Francisco Ayala, ex-monge dominicano, biólogo evolutivo e geneticista da Universidade da Califórnia em Irvine, diz que informa às suas audiências não só que a evolução é uma teoria científica muito bem corroborada como também que acreditar em evolução não impede que uma pessoa acredite em Deus.

Para um professor universitário, Francisco Ayala passa muito tempo na estrada. Biólogo evolutivo e geneticista da Universidade da Califórnia em Irvine, ele realiza freqüentes palestras em universidades, igrejas, diante de grupos sociais e em muitos outros lugares, em defesa da teoria da evolução e contra os argumentos do chamado “criacionismo” e seu primo ideológico o “design inteligente”. Usualmente, o público que assiste às suas palestras já concordava com ele antes de ouvi-lo. Mas nem sempre.

À medida que continuam a surgir desafios a que a teoria da evolução seja parte dos currículos escolares, legisladores debatem medidas sob as quais o ensino do criacionismo equivale a liberdade a acadêmica e um novo filme vincula Darwin a males que variam da supressão da liberdade de expressão ao Holocausto, “muita gente que assiste às minhas palestras não sabe bem o que pensar”, diz Ayala. “Ou eles acreditam no design inteligente mas ainda assim querem me ouvir”.

Ayala, ex-monge dominicano, diz que informa às suas audiências não só que a evolução é uma teoria científica muito bem corroborada como também que acreditar em evolução não impede que uma pessoa acredite em deus. De fato, diz ele, a evolução “é mais compatível com a crença em um deus pessoal do que o design inteligente. Se Deus projetou organismos, ele teria muito por que responder”.

Considerem, por exemplo, o fato de que pelo menos 20% das gestações se encerram em abortos espontâneos. Se isso é resultado de uma anatomia concebida por inspiração divina, diz Ayala, “então Deus é o maior dos aborcionistas”. Ou considerem, ele propõe, o “sadismo” dos parasitas que devoram seus hospedeiros para sobreviver, ou os hábitos de acasalamento de insetos como os mosquitos-pólvora, cujas fêmeas fertilizam seus ovos consumindo os genitais – e todo o resto – de seus parceiros.

Para os mosquitos-pólvora, disse Ayala, “isso faz sentido em termos evolutivos. Se você é macho e se acasalou, a melhor coisa que pode fazer por seus genes é ser comido”. Mas caso Deus ou outro agente inteligente tivesse ordenado as coisas dessa maneira propositadamente, diz o professor, então “Ele seria sádico, certamente faz coisas muito estranhas e é um engenheiro bastante incompetente”.

É essa a mensagem de seu mais recente livro, Darwin’s Gift to Science and Religion (O que Darwin deu à ciência e à religião), no qual ele conta que, quando estudante de teologia na Espanha, foi ensinado que a evolução “oferecia o ‘elo perdido’ para a explicação de todo o mal do mundo” – uma defesa da bondade e da onipotência de Deus a despeito da existência do mal.

Ayala faz cerca de 50 palestras por ano, ele contou em recente entrevista em Nova York, um dia depois de uma aula inaugural de um ciclo de palestras sobre genética no City College. Devido a sua posição eminente – ele é membro da Academia Nacional de Ciências, ex-presidente da Associação Norte-Americana para o Progresso da Ciência e ganhador da Medalha Nacional de Ciências -, Ayala desfruta de posição privilegiada para falar.

Ayala, 74 anos, nasceu em Madri e estudou teologia na Faculdade Pontifical de San Esteban de Salamanca antes de imigrar aos Estados Unidos em 1961, para uma pós-graduação em genética na Universidade Colúmbia. Ele se naturalizou norte-americano em 1971.

Ayala se declara surpreso com o número de norte-americanos que acreditam que a teoria da evolução é contrária à crença em Deus, ou a vêem como errônea, ou até mesmo fraudulenta. (Na verdade, não existe contestação científica confiável a ela como explicação da diversidade e complexidade da vida na Terra.)

Ocasionalmente, diz, as pessoas vêm às suas palestras dispostas a desafiá-lo, usualmente brandindo os argumentos criacionistas mais conhecidos. Mas ele diz que até agora não encontrou argumento que não fosse capaz de rebater.

Ayala também descarta o argumento de que seria justo e equilibrado ensinar tanto a teoria da evolução quanto a teoria da criação, sem tomar partido perante a controvérsia. “Não ensinamos alquimia ao mesmo tempo em que ensinamos química”, ele diz. “Não ensinamos bruxaria e medicina como se fossem complementares. Não ensinamos astrologia e astronomia”.

Ayala se declara entristecido quando se depara com a teoria da evolução descrita como, em suas palavras, “ateísmo explícito”, a exemplo do que acontece nos livros do biólogo evolutivo Richard Dawkins ou de outros escritores que tomam ciência e religião como tema.

Nem a existência de Deus e nem a sua não existência são suscetíveis de prova científica, argumenta Ayala, e equiparar ciência ao abandono da religião “se enquadra aos preconceitos” dos proponentes do design inteligente e de outras teorias de base criacionista.

“Ciência e religião tratam de áreas não sobrepostas do conhecimento humano”, ele escreve em seu novo livro. “É só quando são realizadas asserções que vão além dos limites em que deveriam se enquadrar legitimamente que a teoria evolutiva e a crença religiosa parecem ser antitéticas”.

É importante ressaltar o fato de que Ayala “não é um crítico ou adversário da religião”, diz Eugenie Scott, do Centro Nacional de Educação para a Ciência, uma organização que defende o ensino da evolução e se opõe ao ensino do criacionismo nas escolas públicas. “Os criacionistas sempre tratam os inimigos da religião, no mundo da ciência, como se eles falassem por todos os cientistas. Mas é evidente que eles não falam por Francisco e por muitos outros cientistas”.

Mas ainda assim Ayala se recusa a discutir se continua ou não acreditando em religião. “Não quero ser rotulado”, afirma. “Por um lado ou pelo outro”.

Fonte: The New York Times