Foi aberta uma investigação contra uma seita ortodoxa cujos fiéis, entre eles quatro crianças, estão entrincheirados num abrigo subterrâneo, ameaçando fazer-se explodir se as autoridades tentarem tirá-los de lá.

As autoridades evitam avançar nas investigações com medo de uma carnificina, segundo Vladimir Provotorov, administrador regional. “Eles esperam o Apocalipse. Deixem que o façam”, diz.

“Dizem que tudo é diabólico no mundo. Que a globalização é diabólica e prevêem a chegada do Anticristo”, explica o padre Alexe, que veio rezar no local perto da cidade de Nikolsko e na região de Pienza (500 km a sudeste de Moscou).

“Lamento por eles, por terem se aprisionado por um sonho que não existe”, acrescenta, esperando que “saiam mais cedo ou mais tarde”.

O grupo ameaça explodir tudo com botijões de gás se as forças da ordem tentarem retirá-los de seu abrigo, instalado no fundo de um barranco, onde acreditam piamente que estão protegidos do fim do mundo.

O local, onde estão há quase duas semanas, está coberto de neve e varrido por muito vento. A polícia proíbe o acesso dos curiosos.

A temperatura oscila entre -5° e -10°, e religiosos locais organizam missas numa grande tenda perto, pela salvação da seita.

Apesar do frio, os 30 adeptos rejeitam os apelos feitos por autoridades civis e religiosas, anunciando que representam a “verdadeira” Igreja ortodoxa. Os pedidos para que deixem as crianças sair são feitos em vão.

Segundo os moradores de Nikolsko¯e, o guru da seita, Piotr Kouznetsov, apelidado de Petia, é um rapaz sério, vindo de uma família piedosa – sua mãe cantava nas cerimônias fúnebres – e chegou a estudar engenharia.

“Petia passou por uma lavagem cerebral… Mas eles não perturbam ninguém”, conta Liouda, uma camponesa.

Segundo os moradores, os adeptos da seita viviam em paz em Nikolsko¯e há vários meses, andando pela cidade em grandes roupas pretas, rejeitando o conforto moderno da eletricidade e do telefone.

Eles calcularam a chegada do Apocalipse estudando as estrelas, segundo as autoridades russas.

“Algumas de suas idéias se parecem às da antiglobalização no Ocidente. É uma rejeição à civilização”, afirma Iouri, vizinho da tia de Piotr Kouznetsov, na aldeia vizinha de Bekovo.

Eles vêem de várias regiões da Rússia, mas também da Belarus e da Ucrânia, ocupando cinco casas da cidade, reconhecíveis pelas grandes cruzes ortodoxas que afixaram no telhado e nas portas.

As seitas se multiplicaram na Rússia desde a queda da URSS em 1991, contribuindo para uma grande confusão ideológica e econômica.

Este acontecimento, amplamente divulgado pela televisão nacional russa, é “um perfeito exemplo do que pode acontecer numa sociedade que não tem educação religiosa”, comentou o metropolita Kirill, porta-voz da Igreja ortodoxa russa.

Fonte: AFP