O primeiro ataque dos novos ateus vai direto à base da fé. Eles questionam a existência de algum Deus. Dizem que é uma hipótese. E improvável. É esse o argumento básico dos livros de Daniel Dennett, Sam Harris e Richard Dawkins (foto).

Mas os religiosos – inclusive vários cientistas – lembram que não seria possível pretender que a ciência, limitada a observar fenômenos materiais, fosse o instrumento adequado para avaliar a existência de Deus.

Um dos raciocínios para amparar o discurso ateu, adotado principalmente por Dennett, é que ficaria difícil acreditar num Deus diferente para cada religião. Se um católico acredita num Deus e um muçulmano acredita em outro, então um dos dois estaria errado. Outro argumento, lembrado por Dawkins, é o que ele chama de evolução da complexidade.

Segundo o biólogo darwinista, qualquer inteligência criativa suficientemente sofisticada para projetar algo só se desenvolve após um longo processo de evolução gradual. Por isso, diz ele, uma inteligência criativa como Deus não poderia ter participado da criação do Universo ou da vida.

O terceiro argumento – o mais explorado – é que simplesmente não há nenhuma evidência concreta da existência de Deus. Tanto Dennett quanto Dawkins usam a metáfora de Bertrand Russell: dizer que Deus existe é como afirmar que há uma xícara de chá em órbita do Sol, entre a Terra e Marte, mas ninguém pode vê-la.

Segundo eles, ambas as hipóteses (da xícara e de Deus) seriam improváveis porque contrariariam as leis conhecidas da natureza e porque seriam difíceis de provar.

O grande trunfo desses cientistas ateus é lembrar como as investigações sobre a origem do Universo não deixam lugar para a criação divina. Nos últimos anos, físicos e astrônomos estão desvendando o que aconteceu antes do big bang, a explosão de matéria e energia que deu origem aos átomos, galáxias, estrelas, planetas e seres vivos inteligentes, como nós.

Segundo as teorias mais aceitas, o que havia antes era algo homogêneo e estável, chamado singularidade inicial. Estável exceto pela probabilidade ínfima de sofrer uma perturbação quântica. E foi o que ocorreu. Essa flutuação precipitou o big bang e a criação do cosmo. O que havia antes dela? Nada, segundo os cosmologistas. “Essa questão é tão sem sentido quanto perguntar o que há ao norte do Pólo Norte”, diz Marcelo Gleiser. Isso porque, antes da singularidade inicial, não havia o tempo. O tempo é uma medida de transformação da matéria. Antes de esse processo existir, o tempo não existia.

E quem ou o que provocou essa primeira oscilação na singularidade inicial e criou o Universo? Para os cosmologistas, o mero acaso. Segundo eles, não houve um evento anterior que tenha provocado essa oscilação. Isso é difícil de aceitar pela nossa lógica habituada à mecânica que rege os eventos no dia-a-dia. A bola de bilhar corre porque foi acertada pelo taco. O taco andou movido pelo músculo do jogador. O músculo foi acionado por um impulso elétrico do cérebro.

E daí por diante. Todo efeito tem uma causa. Mas não é assim na física quântica, que descreve o comportamento das partículas que compõem átomos e energia. Um elétron pode mudar de lugar num átomo pelo simples acaso. Sem nenhuma intencionalidade, inteligente ou divina.

Essa discussão não tem nenhum argumento essencialmente novo. A cada avanço científico, os ateus (ou agnósticos) lembram que os religiosos nunca mostraram nenhuma evidência concreta e irrefutável da existência de Deus. Como resumiu o pesquisador americano Steven Weinberg, Nobel de Física em 1979: “À medida que você aprende mais sobre o Universo, descobre que pode compreender cada vez mais sem nenhuma referência à intervenção sobrenatural. Com isso, você perde interesse nessa possibilidade”. Os religiosos, por sua vez, argumentam que os desafiantes – os ateus – é que devem arcar com o ônus de demonstrar que Deus não existe.

Certamente a ciência pode oferecer explicações melhores para alguns fatos. Há evidência para refutar a idéia de que o mundo tenha sido criado em seis dias ou que a humanidade tenha nascido de Adão e Eva. Mas isso não capacita o conhecimento científico a desafiar o argumento mais metafísico da fé: que a marcha do Universo tem um objetivo. Qual experimento científico poderia comprovar o contrário? Os filósofos afirmam que o conhecimento físico não pode desmentir uma proposta desse tipo. A ciência permite apenas, segundo eles, construir explicações naturais para os fenômenos observáveis. Mas seria ingenuidade acreditar que os argumentos dos cientistas perturbariam a fé das multidões.

Fonte: Revista Época – Edição 443 – 13/11/2006