Um primeiro relatório da Igreja polonesa sobre suas ligações com a antiga polícia comunista (SB), que será publicado na quinta-feira, expõe detalhadamente os mecanismos da colaboração de alguns de seus padres mas também sua resistência.

Intitulado “a Igreja católica da ditadura comunista: entre heroísmo e colaboração”, o documento de 450 páginas trata exclusivamente da região de Cracóvia, a cidade onde Karol Wojtyla foi arcebispo antes de se tornar, em 1978, o Papa João Paulo II.

“Trata-se do primeiro relatório deste tipo na Polônia”, afirmou à AFO o porta-voz do arcebispado de Cracóvia, o padre Robert Necek.

“Existem casos positivos de padres que foram infalíveis, e casos de pacadores, de padres que faltaram a sua vocação. Entre estes últimos, está um padre da cúria de Cracóvia, já falecido, e outros três padres ainda vivos, um dos quais já renunciou”, acrescentou.

O relatório, do qual a AFP obteve uma cópia antes de sua publicação, menciona os nomes destes padres, o histórico de sua colaboração, o tipo de informações transmitidas e as diferentes formas de remuneração.

Estas remunerações eram pagas em dinheiro ou com presentes baratos como café, conhaque, frutas cítricas ou medicamentos, coisas raras na economia de penúria comunista. Às vezes, os presentes eram mais caros (uma moto).

Para o padre Adam Boniecki, redator-chefe da revista católica Tygodnik Powszechny, “o relatório não abala a imagem da Igreja”. “Ele mostra o gigantesco esquema instalado pelo regime para prejudicar a Igreja”, considerou.

O relatório foi encomendado pelo arcebispo de Cracóvia, Stanislas Dziwicz, o ex-secretário de João Paulo II. Uma segunda parte do documento deve ser publicada em meados deste ano.

A publicação da primeira parte do relatório acontece um mês depois da renúncia do arcebispo Stanislaw Wielgus que provocou uma crise profunda na Igreja polonesa.

Sucessor do cardeal Jozef Glemp no arcebispado de Varsóvia, Wieglus foi obrigado a renunciar algumas horas antes da cerimônia oficial de sua posse, em 7 de janeiro, depois da publicação pela imprensa de documentos comprovando sua colaboração duradoura com a polícia comunista.

A crise levou a Igreja polonesa a examinar o passado de todos seus bispos e a instalar em todos os dioceses comissões históricas especiais para este fim.

De acordo com o Instituto da Memória Nacional (IPN), entre 10% e 15% dos religiosos poloneses colaboraram com a SB.

Como a polícia secreta comunista subornava os padres poloneses

Medicamentos, dinheiro e até uma moto: a polícia secreta comunista recorria a todos os tipos de suborno para obter preciosas informações sobre Karol Wojtyla, o futuro João Paulo II, de um padre que o freqüentava em Cracóvia.

Num relatório que deve ser publicado nesta quinta-feira, a Igreja polonesa conta em detalhes a história do padre Mieczyslaw Satory, que colaborou com a polícia secreta comunista durante mais de 30 anos.

Recrutado pouco depois da guerra, o padre Satory foi um agente precioso para a SB. Nomeado para a cúria de Cracóvia, ele morava no mesmo edifício que Karol Wojtyla.

Suas missões consistiram em fornecer informações detalhadas sobre o apartamento do futuro padre, sua localização no edifício e a disposição dos móveis. Ele devia indicar à SB o lugar ideal para observar Wojtyla discretamente, verificar o tipo de fechadura de seu apartamento e até duplicar as chaves para permitir a entrada dos agentes nos aposentos do futuro Papa.

A SB pediu a Satory a agenda detalhada de Wojtyla, incluindo a hora que ele acordava e seus compromissos marcados. Ele também devia informar a polícia com antecedência sobre as saídas do futuro Papa de Cracóvia.

O padre trazia à SB documentos do arcebispado, fotos e planos dos locais, assim como os carimbos oficiais da cúria. A polícia também o havia ensinado a utilizar uma mini-câmera fotográfica.

Para seu trabalho, Satory recebia vários tipos de remuneração. A primeira, registrada em 31 de março de 1947, é uma peça de tecido. O padre também recebeu dinheiro e presentes como frutas cítricas, café, vinho ou chocolate.

Os registros também revelam presentes mais surpreendentes como 100 litros de gasolina, ingressos para um jogo de futebol ou uma moto polonesa de marca “Jawa”.

Ele também ganhava remédios. Diabético, recebia regularmente insulina do Ocidente. Segundo os historiadores, a doença do padre, que era estreitamente vigiado por outros agentes da SB, foi um dos motivos principais de sua colaboração com a polícia comunista.

Fonte: AFP