O culto de encerramento do III Congresso de Lausanne na Cidade do Cabo foi marcado pela forte tradição litúrgica anglicana, pela celebração musical e pela ênfase cristocêntrica.

Ao final do culto, era possível perceber nos rostos dos participantes sorrisos de satisfação.

Cristãos de quase 200 países foram, no último momento, mais uma vez comissionados para cumprir o chamado de Deus no mundo. A celebração da Santa Ceia, dirigida pelo arcebispo da Igreja Anglicana de Uganda, Henry Luke Orombi, marcou a busca por unidade – tema este constante nos cinco dias do congresso seja nas plenárias, nos grupos pequenos, nos debates e nas conversas de corredores.

A inquietação de que a igreja ainda sofre com a desunião foi resumida na manhã deste domingo nas palavras do pastor de Singapura, Patrick Fung: “A arrogância e a autocomiseração são os grandes obstáculos para o trabalho em parceria da igreja em favor da evangelização do mundo”.

Os seis grandes temas do congresso – verdade, reconciliação, relacionamento com outras crenças, definição de prioridades, integridade e parceria – foram lembrados transversalmente no sermão de encerramento ministrado por Lindsay Brown, diretor internacional do Movimento Lausanne. Em sua homilia, ele deixou claro qual foi o centro de referência dos esforços do Congresso de Lausanne: “Cristo é o centro da mensagem. Ele não é apenas um salvador, mas o único salvador. Nossa vocação é declarar Cristo em toda a sua glória”.

Brown também defendeu a verdade como um elemento essencial para o cumprimento da missão. “Não dá para evangelizar se não sabemos no que cremos”. Ele enfatizou ainda a amplitude da missão: “Nossa missão não é somente levar o evangelho de Jesus para todos os lugares, mas também para toda a sociedade”.

A liturgia contou com mais de 20 cânticos intercalados com orações e leituras comunitárias. Textos bíblicos foram lidos e o Credo de Niceno foi cantado. O momento da Santa Ceia foi profundo e especialmente representativo. Ver homens e mulheres com suas faces e vestes diversas participando, em comunhão singela, do pão mergulhado no vinho nos deu o sentimento de gratidão a Deus pelo privilégio de participar do III Congresso de Lausanne e de que a Igreja global é maior e mais complexa do que podemos mensurar.

As palavras finais do arcebispo africano soam como sinos a anunciar um novo ato: “Vão em paz. Proclamem o Evangelho de Jesus Cristo”. Com alegria e seriedade, respondemos: “graças seja ao Senhor”.

[b]Um congresso pouco latino
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O III Congresso foi marcado por testemunhos emocionantes de cristãos fiéis que estão enfrentando o sofrimento em favor do Evangelho em países como Índia, Coréia do Norte e Oriente Médio, pela descoberta da riqueza contida na carta de Paulo aos efésios, pelos diálogos ao redor de mesas entre pessoas de lugares diferentes e pelo tom de urgência e pragmatismo. As opiniões sobre o congresso eram diversas: uns sentiam-se renovados espiritualmente; outros, reclamavam de um conteúdo superficial. Os latino-americanos sentiram-se prejudicados pela pouca visibilidade dada ao continente e à sua teologia.

O momento sintomático foi a exibição de um vídeo que se propunha em dar um panorama do Cristianismo no continente.

Foi unâmine o mal-estar, já que muitas informações estavam desatualizadas ou mesmo erradas. Outro indicador desta insatisfação foram as palavras dos teólogos latinos René Padilla e de Samuel Escobar, ícones da Missão Integral, e considerados grandes personagens da redação do Pacto de Lausanne. Na noite do dia 20, eles apontaram três preocupações que deveriam ser mais bem exploradas neste congresso: 1) o evangelismo como a tarefa de fazer discípulos e não simplesmente convertidos; 2) a globalização e seus efeitos sobre milhões de pobres; 3) e o sistema econômico e sua destruição do meio ambiente. Nos dois últimos dias, o congresso chegou mais próximo destas preocupações, no entanto, sem grandes avanços.

Por outro lado, o III Congresso de Lausanne foi muito importante para fazer com que os desafios atuais da chamada igreja global sejam conhecidos e sentidos por todos os continentes. A este fato, o pastor brasileiro e integrante do grupo que vai concluir o documento oficial do congresso, Valdir Steuernagel, fez uma excelente síntese, diante dos reclamos dos latino-americanos: “Lausanne precisa aprender a olhar para a América Latina, mas nós, latinos, precisamos aprender a olhar o mundo”.

[b]Compromisso da Cidade do Cabo
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O resultado concreto do III Congresso de Lausanne é o “Compromisso da Cidade do Cabo”. O documento é uma declaração final do Movimento Lausanne a partir do congresso. Ele divide-se em duas partes. A primeira é uma declaração de fé, e a segunda um chamado para a ação. Entitulada “Para o Senhor que amamos: o nosso compromisso de fé”, a primeira parte do documento – com versão ainda provisória – enfatiza o verbo amar e é dividida em uma introdução e dez seções. Todos os participantes do evento receberam cópias do texto em sua própria língua. O trecho a seguir revela o tom do documento:

“Esta declaração foi firmada na linguagem do amor. O amor é a linguagem da aliança. As alianças bíblicas, antigas e novas, são expressão do amor redentor de Deus e da graça que alcança a humanidade perdida e a criação deteriorada. Em troca, elas pedem o nosso amor. O nosso amor se manifesta através da confiança, obediência e do compromisso apaixonado com a aliança do Senhor. O Pacto de Lausanne definiu a evangelização desta forma ‘toda a igreja levando todo o Evangelho para todo o mundo’. Esta continua sendo nossa paixão.”

A segunda parte ainda não foi elaborada. Para isso, há um grupo de trabalho de oito pessoas (entre elas, dois brasileiros: Valdir Steuernagel e Rosalee Veloso). Eles vão trabalhar na redação do documento, que deve ter sua primeira versão em novembro deste ano.

[b]Fonte: Missão Portas Abertas[/b]