O papa Bento 16 tentou, nesta quarta-feira (23/5), aplacar a revolta na América do Sul em torno de seus recentes comentários sobre a conversão das populações nativas, reconhecendo que “crimes injustificáveis” foram cometidos na conquista do continente, há 500 anos.

O papa disse, em italiano em uma audiência semanal, que “não é possível esquecer o sofrimento e as injustiças infligidas pelos colonizadores contra a população indígena, cujos direitos humanos fundamentais foram freqüentemente pisoteados”.

Ele disse em um discurso na semana passada no Brasil que as populações nativas “ansiavam silenciosamente” pela fé que os colonizadores trouxeram para a América do Sul.

No discurso, ele disse que “a proclamação de Jesus e de seu Evangelho em nenhum momento envolveu a alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira”.

O discurso enfureceu muitos líderes sul-americanos e grupos indígenas, lembrando a reação mais ampla e mais violenta no ano passado, após o papa ter citado um imperador bizantino que se referiu ao Islã como “maligno e inumano”. Estes líderes e grupos citaram a visão histórica padrão de que os colonizadores espanhóis e portugueses forçaram a conversão ao darem aos nativos a escolha entre “a cruz e a espada”.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, exigiu um pedido de desculpas do papa, e um grupo indígena do Equador disse: “Os representantes da Igreja Católica daquela época, com honradas exceções, foram cúmplices, enganadores e beneficiários de um dos genocídios mais terríveis de toda a humanidade”.

Mas diferente de seu pedido de desculpas por suas palavras sobre o Islã, a resposta do papa Bento 16 também repetiu sua afirmação de que o catolicismo na América do Sul moldou favoravelmente sua cultura por 500 anos.

“Apesar de não ignorarmos as várias injustiças e sofrimentos que acompanharam a colonização, o Evangelho expressava e continua expressando a identidade dos povos desta região e fornece inspiração para tratar dos desafios de nossa era globalizada”, ele disse em inglês aos peregrinos na Praça de São Pedro, na quarta-feira.

Nas audiências públicas das quartas-feiras, o papa normalmente faz um longo discurso em italiano, com sumários em outras línguas. A repetição do papa de sua qualificação em inglês pareceu ressaltar o desejo do Vaticano de atenuar suas palavras anteriores.

Em resposta aos comentários do papa, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, da Jecinaldo Satere Mawe é o coordenador-chefe, disse que “é arrogante e desrespeitoso tratar nossa herança cultural como inferior”.

Em uma entrevista para a “Folha de São Paulo”, o maior jornal do Brasil, Luiz Felipe de Alencastro, um historiador proeminente, foi ainda mais crítico. “O processo colonial foi de destruição da cultura ameríndia”, ele disse. “Os missionários estavam a serviço de uma religião que havia incorporado os elementos autoritários e despóticos das monarquias européias.”

Após o discurso sobre o Islã, e novamente após a viagem ao Brasil, alguns críticos, assim como alguns defensores, disseram que os comentários do papa -cuja carreira anterior era mais voltada para teologia do que para políticas públicas- indicam que ele não percebe as implicações políticas de suas palavras.

Seu esclarecimento na quarta-feira lembra um pedido de desculpas feito pela Igreja Católica no Brasil em 2000, pelos “pecados e erros” cometidos contra as populações nativas e negros no país nos 500 anos anteriores.

Fonte: The New York Times