Seis mulheres e um homem que alegam terem sido abusados sexualmente por um padre católico há décadas entraram com dois processos separados na justiça nesta quarta-feira.

Eles alegam que a diocese de Oakland (EUA) foi negligente ao empregar o padre e falhou em alertar os pais sobre potenciais abusos.

O padre Stephen Kiesle é o protagonista da acusação mais direta já feita contra o papa Bento 16, que teria demorado a agir no caso. Quando ainda era cardeal Joseph Ratzinger, ele teria resistido a pedidos para suspender Kiesle, segundo uma carta de 1985 que contém sua assinatura.

Jeff Anderson, um advogado representando as vítimas, diz que o então bispo de Oakland John C. Cummins e outras autoridades da igreja sabiam de várias alegações de abuso contra o padre, mas não fizeram nada para evitar que ele tivesse contato com crianças.

“Eles escolheram manter segredo –não alertar os pais das crianças, não contar à polícia, não contar aos membros da paróquia”, disse Anderson. “Estavam mais preocupados em manter e proteger sua reputação, que com o bem estar dessas crianças.”

Mike Brown, porta-voz da diocese, disse que as autoridades ainda não viram os processos. Ele lembrou que, após Kiesle não se declarar nem inocente nem culpado das acusações de abuso, a diocese não permitiu mais que ele atuasse como padre, ofereceu acompanhamento psicológico, e eventualmente apoiou sua expulsão da igreja.

A diocese de Oakland, segundo Brown, está entre as primeiras a desenvolver programas para ajudar aqueles que denunciam casos de abuso.

[b]Carta do Papa [/b]

Em uma carta de novembro de 1985, Joseph Ratzinger disse que os argumentos para suspender Kiesle são de “grave importância”, mas acrescentou que tais ações requeriam “uma revisão cuidadosa e mais tempo”.

Ele também pediu ao bispo para oferecer a Kiesle “o máximo possível de cuidado paternal” enquanto esperava pela decisão, segundo um tradução para a AP feita pelo professor Thomas Habinek, chefe do departamento de Ciências Clássicas da Universidade do Sul da Califórnia.

Com essa declaração, Ratzinger dizia ao bispo de Oakland que ele era responsável por evitar que o religioso cometesse novos abusos, defendeu o advogado do Vaticano, Jeffrey Lena.

O futuro papa também ressaltou que qualquer decisão de suspender Kiesle deveria considerar “o bem da igreja universal” e o “dano que conceder essa dispensa pode provocar dentro da comunidade dos que creem em Cristo, particularmente considerando a pouca idade”. Kiesle tinha 38 anos na época.

[b]Vítima[/b]

Uma das vítimas, Teresa Rosson, alega que Kiesle a molestou por anos, começando em 1973, quando ela tinha 11 anos. Ela decidiu entrar na justiça porque as autoridades da Igreja tinham motivos para acreditar que Kiesle era um perigo para as crianças, mas não fizeram nada, disse a mulher de 48 anos.

“Ele poderia ter sido parado em 1968, em 1973, em 1978, mas aquilo continuou”, disse ela. “Ele continuou seu abuso contra mim e contra outros. Eu não tinha proteção.”

[b]Acusações [/b]

Kiesle foi afastado em 1978 por três anos, acusado de amarrar e molestar dois garotos em uma paróquia na área da baía de San Francisco.

Segundo o então bispo de Oakland John Cummins, o padre pediu uma licença e fez terapia nesse período. Não é claro onde Kiesle viveu nesse período, mas Cummins mencionou que ele foi designado para dioceses vizinhas, o que nunca funcionou.

Como o período de licença terminou em 1981, Kiesle pediu para deixar a vida religiosa. A diocese de Oakland, então, recomendou a suspensão de Stephen Kiesle em 1981, ano em que Ratzinger foi nomeado chefe do órgão do Vaticano que cuida de abusos cometidos por padres.

Em carta escrita em 1982, Cummins afirmou estar certo de que o escândalo seria maior se deixassem o padre continuar sua carreira religiosa do que se ele fosse suspenso.

O caso ficou esquecido no Vaticano por quatro anos, até que Ratzinger finalmente escreveu para o bispo de Oakland. Depois disso, ainda se passaram mais dois anos até que Kiesle fosse suspenso. Durante esse tempo, ele continuou prestando serviço voluntário com crianças por meio da Igreja.

Oficiais da igreja da Califórnia escreveram para Ratzinger pelo menos três vezes para checar a situação do caso. Em um momento, um oficial do Vaticano escreveu dizendo que o arquivo devia ter sido perdido e sugerindo reenviar o material.

Ele foi finalmente suspenso em 13 de fevereiro de 1987, apesar de os documentos não indicarem quando, como ou por que, ou qual o papel de Ratzinger na decisão.

[b]Toneladas de crianças [/b]

“Ele admitiu ter molestado muitas crianças dizendo ser o Flautista de Hamelin [personagem do conto dos Irmãos Grimm] e disse que tentou molestar todas as crianças que se sentaram em seu colo”, disse Lewis VanBlois, um advogado de seis vítimas de Stephen Kiesle, que entrevistou o ex-padre na prisão.

“Quando perguntado quantas crianças ele tinha molestado, ele disse ‘toneladas’.”

Kiesle foi preso e acusado em 2002 por 13 casos de abuso de crianças nos anos 1970. Apenas dois casos não foram excluídos pela Suprema Corte americana –que considerou inconstitucional uma lei da Califórnia estendendo o tempo para prescrição do crime.

Em 2004, ele foi acusado de molestar uma menina em sua casa em Truckee, em 1995, e sentenciado a seis anos de prisão.

Mais de seis vítimas chegaram a um acordo em 2005 com a diocese de Oakland, acusando Kiesle de molestá-las quando crianças.

Hoje, com 63 anos, Kiesle vive em um condomínio fechado em Walnut Creek, segundo seu endereço registrado na lista de criminosos sexuais.

[b]Fonte: Folha Online[/b]