O primeiro passo concreto para superar a ruptura entre o Ocidente e o Oriente acaba de ser dado. O Vaticano divulgou um documento, com 46 pontos, que poderá indicar o caminho da reunificação após quase mil anos de trajetórias independentes.

Em quase três anos de pontificado, Bento XVI coleciona polêmicas com outras correntes religiosas. O papa provocou a ira dos muçulmanos ao dizer que no islã “só existiam coisas más e desumanas”, irritou os protestantes quando afirmou que a Igreja Católica é a única e verdadeira igreja de Jesus Cristo e desagradou os judeus ao autorizar um maior uso da antiga forma de celebrar missas em latim – o temor é que o retorno da prática reavive um antigo texto, citado nas celebrações da Sexta-Feira Santa, que pede a conversão deles ao catolicismo.

Até agora, os únicos acenos positivos se dirigiram à Igreja Católica Ortodoxa, separada da Apostólica Romana desde o cisma de 1054. Bento XVI considera a unidade dos cristãos um dos eixos de seu pontificado e quer avançar neste tema.

O primeiro passo concreto para superar a ruptura entre o Ocidente e o Oriente acaba de ser dado. O Vaticano divulgou um documento, com 46 pontos, que poderá indicar o caminho da reunificação após quase mil anos de trajetórias independentes. O texto diz que o papa é “o primeiro patriarca” e Roma “a primeira sede” da Igreja. “É um modesto passo e como tal dá esperança, que não deve ser exagerada, pois o caminho em direção a uma unidade dos cristãos ainda é muito longo”, ponderou o cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.

O documento é resultado de um encontro realizado em outubro, em Ravenna, na Itália, com o objetivo de lançar as bases para unir o 1,1 bilhão de católicos com os 250 milhões de ortodoxos. O texto não foi assinado pela poderosa Igreja Ortodoxa Russa, que abandonou a reunião por causa da presença de uma delegação da igreja da Estônia, não reconhecida pelo patriarcado de Moscou. A Igreja Ortodoxa é uma federação de duas dezenas de igrejas autônomas que professam a mesma fé. Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla desde 1991, é seu principal líder espiritual.

Pelo documento, católicos e ortodoxos concordam que o bispo é quem comanda a igreja local. No plano regional, eles devem reconhecer a existência de um protos (primeiro, em grego) entre eles. No âmbito global, os protos nas diferentes regiões devem cooperar, junto com todos os bispos, para a totalidade da Igreja. Segundo o texto, é consenso que Roma ocupava o primeiro posto entre as cinco principais antigas sedes (Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém) e o “bispo de Roma é o protos entre os patriarcas”.

Embora os ortodoxos reconheçam o papa como o primeiro patriarca, o documento deixa claro que suas atribuições no âmbito da comunidade eclesial ainda devem ser definidas. Ou seja, as divergências sobre os poderes papais – o principal obstáculo para a reunificação – ainda precisam ser resolvidas. “Além disso, há grandes diferenças teológicas, de hábitos e de ritos que foram cultivadas ao longo de mil anos”, diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Os padres ortodoxos, por exemplo, podem se casar – mas para se tornarem bispos devem ser celibatários.

O distanciamento entre as duas igrejas cristãs tem raízes culturais, teológicas e políticas. A tensão começou com a divisão do Império Romano em ocidental e oriental e a transferência da capital de Roma para Constantinopla (atual Istambul) no século IV e culminou com o cisma de 1054, quando o papa Leão IX e o patriarca Miguel Cerulário excomungaram-se. A deterioração das relações entre as duas igrejas contribuiu para o triste e célebre saque de Constantinopla durante a quarta cruzada, em 1204. Ao longo dos séculos, houve algumas tentativas de reunificação, sobretudo nos conselhos eclesiásticos de Lyon, em 1274, e Florença, em 1439, mas o tema não avançou. As mútuas excomunhões só foram levantadas em 1965 pelo papa Paulo VI e pelo patriarca Atenágoras I. Agora, o documento de Ravenna pode ser o primeiro tijolo desta futura nova igreja unificada.

A fé que mata

A evangélica Cláudia Simião da Silva, estudante de direito e formada em teologia, decidiu parar de ingerir qualquer alimento, em setembro, para alcançar uma graça divina. Ela queria receber um enviado especial – alguém que teria a missão de tirá-la do subúrbio e levá-la, junto com a sua família, para a zona sul do Rio de Janeiro. Para conseguir a “bênção”, ela ainda obrigou as duas sobrinhas, a irmã e a sogra a aderirem ao sacrifício. Elas ficaram confinadas por quase dois meses em casa. No dia 15 de novembro, Cláudia não resistiu e faleceu por inanição. Os demais familiares estão internados. Não é o único caso de fé que mata.

No dia 27 de agosto passado, num culto evangélico, uma mulher contou que estrangulou a filha e bebeu o sangue num ritual satânico de magia negra para pagar uma promessa. Na mesma semana, em Osasco (SP), um jovem evangélico de 22 anos esfaqueou e matou o pai porque ele não queria os cultos em casa. Em 1997, um dos casos mais emblemáticos de fé doentia ocorreu nos EUA, no Rancho Santa Fé, quando 39 seguidores da seita Heaven’s Gate (Portão do Céu) cometeram suicídio coletivo, ingerindo veneno. A psicanalista Junia Vilhena, autora do livro Em nome de Deus. Outro como demônio, diz que a dificuldade de conviver com o outro é um dos primeiros sinais de que a fé se tornou obsessão. “O fanático se isola e sempre demonstra intolerância com as outras religiões”, diz.

Fonte: Revista Isto É