. Foi ordenado quatro anos depois por seu pai, um pastor batista. Defende uma leitura literal da Bíblia, e rejeita as interpretações teológicas do catolicismo.

Em 1951, fundou em Belfast sua própria Igreja, a Igreja Presbiteriana Livre, opondo-se à evolução das práticas. Nos anos 60, entrou para a vida política, e inaugurou o método das passeatas maciças, onde arrebanhou seus fiéis.

Certo dia, bombardeou com bolas de neve o primeiro-ministro irlandês. Em 1968, passou seis semanas na prisão. Em 1970, foi eleito deputado no Parlamento britânico de Westminster -se tornou também deputado europeu de 1979 a 2004- e fundou o DUP um ano mais tarde.

Ao longo dos “Troubles”, a violência interconfessional que deixou 3.500 mortos entre 1969 e 1998, rejeitou os protestantes moderados denunciando-os como “traidores” e se negou a ver a menor diferença entre o IRA e seu braço político Sinn Fein.

Rejeitou uma Irlanda unificada e em 1998 se opôs de novamente aos acordos da Sexta-feira Santa, que puseram fim a 30 anos de conflito. A comunidade protestante o considerou como o único que entende suas frustrações e angústia.

Em 2003, foi escolhido nas urnas como líder do primeiro partido unionista da província. O desmantelamento do arsenal do IRA em 2005, depois da assinatura do acordo de Santo André em 2006, para o restablecimento de uma Assembléia semi-autônoma, o obrigaram a mudar seu discurso.

Em 26 de março de 2007, se sentou pela primeira vez na mesma mesa que o dirigente do Sinn Fein, Gerry Adams, com quem concluiu um acordo para dividir o poder.

Fonte: AFP