Expo Cristã (foto), a maior feira de produtos cristãos da América Latina, realizada no mês de setembro, atraiu milhares de pessoas. Apesar do sucesso, era impossível não notar: a feira encolheu. Os motivos podem ser, tanto a falência e reestruturação administrativas de diversas empresas evangélicas quanto a pirataria.

Como sempre foi uma festa grandiosa. Shows musicais, tarde de autógrafos, palestras, reuniões e muitos negócios foram o retrato da 7ª Expo Cristã, a maior feira de produtos cristãos da América Latina, realizada de 9 a 14 de setembro no Expo Center Norte, em São Paulo. Nomes consagrados da música cristã nacional como Robinson Monteiro, Mara Maravilha, PG, Oficina G3, Fernandinho e Paulo César Baruk dividiam os holofotes com seminários, cursos e os mais de 10 mil itens entre DVD´s, CD´s e livros que foram comercializados durante o evento.

Apesar do sucesso, era impossível para os mais de 144 mil visitantes presentes não notar: a feira encolheu. Apesar de ainda ocupar uma área enorme – 31 mil metros quadrados – este ano o evento não reuniu mais do que 300 expositores, 25% a menos em relação ao ano passado, quando a Expo contou com 400 empresas, ONGs e outras entidades.

A diminuição da feira também tirou do baú outros fantasmas que andaram assombrando o empresariado cristão nos dois últimos anos. Nesse período, diversas empresas – entre elas gravadoras e editoras conhecidíssimas – ou fecharam as portas, ou foram obrigadas a se reestruturar administrativamente, cortando drasticamente seu quadro de empregados, ou ainda realizaram fusões com outras companhias para continuarem respirando. Por outro lado, uma ameaça quase onipresente pairou sobre a indústria fonográfica: a pirataria. Segundo estimativas de especialistas do setor, se não houvesse pirataria, as vendas seriam, no mínimo, 20% maiores. O prejuízo anual do setor fica na casa de milhões de reais.

Apesar das nuvens que pairam no horizonte, a palavra “crise” está fora do dicionário desses empresários. “O crescimento do número de crentes no país impulsiona a criação de livrarias e pontos de venda e distribuição. Com isso, também aumenta a produção da indústria. A feira continua com a mesma importância e participação das mais importantes instituições de ensino, empresas de mídia, gravadoras e editoras”, afirma Eduardo Berzin Filho, presidente da empresa EBF Eventos, organizadora da Expo Cristã. Segundo ele, o mercado de produtos cristãos movimenta anualmente mais de 1 bilhão de reais no Brasil. São cifras que não param de crescer.

Mesmo com a queda de expositores na edição deste ano, os números dão conta de quanto o aumento do faturamento é real. De acordo com dados da própria EBF, a edição 2007 da Expo terminou com mais de 100 milhões de reais em negócios. Se os números deste ano estão corretos, os valores foram parecidos, até maiores, com a diferença de que havia um quarto de expositores a menos. Mas se compensa participar, então como explicar o encolhimento? “Existe uma tendência que é mundial de diminuição das feiras. A Expolit e a International Christian Retail Show, antiga CBA, nos Estados Unidos, foram exemplos este ano. Hoje, qualquer investimento precisa ser bem pensado, pois a empresa pode até estar bem, mas vai atrás da opção mais lucrativa”, diz Elias de Carvalho, diretor-presidente da Bompastor, empresa que atua há 40 anos no ramo fonográfico, editorial e de distribuição.

Para a Bompastor, participar da Expo Cristã 2008 foi um negócio ainda mais rentável do que no ano passado. “Com menos expositores, nosso faturamento aumentou. O problema é que isso é algo perigoso, pois muita gente que veio à feira para comprar ou ver seus cantores preferidos, saiu reclamando. Essa diminuição, principalmente na área musical, foi sentida na ausência de gravadoras importantes e, se algo não for pensado, o público pode desistir de participar a médio e longo prazos”, completa Carvalho.

Retorno

O que também chamou a atenção na Expo Cristã 2008 foi que muitas empresas optaram por estandes mais simples e menos requintados do que nas feiras passadas. Algo que deve continuar nos próximos anos, na avaliação do jornalista Sinval Filho, coordenador-executivo da Associação de Editores Cristãos (Asec). “O empresário evangélico está aprendendo duas coisas fundamentais: focar e ter retorno. Ou seja, é preciso diminuir custos e buscar soluções criativas para maximizar os ganhos. Acho que a Expo é e continuará fundamental, mas a tendência é que dê cada vez mais atenção ao público em geral e seja uma oportunidade para apresentar novos produtos”, acredita ele.

Quanto ao mercado, Filho toma como base o atual momento da economia do país para analisa-lo. “Estamos vivendo um super-aquecimento. Nesses últimos dois anos, tivemos crescimentos de 25% a 30% a cada período. O que acontece é que algumas empresas estão se reestruturando. Grupos estrangeiros estão chegando ao Brasil, fusões estão acontecendo e há um potencial enorme ainda a ser aproveitado”, analisa. Um dos exemplos citados por Sinval Filho é o prêmio Arete, entregue pela Asec anualmente a autores e editoras. Este ano, 19 editoras ganharam o prêmio, muitas de pequeno e médio portes. Nunca houve uma diversificação tão grande.

O que não significa que o mercado editorial também não precise passar por mudanças urgentes. “Estamos em franca expansão e só quem não está preparado, não cresce. Mas a concentração no Sudeste ainda é muito grande. Temos o desafio de conquistar o Brasil, reduzir preços e abrir novos pontos de venda em igrejas, que ainda são pouco exploradas. Imagine Bíblias que na feira eram vendidas a R$ 2 sendo comercializadas nas igrejas. Isso iria beneficiar os negócios e a expansão do próprio Evangelho.”

Acredita-se que existam no Brasil pouco mais de 1500 livrarias evangélicas, muitas em igrejas. Porém, ao se deparar com a informação de que o país tem 5564 municípios, percebe-se como uma grande fatia dos consumidores ainda continua inalcançada. Para mudar esse quadro, a Associação Nacional de Livrarias Evangélicas (Anle) promove todo ano, durante a Expo, seu congresso. “Com este evento e também com outros encontros não queremos apenas incentivar uma expansão. Também precisamos profissionalizar a administração de nossos estabelecimentos”, defende José Maria Nogueira, lojista em Fortaleza (CE) e presidente da entidade.

Para ele, comete um erro quem acha que a entrada de livros, discos e vídeos no mercado secular ou até a criação de lojas virtuais na internet poderão compensar a falta de pontos de venda cristãos. “Somente em livrarias evangélicas é possível encontrar todos os produtos, de discos e livros a chaveiros e camisetas. E o momento de investir nisso é agora, com o crescimento econômico. Na Expo Cristã encontrei gente de países como Venezuela, Angola, Estados Unidos e Alemanha. Todo mundo querendo fazer negócios com o Brasil e trocar know how.”

Apesar do momento de otimismo, no meio da conversa, Lira admite uma ponta de preocupação. Indagado se a queda na venda de CD´s e DVD´s já não compromete os negócios de muitos crentes, ele acredita que serve de alerta. “Isso está acontecendo, mas a maioria ainda não sentiu o real tamanho do problema. Mas é certo que, se nada for feito, em pouco tempo corremos o risco de experimentar uma freada no crescimento do mercado.”

Ainda que não exista crise declarada e os problemas estejam sendo superados, fica a lição de casa para o empresariado cristão. Muita coisa deve ser revista e, na área fonográfica, com urgência. Donos dos pontos-de-venda pedem suporte das gravadoras para vender músicas e combater a crescente pirataria. As próprias gravadoras pensam em alternativas e uma delas pode ser trabalhar mais com shows de seus artistas. Já o público final, pede melhores preços e canais de distribuição. Ouvir esses clamores pode ser uma boa solução para evitar o drama de muitas empresas seculares que, por se acharem auto-suficientes no passado, hoje estão quebradas (MS)

Fonte: Revista Eclésia edição 127