Leia a reportagem publicada na revista Veja desta semana sobre a polêmica gerada pela novela “Duas Caras”, da Globo, envolvendo atores que interpretam personagens evangélicos.

Revista Veja:

Na quarta-feira passada, a evangélica Edivânia (Susana Ribeiro) deu um show de intolerância na novela Duas Caras. Seus alvos eram o gay Bernardinho (Thiago Mendonça), a ex-drogada Dália (Leona Cavalli) e o garçom Heraldo (Alexandre Slavieiro) – que vivem um triângulo amoroso na favela da Portelinha. Ao saber que os três haviam comprado um colchão king-size, Edivânia dirigiu-se à casa deles acompanhada de uma multidão. Com a Bíblia em punho, vociferou: “Pelas trombetas de Jericó, vamos extirpar o demônio da Terra. Quem for por Deus que me siga”. Ao deparar com Dália, grávida de um dos rapazes, Edivânia perdeu as estribeiras de vez. “Vamos tirar a besta do Apocalipse que mora nesse corpo”, gritou, desferindo uma pedrada na testa da outra. Em seguida, Edivânia sacou de uma faca e fez picadinho do tal colchão. Suas caras e bocas foram um capítulo à parte – dignas de O Exorcista.

Com o núcleo evangélico de Duas Caras, Aguinaldo Silva foi mais ousado que qualquer outro noveleiro da Globo ao abordar esse tema delicado. Criou uma ala de “crentes do bem”, de atitude moderada, encabeçada pelo motorista Ezequiel (Flávio Bauraqui). E uma ala de “crentes do mal” – os fanáticos liderados por Edivânia, que usa cabelão, saia comprida e Bíblia embaixo do braço. Ao ser escalada para o papel, Susana Ribeiro recebeu uma orientação do diretor Wolf Maya. “Antes de mais nada, eu deveria parecer louca”, diz ela.

É notório que a Globo tem a antipatia de uma parcela dos evangélicos – e vice-versa. A Igreja Universal do Reino de Deus é ligada à sua rival Record. Os crentes das religiões neopentecostais com freqüência se julgam vítimas de estereótipos. Antes mesmo das cenas da semana passada, blogs religiosos já criticavam a representação dos evangélicos em Duas Caras. Depois da exibição, o serviço de atendimento ao espectador da Globo registrou várias reclamações de fiéis. Mas isso não impediu a novela de pôr mais lenha na fogueira no capítulo seguinte. Heraldo e Bernardinho foram salvos do linchamento pela intervenção de Juvenal Antena (Antonio Fagundes), de revólver em punho. Depois de escapar da turba de Edivânia, Dália deu à luz no meio do mato. “Nossa Senhora, salve esta criança”, rogou, como uma boa católica. E tanto o bebê quanto ela se safaram.

Fonte: Revista Veja