Solidárias com o padre Júlio Lancellotti, a Arquidiocese de São Paulo e a cúpula da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) torcem para que ele prove ser inocente das acusações recentes. Mas estão prontas a reconhecer o pecado e pedir perdão, se alguma coisa for provada contra Lancellotti.

“Se for verdade o que se diz contra o padre Júlio, humildemente vamos reconhecer o erro. Mas até agora acreditamos na versão dele e esperamos que seja feita justiça”, afirmou d. Pedro Stringhini, bispo auxiliar de São Paulo e presidente da Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz na CNBB. D. Pedro, que participou ontem de reunião do arcebispo d. Odilo Scherer com seus seis bispos auxiliares, informou que nada mudou na posição da Igreja sobre o padre. “Lamentamos que acusações virem condenação, porque acusadores estão encontrando campo fértil em seus depoimentos.”

A CNBB mantém o apoio dado ao padre em carta na semana passada, na qual agradece pelo trabalho de “décadas junto aos pobres”. Mas a cúpula do episcopado acha que quem deve se manifestar sobre desdobramentos do caso é a Arquidiocese. “Acreditamos na inocência dele e reafirmamos total apoio”, declarou o padre Juarez Pedro de Castro, secretário-geral do Vicariato da Comunicação da Arquidiocese. “Padre Júlio, um homem inteligente, não seria louco de se meter nesse processo, ao denunciar a extorsão, se tivesse algo a esconder.”

O bispo de Jales (SP), d. Demétrio Valentini, presidente da Caritas, entidade assistencial da Igreja, estranha que o padre tenha passado de vítima a réu. Atribui a “inversão do processo” ao fato de Lancellotti se dedicar, há mais de 30 anos, à defesa dos direitos humanos.

“É possível que, ao denunciar uma suposta pedofilia, essas pessoas acreditassem que receberão milhões, como nos Estados Unidos”, disse d. Demétrio. Seria um equívoco, afirmou. “Ao contrário dos EUA, onde padres são considerados funcionários da Igreja, no Brasil o clero não recebe salário, mas a côngrua – equivalente a uma verba de representação, sem vínculo trabalhista. No caso de um sacerdote ser condenado, a diocese poderia até ajudá-lo, mas não estaria obrigada por lei a pagar indenização.”

Sacerdote deu R$ 400 mil a casal, calcula polícia

A polícia estima que o padre Júlio Lancellotti tenha entregado cerca de R$ 400 mil ao casal Anderson Batista e Conceição Eletério. Os investigadores não encontraram até agora indícios de que Lancellotti tenha desviado o dinheiro público dado ao Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto. O que se sabe é que o sacerdote não tinha acesso à contabilidade ou aos cheques da entidade, da qual é conselheiro.

A suspeita da polícia é de que o dinheiro extorquido de Lancellotti tenha vindo de doações recebidas pelo padre de particulares e de empresas que faziam caridade. O dinheiro era obtido, principalmente, em jantares beneficentes. Os suspeitos do achaque alegam que receberam R$ 600 mil do padre. O advogado de Lancellotti, Luiz Eduardo Greenhalgh, disse no sábado que Lancellotti entregou ao bando R$ 140 mil.

Se o dinheiro público não saiu da ONG, as doações particulares recebidas pelo padre nos últimos anos entraram na mira da polícia. Por essa hipótese, o religioso teria recebido quantias que não chegaram integralmente ao caixa do centro. Os policiais querem saber o volume de dinheiro movimentado pelo religioso em sua conta corrente e quanto ele recebeu pessoalmente de doadores.

O delegado André Luiz Pimentel, da 5ª Delegacia Seccional, disse que em momento oportuno pedirá a quebra de sigilo bancário de Lancellotti. “Antes será preciso fazer diligências. O padre é vítima.”

O padre disse à polícia que recebe R$ 2.332 como funcionário da Fundação Casa (ex-Febem), R$ 1 mil do Centro Social Bom Parto, salário da Igreja, doações e pequenas quantias por serviços prestados em missas, casamentos e outros atos religiosos. Segundo ele, toda a doação recebida era repassada à entidade.

Como funcionário da Fundação Casa, Lancellotti, em tese, seria equiparado a funcionário público. Assim, advogados ouvidos pelo Estado dizem que, em caso de desvio de dinheiro público, um funcionário responde pelo crime de peculato. Caso se aproprie de dinheiro particular sob sua guarda, o delito, em tese, é o de apropriação indébita.

No dia 22, ao voltar à polícia para dizer que dera à Batista R$ 80 mil, Lancellotti contou que seus recursos estavam “exauridos”.“Tentamos chegar à quantia exata (extorquida), porque até agora são só palavras”, disse o policial.

Hoje, às 15 horas, o delegado ouvirá os policiais militares Luiz Mariano e Umberto Braga, que em 14 de outubro localizaram a Pajero de Batista perto de uma favela da zona norte. Os PMs levaram Batista até o 9º Distrito para que ele pegasse a Pajero. Quando desconfiou que seria preso pela acusação de extorsão, decretada cinco dias antes, Batista fugiu do DP.

O carro foi pago pelo padre. Para isso, foi usado dinheiro do seguro de um Audi que ele teria comprado para Batista, que foi roubado.

Segundo vizinhos, Batista visitava em média duas vezes por semana Conceição Eletério em um apartamento no centro, onde os dois foram presos na sexta-feira. As testemunhas disseram que os carros do ex-interno chamaram a atenção: um Honda Civic, a Pajero e, nos últimos meses, uma Hilux.

Um dos vizinhos contou que um dos comparsas de Batista, Everson Guimarães, ficava no apartamento com Conceição e um dos filhos dela. “Everson passava no almoço e no jantar com sacolas do McDonald’s e era ele quem saía com o menino.”

Fonte: Estadão