A mais alta corte da Turquia impugnou na terça-feira um candidato presidencial com retrospecto em política islâmica, colocando o país diante de eleições antecipadas e um referendo sobre o papel da religião no futuro.

Em uma decisão de 9 votos contra 2, o tribunal manteve uma apelação do principal partido político secular da Turquia, que buscou impugnar a candidatura presidencial de Abdullah Gul, um aliado estreito do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, com base no que disseram ser suas credenciais islâmicas.

Mas Gul, um muçulmano praticante que é ministro das Relações Exteriores da Turquia, manteve o Islã fora da política pública em seus quatro anos no governo, e seus simpatizantes disseram que a decisão é apenas uma tentativa de manutenção do poder pela elite secular da Turquia, que controla o Estado desde a revolução de Ataturk em 1923.

A Turquia é uma importante aliada americana em ume região problemática e sua estabilidade é crucial. Ela tem fronteiras com Irã, Iraque e Síria. Ela é membro da Otan e mantém boas relações com Israel. Ela também é chave para as forças armadas americanas no Iraque, fornecendo uma base aérea no sul do país que fornece suprimentos para as forças em grande parte das regiões norte e central do Iraque.

Na decisão, o tribunal anulou um votação a favor de Gul realizada no Parlamento na sexta-feira, porque não havia legisladores suficientes presentes. Os partidos seculares boicotaram a votação.

Mas a decisão foi mais política do que legal, acusaram seus simpatizantes. Presidentes anteriores foram eleitos com poucos legisladores presentes no primeiro turno da votação. O tribunal, eles argumentam, reflete os interesses de um establishment secular que agora está montando um ataque contra Erdogan e a classe emergente de turcos devotos que ele representa.

O tribunal “é um produto do golpe militar de 1960”, disse Eser Karakas, um professor da Universidade Bahcesehir, em Istambul. O tribunal foi formado após o golpe com a intenção de interpretar a Constituição da Turquia, que preserva o secularismo no coração do Estado.

Em comentários transmitidos na terça-feira, Erdogan disse que seu partido pressionará por uma antecipação das eleições para o final de junho ou início de julho. O Parlamento turco deve votar a medida, mas ela é apoiada pelos partidos de todo o espectro político e deverá ser aprovada.

Ele também fez o que provavelmente é uma proposta altamente controversa que tiraria o processo de escolha do presidente das mãos do Parlamento e o submeteria a voto popular. (Os turcos votam em partidos, que então formam o governo com base em sua distribuição no Parlamento.)

Atualmente o presidente, a mais alta autoridade secular da Turquia, é eleito pelo Parlamento. O presidente comanda as forças armadas, tem poder de veto e nomeia os juízes.

“Não há nada mais belo que as urnas para críticas”, disse Erdogan.

A confiança de Erdogan vem da vasta rede que seu partido estabeleceu nas bases da sociedade turca. Ele representa o interior conservador da Turquia, que por anos esteve na periferia da sociedade, mas agora está se tornando a corrente principal, já que muitos eleitores migraram em grande número para as cidades turcas e ascenderam devido ao boom econômico.

Alguns analistas esperam que ele saia ainda mais fortalecido nas eleições antecipadas. Seu partido atualmente possui 351 cadeiras das 550 do Parlamento.

A questão em aberto na noite de terça-feira era que ação os poderosos militares turcos tomariam, se é que farão algo. As forças armadas se consideram as defensoras do legado secular de Ataturk e derrubaram quatro governos eleitos desde 1960, mais recentemente um pró-islâmico em 1997. Elas emitiram um forte alerta ao governo na noite de sexta-feira, de que interviriam caso Erdogan se afastasse demais do secularismo que é a espinha dorsal do Estado.

Analistas políticos turcos disseram na terça-feira que as forças armadas dificilmente intervirão por ora, por acharem que obtiveram uma vitória com a decisão do tribunal. Mas alguns disseram que os partidos seculares, apoiados pelas forças armadas, parecem estar superestimando sua popularidade.

Gul, um professor de inglês de 56 anos que liderou o esforço da Turquia para ingresso na União Européia, tentou acalmar os temores turcos na terça-feira.

“Se eu tivesse uma agenda secreta como alegado, se tais preocupações
fizessem realmente parte de minha agenda secreta, o ingresso na União
Européia não faria parte da minha política”, ele disse.

Então, em um tom conciliatório incomum para membros de seu partido, que
costumam desdenhar as preocupações seculares como antiquadas e excessivas, Gul acrescentou: “Mas se há tais preocupações, nós precisamos trabalhar juntos para entendê-las e corrigi-las”.

Aumentando a tensão na terça-feira, a polícia prendeu mais de 500
manifestantes, que estavam marchando em um comício de 1º de Maio que não foi aprovado pelas autoridades locais. As emissoras de televisão transmitiram as imagens da polícia com equipamento de choque chutando e batendo nos manifestantes assim como espirrando gás de pimenta neles. O mercado de ações turco permaneceu em queda, com o próprio Erdogan fazendo comentários públicos para restaurar a confiança nele.

Os simpatizantes de Erdogan deploraram a decisão do tribunal, argumentando que foram tratados injustamente. “Nos últimos quatro anos, eu circulo pela Europa dizendo que a Turquia promoveu todas estas reformas e é um local democrático”, disse Egemen Bagis, um conselheiro de Erdogan e um legislador. “Agora eu não sei o que dizer. A Turquia não merecia isto.”

Deniz Baykal, o líder do secular Partido Republicano do Povo, que apelou ao tribunal, saudou a decisão.

“De agora em diante, nenhum partido terá chance de impor um presidente”, ele disse em comentários transmitidos por televisão para todo o país. O veredicto “terá lugar na história legal como altamente respeitável e importante”.

As mudanças na sociedade turca preocuparam os turcos seculares de que seus estilos de vida não seriam respeitados assim que as fileiras do partido de Erdogan se enraizassem mais profundamente nas instituições do Estado. Tal preocupação levou centenas de milhares de manifestantes às ruas daqui e de Istambul no mês passado.

“Eu estou muito preocupado com o futuro da sociedade”, disse Asli
Aydintasbas, chefe do sucursal em Ancara do “Sabah”, um importante jornal. “Eu nunca vi um debate tão emocional. Está polarizado demais.”

Hakan Yavuz, um professor associado da Universidade de Utah, em Salt Lake City, usou uma metáfora colorida: “A Turquia é como um travesti. O espírito e o corpo estão em conflito”.

Em quatro anos de poder, Erdogan fracassou em construir pontes para a
comunidade secular, disse Yavuz, e subestimou enormemente a profundidade das preocupações seculares.

Yavuz disse que o comportamento de Erdogan parece sugerir que “se temos a maioria dos votos, nós podemos fazer o que bem quisermos”.

Gul tentou apresentar um tom de reconciliação na terça-feira.

“Eu, consciente ou inconscientemente, posso ter cometido erros”, ele disse. “Nunca aconteceu com vocês? O importante é ser capaz de perceber estes erros, corrigi-los e voltá-los para uma direção melhor.”

Fonte: The New York Times