A revista Época desta semana traz em sua matéria de capa uma extensa reportagem sobre os novos ateus. A matéria mostra por que um grupo de cientistas partiu para uma cruzada contra a fé no mundo. Os novos ateus condenam não apenas a crença em Deus, mas também o respeito pela crença em Deus. Eles acham que as pessoas estariam melhor sem Deus.

Leia a matéria abaixo:

Quando o fim de ano se aproxima, o filósofo americano Daniel Dennett costuma ser abordado por crianças nos aeroportos. Elas percebem seu ar bonachão, as bochechas rosadas e a barba branca, e perguntam se ele está vindo do Pólo Norte. Dennett costuma se abaixar, encostar o indicador na boca e fazer “psiu”, com um ar conspiratório. Em geral puxadas pelos pais, elas se afastam, sua crença no Natal revigorada. Mal sabem que esse bom velhinho que acabaram de encontrar é um dos maiores inimigos da religião. Ele não é apenas um ateu convicto. É um dos mais eminentes líderes do Novo Ateísmo, uma espécie de religião dos não-crentes, que prega o fim da influência de Deus na vida moderna.

Os novos ateus condenam não apenas a crença em Deus, mas também o respeito pela crença em Deus. Segundo eles, a religião não está apenas errada. Ela é perversa. A face mais visível dessa cruzada contra a religião são as dezenas de livros lançados neste ano por cientistas influentes. Três deles estão causando mais impacto. O primeiro é do zoólogo britânico Richard Dawkins, um dos mais conhecidos pesquisadores do evolucionismo. Respeitado há três décadas por suas pesquisas e seus livros de divulgação científica, ele publicou em setembro o livro The God Delusion (algo como A Ilusão de Deus), baseado em um documentário que fez para a TV inglesa. No mesmo tom, o neurocientista americano Sam Harris publicou Letter to a Christian Nation (Carta a uma Nação Cristã), uma espécie de desafio à fé cristã, amparado em uma crítica racional da religião. O mais ponderado dos três é Dennett. No livro Breaking the Spell (que sairá neste mês pela Editora Globo), ele oferece explicações naturais para o surgimento da fé e questiona o papel das religiões.

Embora usem palavras fortes, esses desafiantes não querem soar desrespeitosos. Eles dizem não pretender abalar a fé dos devotos. Seu público-alvo seriam as ovelhas desgarradas, que já trilham caminhos mais céticos. O objetivo, afirmam, é fazer os agnósticos, gente que alimenta dúvidas sobre Deus, assumir o ateísmo. Para isso, brandem o argumento mais incendiário. Dizem que a religiosidade faz mais mal do que bem à humanidade (leia os argumentos nos quadros ao longo da reportagem).

Foi nos Estados Unidos que o grupo de militantes ateus ficou mais ruidoso. O fenômeno cultural já pode ser observado nas bancas de jornal e nas livrarias. De acordo com a Associação Americana dos Livreiros, em 2005 as obras que se enquadram na categoria “céticos e ateus” registraram o maior crescimento da História e o segundo maior entre os gêneros catalogados. A Sociedade dos Céticos edita uma revista mensal com a quinta maior tiragem entre as publicações especializadas do país. Na televisão, a dupla de mágicos Penn Jillette e Raymond Joseph Teller desmascara truques místicos e agora prega o ateísmo no programa Bullshit, no canal Fox News (exibido no Brasil pelo canal pago FX).

Os autores se conhecem e citam uns aos outros. Mas não se pode falar em um movimento ateu organizado. A cruzada contra a religião é uma série de manifestações espontâneas. Ela é fruto do estado de espírito de parte da comunidade científica, assombrada com o avanço político de forças religiosas sobre o mundo laico na última década. Não é uma batalha física nem política, mas pela mente dos cidadãos. Esses cientistas comparam os ateus de hoje aos homossexuais na década de 70. Havia muitos, mas eles não “saíam do armário”, por medo do preconceito. Algumas pesquisas sustentam a comparação. Segundo a revista Newsweek, só 37% dos americanos afirmam que votariam em um ateu para presidente. Em comparação, 49% dizem que votariam em um homossexual, segundo levantamento do instituto Gallup. “Agora, nós precisamos sair do armário”, diz Dawkins. “Quanto mais gente se declarar atéia, mais gente terá coragem de se assumir também”, disse em entrevista à revista Wired.

Há indícios de que o rebanho potencial de Dawkins é crescente. A maior parte das pessoas não compartilha suas dúvidas de fé com os colegas de trabalho nem com parentes. Mesmo assim, uma pesquisa feita pelo instituto Gallup em 2005 revela que cerca de 2,5% da população mundial se declara atéia. Outra pesquisa mundial, encomendada pelo Conselho Pontifício da Cultura do Vaticano, revelou que, de modo geral, a fé perdeu espaço no mundo ocidental. De acordo com o estudo, o ateísmo militante está em retrocesso, mas a indiferença religiosa e a ausência de Deus na vida privada estão em crescimento. “É um fenômeno que acontece nas grandes cidades e envolve homens e mulheres com nível cultural de médio a alto”, diz o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho.

A principal crítica aos novos ateus é que, junto com Deus, eles retirariam a espiritualidade da vida das pessoas. A resposta deles é que a espiritualidade pode vir da contemplação da natureza. Até os ritos poderiam ser preservados, com novos significados. Como faz, por exemplo, o administrador de empresas gaúcho Roberto Moschen, de 34 anos. Ateu, ele criou uma versão alternativa e bem-humorada do Natal. É o Newtal, um natal para o cientista Isaac Newton, que nasceu em 25 de dezembro. Moschen monta na sala de sua casa uma árvore, que, além de bolas coloridas e guirlandas, tem maçãzinhas penduradas. Uma homenagem ao físico que – diz a lenda – teria concebido a teoria da gravitação quando uma fruta caiu em sua cabeça. “É um modo de participar e manter a família próxima”, diz Moschen. Para ele, a religião é algo próprio do ser humano, e todos precisam aprender a conviver com ela. “O problema existe quando a religião começa a tomar o lugar do bom senso”, diz. “Isso não é um problema só para o ateu, mas para qualquer pessoa.”

Principal ícone do Novo Ateísmo, Dawkins vive em Oxford, na Inglaterra. Sua casa fica a apenas 20 minutos de distância do memorial a Percy Bysshe Shelley, um dos maiores poetas românticos, que foi expulso da Universidade de Oxford há quase 200 anos – por ateísmo. Esse destino jamais ameaçou Dawkins. Ao contrário, sua popularidade vem em grande parte da posição polemista que assumiu desde seu primeiro sucesso literário, O Gene Egoísta, em 1976. Por que os ateus não aproveitam simplesmente sua liberdade não-religiosa? “Esse movimento é uma reação”, diz o sociólogo Maurício Martins, que dá aulas de Filosofia da Ciência na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, no Rio de Janeiro. “Nas últimas duas décadas, os pesquisadores se ressentem de que a religião começou a atrapalhar o progresso da ciência.”

Com o sucesso da fertilização in vitro, em 1978, ativistas religiosos foram aos tribunais tentar impedir que a técnica se popularizasse. A briga mudou de foco com a epidemia de aids no início dos anos 80. Líderes católicos diziam que bastava ser fiel para evitar a doença. Chegaram até a dizer que o vírus HIV teria capacidade para ultrapassar a barreira de látex da camisinha. Neste século, a polêmica passou para a clonagem e estudos com células-tronco. O Vaticano e alguns evangélicos acusam os cientistas de brincar de Deus. Nos EUA, uma coalizão cristã levou George W. Bush à Presidência e, de lá para cá, influencia a política federal para assuntos que vão da Justiça à alocação de verbas para pesquisas.

Provavelmente, o que mais preocupa os cientistas é que algumas denominações evangélicas querem incluir novamente as versões religiosas no currículo de Biologia das escolas públicas. Afirmam que a Bíblia deve ser lida de forma literal. Seu argumento é que se deve ensinar um “criacionismo científico” às crianças. É por isso que membros da Academia de Ciência dos EUA e da União Americana de Liberdades Civis se declararam ateus e saíram para o debate em 2000. O avanço da religião contra a ciência também aconteceu no Brasil. No Rio de Janeiro, uma lei estadual promulgada há seis anos pelo então governador Anthony Garotinho incluiu o ensino religioso no currículo de escolas estaduais públicas. Parte dos alunos passou a aprender que o homem foi criado do barro e a mulher veio da costela de Adão.

Mesmo morando em São Paulo, a dentista paulista Simone Bogus, de 41 anos, não quis correr o risco de seu filho aprender alguma espécie de teoria criacionista. Ao matricular Pedro, de 8 anos, na escola, fez questão de destacar que é atéia na opção religiosa. “Peço para que ninguém implique com ele nem imponha nada de religião”, diz. Ela tem pais s católicos, estudou em colégio batista, morou com uma família judia e foi evangélica fervorosa, mas diz que deixou de acreditar em Deus há quatro anos.

Simone afirma querer deixar o filho livre para definir as próprias crenças. “Quando o avô dele morreu, muitos familiares disseram que tinha ido para o céu”, afirma. “Eu não brigo se meu filho acreditar nisso, mas preferi dizer a ele que o corpo do avô foi comido por bactérias, virou pó e que eles nunca mais se verão. Meu filho não pode ser privado da realidade”, diz. Embora ache a religião algo absolutamente dispensável e alienante, não entra em polêmicas. “Se uma senhora de 80 anos me diz: ‘Deus te abençoe’, eu respondo ‘Amém’ e encaro como uma demonstração de carinho.”

Paradoxalmente, a investida dos novos ateus contra a religião dificulta a retirada do “criacionismo científico” dos currículos das escolas. Quando assume o confronto, Dawkins dá razão aos fundamentalistas, que dizem que o darwinismo é a porta de entrada para o ateísmo. “Quem perde com a radicalização de posições são os moderados, tanto religiosos quanto cientistas”, diz Eduardo Cruz, físico e teólogo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Em um mundo assombrado pelo fundamentalismo religioso, o embate não ajuda. “Não é hora de acirrarmos o conflito, mas de buscar formas de conciliação.”

Mas a conciliação ficou mais distante com o ataque dos ateus. Tamanha rixa entre ciência e fé não existia desde 1859, quando Darwin publicou A Origem das Espécies. Aquela foi, na visão dos religiosos, a maior agressão dos cientistas à fé. A obra de Darwin virou a base da biologia moderna. Segundo ele, as espécies evoluem pelo mecanismo de seleção natural. O processo começa pelas mutações, naturais em qualquer reprodução. Por mais parecidos que sejam com os pais, os filhos sempre têm características diferentes. Essas diferenças os tornam mais ou menos capazes de sobreviver e reproduzir no ambiente em que vivem. Alguns desses traços favorecem o sucesso dos indivíduos: força física, velocidade, capacidade de digerir alimentos mais duros, uma cor que confunde seu maior predador, atratividade para o sexo oposto etc. Como os indivíduos com traços mais vantajosos tendem a ter prole maior, esses traços acabam se espalhando por toda a população. E assim a espécie muda. A teoria foi criticada pelos religiosos desde o início, por tirar do homem o status de “criado à imagem e semelhança” de Deus, “rebaixando-o” a um macaco aperfeiçoado. Nos últimos 150 anos, foi comprovada e aprimorada. Pesquisas genéticas recentes revelam que 98,5% do DNA humano é igual ao do chimpanzé.

A maioria das religiões cristãs se adaptou, ao longo do tempo, ao avanço das idéias científicas. Elas lêem o texto do Gênesis – o livro bíblico que trata da criação do mundo – como um relato simbólico, que não deve ser tomado ao pé da letra. Em paralelo, grande parte dos cientistas também convive bem com a própria fé e a dos outros. Alguns seguem um princípio que foi definido pelo biólogo americano Stephen Jay s Gould como o dos magistérios que não se misturam. Segundo Gould, que se dizia agnóstico, os cientistas se limitariam a explicar o que diz respeito ao mundo natural. Já os filósofos e religiosos se encarregariam de questões sobre o sentido da existência.

Mas os cientistas religiosos preferem harmonizar a fé e a razão. “Gould estabelece um muro artificial entre duas visões de mundo”, diz o geneticista Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Genoma Humano, que coordenou o trabalho internacional para mapear o DNA humano. “Acredito que a força criadora de Deus fez tudo existir em primeiro lugar. Por isso, estudar o mundo natural é uma oportunidade para observar a elegância e a complexidade da criação divina”, diz. Tanto os agnósticos, como Gould, quanto os devotos, como Collins, têm em comum a opção por lutar contra o confronto entre ciência e religião.

Não são só os cientistas religiosos que condenam a postura belicosa dos novos ateus. Mesmo declarando-se ateu e divulgando ciência em um quadro do Fantástico, da TV Globo, o físico brasileiro Marcelo Gleiser não faz proselitismo. Ele diz que, durante uma entrevista telefônica, compreendeu a importância da fé. De seu escritório, em Dartmouth College, nos EUA, Gleiser explicava a versão científica para a criação e os destinos do mundo. Do outro lado da linha, um jornalista de uma rádio em Brasília, ao vivo do terminal de ônibus da cidade, transmitia para Gleiser as dúvidas dos passantes. “Eu explicava como grandes asteróides caem na Terra, de tempos em tempos”, diz. “Contava como um deles pode nos varrer do planeta, assim como ocorreu com os dinossauros. E que isso não tem nada a ver com a versão do apocalipse que está na Bíblia”, afirma. Nessa hora, diz Gleiser, um ouvinte entrou na linha e se queixou: “Mas o doutor está querendo tirar até Deus da gente”. Foi um estalo, diz. “A gente tira Deus e não oferece nenhum apoio espiritual no lugar.”

A posição de Gleiser mostra como esse debate tende a ser menos radical no Brasil. “Por um lado, os brasileiros não se sentiriam confortáveis se o Estado não fosse laico”, diz a historiadora Eliane Moura da Silva, da Unicamp, especializada em religiões. Mas ela afirma que a religiosidade tem uma chancela oficial. Há um crucifixo em cada Tribunal de Justiça e até no plenário do Congresso. “Quando você chama a atenção para isso, as pessoas se sentem ofendidas”, diz. “Mas e se eu sou muçulmana e atrás do juiz tem um Cristo?” Ela afirma que a religiosidade está enraizada na cultura nacional. “As pessoas aqui podem abandonar uma religião para abraçar alguma outra. Mas é uma heresia se declarar ateu”, diz Eliane. “Enquanto discutíamos o ateísmo, a aula ia bem. Quando mostrei minha posição – sou atéia -, as pessoas ficaram incomodadas e agressivas.” A aula fazia parte de um curso sobre grandes religiões. Um dos dias era dedicado à falta de religião. “As pessoas se revoltaram.”

Até por causa dessa cultura religiosa, a maioria dos ateus brasileiros aprendeu a conviver bem com a fé do próximo. Oscar Arine, arquiteto aposentado de 73 anos, é ateu desde a infância. Filho de pai comunista e mãe professora de catequese, afirma que nunca sentiu necessidade de explicações divinas para a vida e sempre assumiu seu ateísmo. “Depois que saí do colégio católico, aos 11 anos, nunca mais rezei”, diz. Na juventude, mantinha uma postura radical. Casou-se apenas no civil, embora sua mulher fosse católica. “Entrar numa igreja e desempenhar aquele papel ia ser uma enganação, seria trapacear comigo mesmo”, afirma. Com o tempo, mudou. Os três filhos e o neto, que mora com ele, são batizados na Igreja Católica. Recentemente, diz ter organizado uma missa em memória de um amigo que morreu, também ateu. “Era um modo de homenageá-lo, dar um alento à família e reunir os nossos amigos”, afirma.

Arine costuma levar o neto para visitar um presépio em tamanho natural próximo a sua casa. Esse é um dos lugares preferidos do garoto Ariom, de 3 anos, que se diverte correndo entre as imagens de animais. “Uma vez entrei com ele na igreja, para ver como reagiria. Ariom foi logo apontando um vitral e dizendo que era Jesus Cristo. Alguém deve ter ensinado a ele. Eu não digo se existe ou não existe Deus, mas acho bom que ele conheça. Mais tarde ele vai poder definir em que acredita”, diz.

Essa é uma posição bem mais ponderada que a cruzada dos novos ateus. Eles acreditam que no futuro a ciência possa ofuscar a fé. Não é uma crença tão nova. O biólogo inglês Francis Crick, que descobriu a estrutura do DNA, parecia crer que o fim das religiões seria iminente. Tanto que, em 1963, ofereceu 100 libras na Universidade de Cambridge para um concurso de ensaios. O tema: “O que fazer com as capelas do campus?”. O vencedor sugeria que fossem transformadas em piscinas. A resposta dos capelões foi criar outro concurso com o tema: “O que fazer com o Dr. Crick?”. O biólogo morreu em 2004, a tempo de ver completado o seqüenciamento do genoma humano. Mas as capelas do campus continuam lá. E Francis Collins, o cientista que coordenou o Projeto Genoma, é um dos maiores defensores da fé.

Fonte: Revista Época – Edição 443 – 13/11/2006