Duas vezes por semana, o pastor Shannon Rust arrasta uma capela no reboque do seu caminhão até uma movimentada parada de caminhoneiros na Pensilvânia. Mais de seis milhões de almas passam por essa faixa de cerca de meio quilômetro de restaurantes e postos de gasolina, a cada ano e ele espera salvar algumas delas.

Há quase duas décadas, duas vezes por semana, ele arrasta uma capela no reboque de seu caminhão de 18 rodas até esta movimentada parada de caminhoneiros na Pensilvânia, na entrada da rodovia interestadual 70.

Para a maior parte das pessoas, esse lugar entre Pittsburgh e Harrisburg é literalmente o meio do nada. Representa um tanque de gasolina, um banheiro, uma parada para o café. Mas para Rust, o terreno cheirando a diesel diante do posto All-American Petro é a paróquia ideal para pregar às massas viajantes sobre o sentido da vida.

“Todo mundo aqui tem seguro para seus carros”, diz. “Eu quero vender um seguro para suas almas.”

Um homem grandalhão, de sorriso fácil e passo lento, Rust, 39 anos, começou a pregar de seu caminhão em 1991. Ele estava seguindo as pegadas de seu pai, Sam, 74 anos, que também tinha um caminhão convertido em capela e desde 1978 viajava pela costa leste dos Estados Unidos pregando aos motoristas (aliás, continua a fazê-lo em pelo menos duas viagens por ano).

Eles são parte da crescente presença religiosa nos postos de parada de caminhões e áreas de repouso de todo o país. No ano passado, 230 paradas de caminhoneiros e áreas de repouso nos Estados Unidos reportavam dispor de capelas, fixas ou sobre rodas, ante cerca de 120 em 2000, de acordo com um guia nacional do setor de transporte rodoviário.

A estrada aberta é um dos poucos lugares em que as pessoas refletem, hoje em dia, e mais gente tem aparecido em seu caminhão-capela trazendo o coração pesado de preocupação, disse Rust.

Perturbadas pela crise das hipotecas, assustadas com o preço do combustível e incertas quanto à guerra, a economia e a eleição deste ano, as pessoas parecem ansiosas e demonstram estar em busca de um senso de segurança, ele afirma.

“É a solidão e a preocupação que sentem”, disse, acrescentando que os caminhoneiros, e especialmente os motoristas independentes que precisam bancar suas próprias despesas, são aqueles que enfrentam as maiores dificuldades.

Quando seus celulares quebram o silêncio solitário das longas viagens, em geral são reclamações de suas mulheres, deixadas sozinhas em casa com eletrodomésticos quebrados, filhos bagunceiros ou outros problemas que os motoristas pouco podem fazer para resolver, de tão longe, diz Rust.

“Eles costumavam me pedir que rezasse pela segurança de suas famílias em sua ausência”, disse Rust, membro da Assembléia de Deus. “Agora, querem que eu reze também por seus casamentos, suas casas e seus empregos.”

Os quatro-rodas, gíria dos caminhoneiros para quem percorre as estradas em veículos que não caminhões, também procuram Rust com suas preocupações.

Recentemente, um antigo viciado que acabara de sair da prisão depois de servir uma sentença de dois anos por posse de metanfetamina sentiu que não estava conseguindo resistir à tentação, e procurou o pastor em busca de ajuda. Rust segurou sua mão e se ajoelhou com ele ao lado da bomba de gasolina, para pedir a Deus que lhes desse persistência.

Antes disso, houve uma jovem prostituta que alguém havia deixado na parada de caminhões. Rust encontrou um lugar onde ela podia dormir em segurança. Na semana passada, uma mulher da Califórnia que vive em seu Ford Taurus enferrujado viajando pelas estradas do país precisava ser convencida de que Deus não a estava punindo por uma vida sem raízes, conta Rust.

“Eu ouço muito mais do que falo, hoje em dia, porque as pessoas que encontro nas estradas têm muito a descarregar”, disse.

Quando era jovem, ele passou muitas noites de verão e muitos finais de semana na capela montada na traseira do caminhão de seu pai, em viagens familiares pelo país. Ele descobriu sua vocação religiosa certo verão, em umas parada de caminhões na rodovia interestadual 20, perto de Big Spring, Texas, depois que seu pai encostou o caminhão no acostamento para inspecionar o que parecia ser um pneu furado.

Um homem se aproximou deles chorando e contou sobre seus problemas conjugais e sua batalha contra a vontade de se suicidar. A família orou com ele, e quando se levantou o homem parecia calmo de uma maneira que Rust afirma jamais ter visto. Quando o pai de Rust enfim foi consertar o pneu, descobriu que não estava furado. “Deus realmente sabe como marcar um encontro”, disse Rust.

Mas nem todo mundo parece convencido. “Se o reverendo conseguisse ajudar com aquilo, eu poderia começar a acreditar em Deus”, disse Cory Lewis, um caminhoneiro independente de Morgantown, Virgínia Ocidental, apontando para a bomba de gasolina.

Lewis diz que hoje ele gasta US$ 2,5 mil por semana para manter seu caminhão na estrada, ante US$ 500 dois anos atrás. Rust diz ter percebido mudanças sutis entre os caminhoneiros e os motoristas, recentemente.

Menos caminhoneiros fazem brincadeiras de mau gosto quando ele reza por eles usando o rádio do caminhão, conta Rust, cuja organização, chamada “Headlight in Trucking”, sobrevive com US$ 90 mil em doações anuais obtidas junto a igrejas de todo o país.

“Os problemas estavam por vir há algum tempo”, disse Rust, em referência à situação difícil que o país vive.

Ele observou silenciosamente o sinal que colocou ao lado da entrada da capela depois dos ataques de 11 de setembro. O cartaz que antes dizia “bem-vindo a bordo” hoje traz uma paráfrase da Bíblia: “América, saiba disso: Quando o fim estiver por chegar, momentos perigosos surgirão. Você está preparada?”

Fonte: The New York Times