Após quase cinco anos de guerra, muitos jovens iraquianos, exaustos pelas constantes exposições diretas à violência do extremismo religioso, dizem ter se desiludido com os líderes religiosos e ficado céticos em relação à fé que estes pregam.

Em dois meses de entrevistas com 40 jovens em cinco cidades iraquianas, detectou-se uma tendência à desilusão, que faz com que os jovens iraquianos, tanto os pobres quanto os de classe média, culpem os clérigos pela violência e as restrições que limitaram as suas vidas.

“Eu odeio o islamismo e todos os clérigos porque eles tolhem a nossa liberdade todos os dias, e as suas instruções são um fardo para nós”, declarou Sara Sami, uma aluna de segundo grau em Basra. “A maioria das garotas na minha escola odeia o fato de os muçulmanos serem as autoridades, porque eles não merecem governar”.

Atheer, um rapaz de 19 anos de um bairro pobre e predominantemente xiita no sul de Bagdá, disse: “Os religiosos são mentirosos. Os jovens não acreditam neles. Os caras da minha idade não estão mais interessados em religião”.

A mudança no Iraque vai de encontro a tendências de aumento da prática religiosa entre os jovens de grande parte do Oriente Médio, onde a religião substituiu o nacionalismo como ideologia unificadora.

Embora os extremistas religiosos sejam admirados por inúmeros jovens em outras partes do mundo árabe, o caso do Iraque se constitui em um teste do que pode acontecer quando são aplicadas teorias extremistas. Pessoas pegas fumando tiveram os dedos quebrados. Quem usava cabelos compridos teve a cabeleira cortada à força, e a seguir foi obrigado a comer os cabelos. Foi nesse laboratório que firmou-se a desilusão com os líderes islâmicos.

Ninguém sabe se a mudança significa uma grande fuga da religião. Uma religiosidade tremenda ainda predomina nas vidas privadas dos jovens iraquianos, e os líderes religiosos, apesar do crescente ceticismo, ainda detêm um poder enorme. Além do mais, mensurar a adesão à religião é algo complicado no Iraque, onde o acesso de forasteiros às cidades e vilas distantes de Bagdá é limitado.

Mas, pelo menos de forma casual, observa-se uma mudança nas escolhas que vêm sendo feitas pelos jovens iraquianos.

Professores relatam dificuldade para recrutar alunos para aulas de religião. O comparecimento às orações semanais parece ter diminuído, até mesmo nas áreas onde a violência em grande parte reduziu-se, segundo religiosos e imames em Bagdá e Falluja. Em duas visitas no outono passado às sessões semanais de orações de seguidores do clérigo xiita Muqtaad al-Sadr em Bagdá, as multidões que compareceram eram bem menores do que em 2004 e 2005.

Tais tendências, caso perdurem, podem levar ao enfraquecimento do poder político dos líderes religiosos no Iraque. Em um reconhecimento de tal mudança, os partidos políticos deixaram de fazer referências ostensivas à religião.

“No início, os jovens deram seus olhos e suas mentes aos clérigos, acreditando neles”, afirma Abu Mahmoud, um clérigo sunita moderado em Bagdá, que trabalha no sentido de desprogramar extremistas religiosos detidos pelos Estados Unidos. “É doloroso admitir, mas as coisas mudaram. As pessoas perderam muito. Eles dizem aos clérigos e aos partidos: vocês nos deram este prejuízo”.

“Quando decapitam alguém, eles dizem ‘Allahu akbar’ (Alá é grande) e lêem versos do Alcorão”, diz um xeque xiita moderado de Bagdá.

“Os jovens acham que isso é o islamismo”, explica ele. “Assim, o islamismo é um fracasso, não apenas na cabeça dos estudantes, mas também na comunidade”.

Uma professora da Escola de Direito da Universidade de Bagdá, que identificou-se apenas como Bushra, disse a respeito das suas alunas: “Elas modificaram os seus pontos de vista a respeito da religião. Começaram a detestar os homens religiosos. Fazem piadas sobre esses homens porque sentem nojo deles”.

As coisas nem sempre foram assim. Nos últimos anos Saddam Hussein encorajou a religião na sociedade iraquiana, tendo construído mesquitas e injetado mais religião no currículo das escolas públicas, mas sempre garantindo que isso atendesse às suas necessidades autoritárias.

Os xiitas, considerados uma força política de oposição e uma ameaça ao poder de Saddam Hussein, eram mantidos sob severa vigilância. Jovens xiitas que praticavam religião eram vistos como subversivos políticos e corriam o risco de atrair a atenção da polícia.

Por essa razão a ocupação norte-americana foi bem recebida por parte dos xiitas, que pela primeira vez foram capazes de praticar livremente a sua religião. Eles logo tornaram-se uma potente força política, à medida que os líderes políticos voltaram-se para o seu passado comum e doloroso e para o seu respeito à hierarquia religiosa xiita.

“Depois de 2003, era impossível colocar um pé na husseiniya (lugar de oração dos xiitas), porque o lugar estava superlotado de fiéis”, diz Sayeed Sabah, um líder religioso xiita de Bagdá.

A religião deslocou-se abruptamente para o espaço público xiita, mas muitas vezes de maneiras que fizeram com que iraquianos com alto nível de escolaridade e religiosos sentissem-se desconfortáveis. As milícias ofereciam cursos corânicos. Qualquer um virava clérigo. No bairro de Mahmoud, um açougueiro que nada conhecia sobre o islamismo tornou-se líder de uma mesquita.

O xeque Qasim, um clérigo moderado, lembra-se de ter visto com assombro um ex-aluno seu, que só tirava notas medíocres, passar pelo trânsito parado em um longo comboio de veículos utilitários esportivos em Bagdá. Ele havia se tornado um líder religioso.

“Eu achei que fosse sair do carro, agarrá-lo e dar-lhe um tapa”, conta o xeque. “Essas pessoas não merecem tais postos”.

Um funcionário do Ministério da Educação em Bagdá, xiita secular, descreveu a fé recém-descoberta da seguinte maneira: “Foi como se eles quisessem vestir uma roupa nova e de última moda”.

Os religiosos sunitas também viram aumentar o número de fiéis nas mesquitas, mas logo tornaram-se reféns de grupos de extremistas religiosos, tanto estrangeiros quanto iraquianos, que se prepararam para combater os Estados Unidos.

Zane Mohammed, um jovem magro e alto de 19 anos e expressão séria, observou os fatos com curiosidade quando os primeiros islamitas no seu bairro em Bagdá foram a barbearias, casas de chá e lojas de material de carpintaria, antes de assumirem o controle sobre as mesquitas. Segundo Mohammed, eles não eram pessoas de baixo nível de escolaridade nem pobres, embora se concentrassem naqueles que eram.

Então, certa manhã, enquanto aguardava o ônibus para a escola, ele viu um homem dirigir-se a um vizinho, um professor universitário cuja orientação religiosa Mohammed desconhecia, baleá-lo três vezes à queima-roupa e voltar calmamente ao seu carro, tão calmo como se estivesse saindo de uma mercearia”.

“Ninguém está pensando”, queixou-se Mohammed em uma entrevista em outubro do ano passado. “Nós só usamos as nossas mentes para decidir o que comer. Isso me deixa muito triste. Ouvimos certas coisas e simplesmente acreditamos nelas”.

Em 2006, até mesmo aqueles que inicialmente participaram da violência estavam se cansando. Haidar, que abandonou a escola de segundo grau, sentiu orgulho em dizer à sua família que estava seguindo um clérigo xiita na luta contra os soldados norte-americanos no verão de 2004. No entanto, dois anos depois, ele viu-se na companhia de bandidos.

Os jovens membros das milícias usavam drogas. Os presentes deixaram de ser motocicletas e passaram a ser armas. Em três anos, Haidar presenciou cinco assassinatos, a maioria de sunitas, incluindo o de um motorista de táxi que foi executado no seu carro.

E para os jovens sunitas as coisas foram tão ruins quanto para os xiitas, ou até piores.

Assediados pela Al Qaeda da Mesopotâmia, um grupo nativo de insurgentes sunitas que as agências de inteligência norte-americanas alegam ser dirigido a partir do exterior, eles viram-se encalhados em bairros governados por leis do século sete. Durante uma entrevista com doze adolescentes sunitas em um centro de detenção em Bagdá, durante vários dias de setembro passado, vários deles expressaram alívio por estarem presos, de forma que podiam usar calções. Nos seus bairros, se usassem tal vestimenta seriam punidos.

Alguns iraquianos argumentam que a política baseada na religião diz muito mais respeito à identidade do que à fé. Quando os xiitas votaram maciçamente em partidos religiosos em uma eleição em 2005, aquilo teria sido mais uma tentativa de exibir o seu número do que uma vitória do religioso sobre o secular.

“Foi uma luta para provar a nossa existência”, diz um jovem jornalista xiita da cidade de Sadr. “Estávamos abraçando a nossa existência, e não uma religião”.

A guerra se arrastou, e jovens de seitas sunitas e xiitas envolveram-se cada vez mais nela. Criminosos passaram a utilizar adolescentes e garotos para realizar assassinatos. O número de adolescentes iraquianos em centros de detenção norte-americanos em novembro do ano passado era sete vezes superior ao de abril do mesmo ano. E a principal prisão de adolescentes do Iraque, que fica em Bagdá, está com o triplo da população carcerária da época anterior à guerra.

Mas embora os jovens assumissem um papel mais ativo na violência, eles eram menos propensos do que os adultos a motivarem-se pela religião. Dos 900 menores de idade detidos em prisões controladas pelos Estados Unidos em novembro passado, menos de 10% alegava estar travando uma guerra religiosa, de acordo com as forças armadas norte-americanas. Já entre os prisioneiros adultos, um terço declarou que a motivação era religiosa.

Uma funcionária do sistema carcerário norte-americano no Iraque diz que, segundo a sua estimativa, apenas um terço da população carcerária adulta, que é preponderantemente sunita, pratica orações.

“Como grupo, eles não são religiosos”, afirma o general Douglas Stone, chefe das operações de detenção das forças armadas dos Estados Unidos. “Quando lhes pergunto se estão fazendo isso pela jihad, a resposta é não”.

Muath, um sunita esguio de 19 anos, que tem um olhar distante e as bochechas côncavas, é um exemplo típico. Ele vendia créditos para telefones celulares e flores de plástico, lutando para sustentar a mãe e cinco irmãos pequenos, quando um recrutador insurgente na zona ocidental de Bagdá, um homem de mais de 30 anos que era um cliente regular, ofereceu-lhe dinheiro na primavera passada para que ele participasse de um grupo insurgente cujas motivações eram um misto de dinheiro e seita.

Muath, o único provedor da família, concordou. De repente a sua família pôde novamente comer carne, disse ele em uma entrevista em setembro do ano passado.

Pelo menos parte da violência religiosa em Bagdá tem algo a ver com dinheiro. Um funcionário do centro de detenção Kadhimiya, onde Muath foi encarcerado no outono passado, conta que as gravações de decapitações garantem preços bem mais elevados no mercado de DVDs do que as de execuções a tiros, o que explica por que até mesmo seqüestradores não religiosos decapitam reféns.

“O terrorista adora o dinheiro”, opina o capitão Omar, um carcereiro que não quis ser identificado pelo nome completo. “O dinheiro traz em si uma grande mágica. Eu dou a alguém US$ 10 mil para realizar determinada tarefa. Você acha que ele recusa?”

Quando Muath foi preso no ano passado, a polícia descobriu dois reféns, irmãos xiitas, em um cativeiro revelado por Muath. Fotografias mostravam os homens fitando a câmera de olhos arregalados; túnicas negras cobriam seus corpos.

A luta violenta contra os Estados Unidos era fácil de se romantizar à distância.

“Eu adorava Osama Bin Laden”, revela uma estudante universitária iraquiana de 24 anos. Ela referia-se ao que sentia antes da guerra tomar conta da sua nativa Bagdá. O ataque de 11 de setembro de 2001 contra a supremacia dos Estados Unidos foi satisfatório, e as mortes abstratas.

Agora, a estudante expõe as reclamações familiares: a sua faculdade segregou as revistas de segurança com base no sexo do aluno; os guardas disseram a ela para deixar de usar saias; ela agora cobre a cabeça por uma questão de segurança.

“Atualmente eu odeio o islamismo”, diz ela, sentada na sala de estar despojada da sua família, no centro de Bagdá. “A Al Qaeda e o Exército Mahdi estão disseminando o ódio. Pessoas estão sendo assassinadas sem nenhum motivo”.

Os pais tomaram novas precauções para manter os filhos longe de problemas. Abu Tahsin, um xiita do norte de Bagdá, disse que quando os seus parentes construíram uma mesquita xiita, ele não se registrou junto às autoridades religiosas, ainda que isso fosse lhe proporcionar privilégios. Ele não queria acabar vinculado a algum dos principais grupos religiosos que controlam Bagdá.

Em Fallujah, uma cidade sunita a oeste de Bagdá que havia sido ocupada pela Al Qaeda, o xeque Khalid al-Mahamedi, um clérigo moderado, disse que atualmente os pais vêm com os filhos às mesquitas para conhecer os instrutores dos cursos corânicos. As famílias costumavam se preocupar mais com as filhas adolescentes, mas agora, segundo o xeque, preocupam-se mais com os filhos homens.

“Antes, os pais advertiam os filhos para que não fumassem ou bebessem”, contou Mohammed Ali al-Juamili, de Fallujah, pai de um rapaz de 20 anos. “Mas agora todas as nossas energias concentram-se em não deixar que eles se envolvam com o terrorismo”.

Os recrutadores são incansáveis e, além do mais, espertos, oferecendo coisas das quais os seus jovens alvos necessitam. Stone compara isso ao dinheiro que um cafetão oferece a uma possível prostituta. Oficiais militares dos Estados Unidos nos centros norte-americanos de detenção dizem que os detentos pertencentes a Al Qaeda são os mais bem preparados para sessões grupais e os que fazem a maior parte das perguntas.

Um recrutador da Al Qaeda aproximou-se de Mohammed, o rapaz de 19 anos, no campus universitário, oferecendo aulas de inglês. Embora tais aulas fossem uma ambição antiga de Mohammed, assim que ele soube o que o homem queria, evitou-o educadamente.

“Quando você conversa com eles, acha-os muito modernos e inteligentes”, diz Mohammed, um xiita não praticante, que lembra-se de ter fingido sentir desdém pela sua própria seita para evitar suspeitas.

Porém, o grupo no qual eles se concentram é formado pelos pobres e os que não estudaram. Cerca de 60% da população carcerária adulta nas cadeias norte-americanas no Iraque é analfabeta, incapaz de ler sequer o Alcorão que os recrutadores religiosos pregam.

Isso leva a estranhos resultados. Um jovem detento, cliente de Abu Mahmoud, o clérigo sunita moderado, estava convencido de que tinha que matar os seus pais quando fosse solto, porque eles casaram-se de forma que não foi suficientemente islâmica. Stone está tentando corrigir o problema, oferecendo ao rapaz aulas de religião ministradas por moderados.

Existe um novo jogo favorito na animada moradia do jovem jornalista de Bagdá. Quando eles vêem na televisão um homem de turbante, gritam e fazem piadas. Em uma das piadas, as pessoas são advertidas a não fornecer os números dos seus telefones celulares a um religioso. “Se ele souber o número, roubará os créditos do telefone”, diz o jornalista. “Os xeques estão criando uma sociedade de descrentes”.

Fonte: The New York Times