Omar Silva da Costa, presidente do SBTeO Seminário Brasileiro de Teologia (SBTe), cujo presidente é o pastor Omar Silva da Costa (foto), oferece cursos acadêmicos na área com apenas seis módulos de aprendizado à distância e 90 dias de estudo para que qualquer pessoa possa ter o título de bacharel, mestre ou doutor. Com direito a diploma e tudo. Para o diretor executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (Aste), Fernando Bortoletto Filho, curso é picaretagem.

Se o estudo aprofundado da história das religiões, conhecimento da filosofia da Bíblia e o significado de Deus em todas as civilizações parecem conceitos de difícil apreensão para um aspirante a teólogo, não é preciso mais agonia. Uma instituição mineira oferece cursos acadêmicos na área com apenas seis módulos de aprendizado à distância e 90 dias de estudo para que qualquer pessoa possa ter o título de bacharel, mestre ou doutor. Com direito a diploma e tudo.

Não é preciso atravessar a hierarquia tradicional para alcançar os títulos mais altos da academia no Seminário Brasileiro de Teologia (SBTe). Por apenas R$ 1.800 qualquer pessoa poderá receber em casa seis módulos de ensino associado a mais de 500 perguntas relacionadas à Bíblia Sagrada para alcançar o título de doutor. O pré-requisito é apenas ter boa memória para associar o assunto contido nas escrituras milenares às perguntas do curso, dedicação à leitura e rapidez de raciocínio. Tudo para a “defesa dos interesses bíblicos”.

Um aluno com dedicação exclusiva poderá concluir em apenas 90 dias, segundo propaganda do site. Basta responder corretamente às questões e escrever uma tese de doutorado com apenas 50 páginas, relacionada a um dos 20 assuntos oferecidos pelo SBT. No final do processo, terá o poder de saber absolutamente tudo sobre Teologia e Bíblia e até a contagem estatística de quantas pessoas já viveram desde Adão e Eva até os tempos atuais e quantas morrerão nas futuras 3ª e 4ª Guerras Mundiais.

Seria um presente de Deus para qualquer temente a Ele se um pequeno detalhe não pudesse pôr tudo a perder: os títulos acadêmicos, oficialmente, não têm nenhum valor de reconhecimento junto ao Ministério da Educação. O parecer 241 do MEC, de 1999, que regulariza cursos de teologia em todo País, não aprovou o modelo do SBTe, por não atender às exigências curriculares e de carga horária similares às das demais formações acadêmicas vigentes e foram enquadradas na categoria de cursos livres.

Os cursos do SBTe são plenamente legais se forem considerados livres, o que significa que têm validade somente dentro das comunidades eclesiásticas às quais são associados ou qualquer outra instituição não-pública que o aceite como formação curricular. “Mas se uma pessoa quiser usar um titulo, por exemplo, de bacharel, para solicitar o ingresso em um mestrado de uma faculdade autorizada pelo MEC, não poderá fazê-lo”, explica o coordenador-geral de Orientação e Controles da Educação Superior do MEC, Jorge Gregori.

Desconhecimento

Gregori também afirma que o Seminário jamais solicitou ao ministério o credenciamento de qualquer um dos cursos ditos acadêmicos. “Uma instituição que oferta cursos universitários precisa enviar documentos dessa solicitação e ser avaliada pelo MEC para provar que tem condições de oferecer estes cursos. O reconhecimento é feito após uma avaliação da primeira turma de formandos”, relata o coordenador, lembrando que o SBTe jamais entrou com nenhum tipo de documentação junto ao órgão federal.

Surpreendido pelo uso das alcunhas “bacharelado”, “mestrado” e “doutorado” nas ofertas do site, Gregori disse que o MEC enviará uma notificação à empresa para que substitua as denominações dos cursos. Em caso de persistência, a infração será encaminhada ao Ministério Público para averiguação criminal. “O Seminário comete estelionato, pois ela não pode se beneficiar da legislação vigente se não se enquadra nos padrões designados.”

O presidente do SBTe, Omar Silva da Costa, assegura que o site não deixa dúvidas sobre a condição livre dos cursos do SBTe. “Não queremos enganar ninguém, pois somos transparentes e o site claríssimo”, argumenta. Porém, não há no site Curso de pastor (www.cursodepastor.com.br) nenhum texto que reconheça que o curso é livre. Apenas um link intitulado “MEC” explica ao público que os cursos não são reconhecidos pelo Ministério.

A existência do SBTe, segundo Costa, é explicada especialmente devido à necessidade de pastores do interior do país que não têm acesso às escolas de teologia legalmente instaladas em universidades e igrejas das capitais. “Uma pessoa do interior, que está integrada e trabalha em uma igreja, não tem como ir à capital estudar e pagar dois salários mínimos por mês durante quatro ou cinco anos e conseguir esta graduação”.

O pastor não vê nenhum problema em utilizar os termos típicos acadêmicos, já que as formações que oferece não estão relacionadas ao Ministério da Educação e visam apenas a comunidade eclesiástica. “São cursos para pessoas que estão inseridas nas realidades de uma igreja. Por isso especificamos o curso como “eclesiástico”. O MEC oferece cursos de “Teologia”. Nós oferecemos “Teologia Eclesiástica”, que é algo de aplicação restrita e completamente dentro da lei”.

Curso é picaretagem, diz diretor da Aste

O diretor executivo da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (Aste), Fernando Bortoletto Filho, questiona os métodos de ensino do SBTe e garante que é impossível apreender uma gama tão complexa de conhecimentos em apenas seis módulos de ensino para 90 dias de estudo. “É um absurdo que alguém possa se considerar formado com este curso. Lógico que ele é picaretagem”, ataca. A Aste é uma associação de escolas de todo o Brasil que oferece cursos acadêmicos de teologia regularmente inscritos no MEC.

Omar Silva da Costa não discute a seriedade de seus cursos e explica que os módulos são organizados por estudiosos e eclesiastes das mais diversas igrejas em funcionamento no país. Aproveita para explicar que é quase impossível um aluno terminar os ensinamentos em 90 dias. “Geralmente os cursos duram uma média de seis meses, já que as pessoas que estudam também têm seus afazeres nas igrejas das quais fazem parte”.

Bortoletto acrescenta que os administradores do SBTe sabem exatamente o que estão fazendo ao oferecer os cursos ao público e que têm consciência de que o MEC não tem suficiente aparato de fiscalização para proibir a oferta ilegal de serviços. “O ministério só tem condições de apurar este tipo de irregularidade mediante prestação de queixa. Com toda esta deficiência, é sério neste meio de oferecimento de cursos de Teologia apenas quem deseja ser”.

Segundo o diretor executivo da Aste, um curso sério de Teologia conta, no mínimo, com ensinamentos relacionados à Teologia Sistemática, Teologia Bíblica, Teologia Prática e História das religiões. Nos cursos do SBTe, os ensinamentos para um pastor formado giram em torno de Constituição Brasileira e código de leis para pastores e igrejas; Teologia básica; oratória e discurso cristão; dízimos e ofertas e administração eclesiástica.

Apesar de se preocupar com a proliferação de cursos similares aos oferecidos pelo Seminário, Bortoletto acredita que eles estão condenados ao fracasso. “Quando um fiel entra numa igreja, ele não é um produto. São pessoas que querem cuidados e compreensão. Um pastor não pode só ter conhecimento prático e noções de entretenimento, não pode enganar uma multidão”, explica.

O presidente do SBTe prevê exatamente o contrário e usa argumentos estatísticos e sociais. “No Brasil, 99% dos pastores não têm nenhuma formação acadêmica. São alimentados somente por cursos como o nosso, que existem para trazer as pessoas para Deus e também contribuir para baixar a criminalidade, combater os vícios, apaziguar a sociedade e criar um clima harmonioso entre as pessoas.”

Os cursos ministrados pelo Seminário Brasileiro de Teologia (SBTe) existem há 16 anos e foram criados pelo pastor Omar Silva da Costa, pregador da Assembléia de Deus. A instituição está representada em todos os estados brasileiros e em outros 11 países. Na Bahia, há sedes em Ilhéus, Cafarnaum, Ibrira do Amparo, Porto Seguro, Itiruçu e Ribeira do Pombal.

Já formaram mais de 30 mil alunos e os fizeram ingressar nas mais diversas denominações eclesiásticas. Os ensinamentos, inclusive, não estão abertos somente aos que cultivam ligações com a igreja, mas também a qualquer pessoa que queira simplesmente aumentar seu horizonte cultural. Além dos cursos universitários, há outros 11 de conhecimentos gerais relacionados à Igreja.

Fonte: A Tarde Online