O que vale mais diante de um impasse no tratamento de um paciente: a vontade da família ou a decisão do médico? A polêmica foi levada às últimas conseqüências, na terça em um hospital de Cariacica, e o caso foi parar na polícia.

A empresária Elza Amâncio Viana, 30 anos, deu entrada no Hospital São João Batista, em Cariacica, com princípio de aborto espontâneo. O marido, Gilson, acompanhava a esposa e pediu aos médicos que ela não recebesse transfusão de sangue, porque ambos pertenciam à congregação Testemunhas de Jeová e não admitiam o procedimento médico.

No entanto, o ginecologista P.C.V. – que pediu para não ter o nome divulgado – estava de plantão no hospital e decidiu realizar a transfusão para garantir a vida da paciente. O marido de Elza, inconformado, arrombou a sala de pré-parto, onde ela era atendida, e agrediu P.

Gilson justifica a atitude dizendo que perdeu a cabeça quando viu a mulher recebendo sangue, mesmo depois de ter avisado o hospital sobre sua decisão.

“Minha esposa estava grávida de 12 dias, mas nem sabia. Ela teve um princípio de aborto, levei-a em dois hospitais antes de chegar ao Hospital São João Batista. Se eles não tinham estrutura para outro procedimento, deveriam ter me avisado, porque eu a levaria para outro hospital”, disse.

Por outro lado, o médico garante que essa era a única alternativa no momento. Segundo ele, a vida da paciente estava em risco e não havia tempo a perder.

“Tenho o respaldo do Código do Ética Médica. O hospital poderia ser acusado de negligência médica e omissão de socorro se deixasse a paciente morrer por falta da transfusão”, afirmou.

O caso continuará na Justiça. O médico afirma que vai processar Gilson. O religioso diz que a congregação também analisa a possibilidade de processar o hospital.

A versão de cada um

“Ouvi ela gritando e perdi a cabeça”
Gilson Viana – 30 anos, marido da paciente

“Ouvi minha esposa me gritando e perdi a cabeça. Arrombei a porta e vi ela se batendo, com bolsas de sangue ao lado. Dei um soco na nuca do médico e disse que ele teria que me avisar. Quebrei as mangueiras que levavam o sangue até ela, mas já era tarde. Ela está muito abalada. Disse que está se sentindo violentada. A Bíblia diz que o sangue é vida e a vida só pode ser dada por Deus. Ela já tinha sofrido outros dois abortos. O primeiro foi há cinco anos e o outro há pouco mais de dois anos. Em nenhuma das duas situações anteriores ela recebeu transfusão de sangue”.

“Considerei primeiro a vida da paciente”
P.C.V. – ginecologista agredido

“Considerei, em primeiro lugar, a vida da paciente. Ela chegou com um choque causado por um sangramento vaginal intenso, decorrente de um aborto incompleto. No momento, não havia, no hospital, outro tratamento além da transfusão de sangue. Ela corria risco de morte. A paciente estava inconsciente e só acordou quando estava estabilizada. O marido dela invadiu a sala de pré-parto, me agrediu fisicamente e agrediu verbalmente outros funcionários. Nunca tinha passado por uma situação como essa. Ele vai responder pelos seus atos. Vou entrar com uma ação na Justiça”.

Fonte: O Verbo