O ex-bispo Fernando Lugo, que renunciou ao sacerdócio para entrar na política do Paraguai, disse na sexta-feira que se não houver fraude ele será eleito presidente na votação de abril de 2008.

Em visita à Argentina para estabelecer contatos com a comunidade paraguaia no país vizinho, que soma cerca de 1,5 milhão de pessoas, Lugo afirmou não estar manchado por “mentiras políticas” e não ter “compromissos do passado”, o que lhe daria o favoritismo na campanha.

“Se não houver impugnações, fraude ou armadilha eleitoral, o triunfo nas eleições do ano que vem será categórico”, afirmou Lugo à Reuters.

Uma recente pesquisa em Assunção mostrou Lugo como favorito, com 40,8 por cento das intenções de voto, bem à frente dos 16,3 por cento do segundo colocado, o vice-presidente Luis Castiglioni, que ainda precisa superar as primárias do Partido Colorado, em 16 de dezembro, contra a atual ministra da Educação, Blanca Ovelar.

O presidente Nicanor Duarte Frutos disse há alguns dias que seu partido vai impugnar a candidatura de Lugo, já que a Constituição proíbe que clérigos disputem a Presidência.

O ex-sacerdote, de 56 anos, tem o apoio de movimentos sociais de esquerda, depois de ser por mais de uma década bispo do Departamento de San Pedro, um dos mais pobres e turbulentos do país.

“Estamos construindo um caminho diferente, não pedimos o voto, simplesmente escutamos as pessoas na nossa trajetória por todo o Paraguai”, disse ele, depois de se encontrar com parlamentares argentinos que lhe prometeram apoio.

Em sua passagem por Buenos Aires, que vai até domingo, ele está acompanhado de vários empresários. Na quinta-feira, recebeu uma saudação do presidente argentino, Néstor Kirchner.

“Devemos trabalhar num processo de integração latino-americana mais amplo, onde o Mercosul seja uma proposta social, política, e não só comercial”, afirmou, referindo-se ao bloco formado também por Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela.

O tema energético é um dos pontos da política externa que preocupa Lugo, que promete tentar renegociar os contratos das hidrelétricas binacionais de Itaipu (parceria com o Brasil) e Yacyretá (com a Argentina).

“Queremos iniciar um processo de assessoramento jurídico para ver tudo o que for factível para renegociar os contratos da energia vendida pelo Paraguai, a qual deve ser a preço de mercado, e não de custo”, afirmou o ex-bispo.

“O Paraguai recebe cerca de 250 milhões de dólares por ano pela venda a preço de custo de energia a seus vizinhos, mas se o fizesse pelo valor do mercado entrariam uns 3,5 bilhões de dólares. Trabalharemos para isso”, insistiu durante a entrevista.

O candidato disse estar preocupado com a má imagem no exterior da Tríplice Fronteira (Brasil-Argentina-Paraguai), onde os EUA suspeitam que haja presença de grupos ligados ao terrorismo internacional.

Quase cinco meses depois de lançar a candidatura, o ex-bispo se mantém na frente das pesquisas e se apresenta como o único capaz de derrotar o Partido Colorado (centro-direita), que governa o Paraguai há mais de 60 anos.

Entretanto, ele reconheceu que precisa de alianças políticas para chegar à Presidência, e por isso negocia com partidos opositores a formalização da candidatura pela Concertação Nacional, agrupamento que já formou uma equipe jurídica que avalia sua defesa contra a impugnação.

Enquanto isso, Lugo visitará em junho as comunidades paraguaias de Nova York e Madri, atendendo a convites já aceitos. (Colaborou Daniela Desantis em Assunção)

Fonte: Reuters