Não haverá paz no mundo, se não houver paz entre as religiões, sustentou o professor Hans Küng, na Semana da Ética e a Paz Mundial, encerrada no sábado, 24, em Bogotá, na Colombia.

O teólogo de origem suíça defendeu a aceitação comum de uma ética mínima, que não supõe a dissolução da ética cristã, que é uma ética de máximas.

O palestrante explicou que uma ética de máximas, como a cristã, num dado momento pode representar uma força de dissensão no coletivo plural de uma ética civil. A aceitação supõe a tolerância de determinadas questões que podem ser consideradas pelos cristãos como um mal, mas ela não deve significar a hesitação das máximas, nem a impossibilidade de prosseguir o diálogo.

Küng assinalou também que um cristão pode aceitar uma ética civil de mínimas, sem renunciar, no diálogo, de propor seus próprios ideais, às vezes sob a forma de uma leal dissensão.

Aqueles que fizeram a sociedade avançar foram pessoas que romperam os consensos sociais. Os profetas traspassaram os consensos, confrontando-os com o status quo. Confronto que, com freqüência, acabou com a eliminação do profeta. As idéias dos profetas autênticos perduram e se impõem. As gerações posteriores recuperam a figura do profeta, mitificando-o ou canonizando-o.

São precisamente os profetas que fazem avançar o processo dialógico, porque jamais se detém. Se ninguém tivesse quebrado o consenso, por exemplo, ainda hoje a escravidão estaria em voga.

Jesus de Nazaré rompeu o consenso religioso através do depoimento, do serviço e da debilidade, e não a partir da força e do poder. Seu exemplo foi seguido por muitos profetas, que optaram pela denúncia das injustiças a partir do serviço e da não-violência: “O filho do homem veio para servir, não para ser servido” (Marcos 10, 45), mencionou o teólogo católico.

A dissensão, adicionou Küng, deve expressar-se na tolerância e no testemunho. A maneira de fazer compreender aos demais os valores de determinadas práticas ou maneiras de fazer próprias dos cristãos deverá priorizar sempre o testemunho. O amor que Jesus pede para com o próximo supõe que a pessoa deve encarnar de maneira coerente, em sua própria vida, os valores que defende. Só assim serão vistos e apreciados como valores, e não como imposições.

O diálogo, o exemplo e o serviço são as formas mais adequadas de expressar o amor ao próximo no mundo. Assim, uma comunidade como a cristã, que não aceita o aborto, deveria mostrar de modo claro de que maneira dá valor à vida humana desde o momento da concepção: acolhendo e ajudando mães sem recursos, mães solteiras, e ajudando no planejamento familiar.

“Na atualidade, crentes das diversas religiões não podem seguir procurando dar respostas às urgências éticas a partir dos critérios e princípios aparentemente inquestionáveis, fixados de antemão, como se tivessem validade situada além da história. Inclusive dentro das diversas posturas cristãs também não resulta compreensível procurar soluções eternas a partir da teologia moral, valendo-se de deduções feitas a partir de uma natureza ou essência humana universal e imutável”, disse Küng.

As religiões, enfatizou o professor, podem proporcionar um horizonte global e um sentido último da vida frente às experiências concretas que radicalizam a pergunta pelo sentido (a dor, a injustiça, a culpa, a morte) – o de onde vem e para onde vai a humanidade.

Além disso, elas podem garantir valores e princípios supremos, como a responsabilidade, a convivência harmônica e esperançosa no lar. Uma comunidade e um lar espiritual podem impulsionar o protesto e a resistência contra a injustiça. O anseio atuante do “totalmente outro”.

No entanto, adicionou Küng, é preciso distinguir a autêntica experiência religiosa da pseudoreligião, que coloca no absoluto algo relativo: a ciência, a tecnologia, o dinheiro, o sistema de mercado ou o poder no atual contexto de crítica à modernidade. Não se trata de voltar a tornar absoluto algo relativo, senão de renovar a experiência da fé no único e verdadeiro Deus.

As grandes religiões estão em condições de mobilizar pessoas em favor de uma ética planetária: definindo objetivos morais, apresentando diretrizes e critérios de ação, motivando racional e emocionalmente os seres humanos, para que as normas morais possam ser vividas na prática.

Trata-se, concretamente, de fomentar a paz e a reconciliação entre os povos, de apoiar as exigências da justiça social e do cuidado com o meio ambiente. Isso é possível porque toda religião verdadeira fomenta a verdadeira humanidade e, em definitivo, procura que os homens se comportem de maneira autenticamente humana com o seu próximo.

As religiões oferecem um imperativo categórico definitivo e incondicional suscetível de ser levado à prática, ainda que em situações sumamente complexas. Trata-se da regra de ouro, que diz, negativamente: “Não faça aos outros o que não queres que façam a ti”. Ou, positivamente: “Faça aos outros o que queres para ti”.

Fonte: ALC