O Tribunal de Justiça de São Paulo sinalizou que vai manter a absolvição das quatro pessoas acusadas de formação de quadrilha e crime de extorsão contra o padre Júlio Lancelotti. Em agosto de 2007, Lancelotti afirmou que era ameaçado por um grupo que exigia dinheiro em troca de uma denúncia falsa de pedofilia contra ele.

A polícia orientou o padre a gravar as conversas, abriu inquérito policial e, ao final das investigações, o Ministério Público (MP) ofereceu denúncia pelos crimes de extorsão e formação de quadrilha.

O julgamento do recurso do MP começou nesta terça-feira (26), na 12ª Câmara Criminal. Do total de três votos, dois desembargadores defenderam a absolvição, por falta de provas, de Anderson Marcos Batista, Conceição Eletério, Éverson dos Santos Guimarães e Evandro dos Santos Guimarães. O julgamento deverá ser concluído na próxima semana, quando o desembargador João Morenghi deverá trazer seu voto.

O relator, desembargador Vico Mañas, disse que considerava estranhas as atitudes do padre Júlio Lancelotti. Ele questionou porque o religioso demorou tanto tempo para denunciar a extorsão de que era vítima e porque entregou todo aquele dinheiro e presentes ao acusado Anderson, incluindo um veículo Pajero.

O revisor do recurso, desembargador Eduardo Pereira, usou como argumento a falta de provas para sustentar a condenação. O padre Lancelotti acompanhou o julgamento ao lado de religiosos e militantes da Pastoral da Criança.

O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que atuou como assistente de acusação, defendeu que no processo há comprovação da prática reiterada de crime de extorsão contra o religioso. “Os acusados atuavam na forma de quadrilha, ameaçando e extorquindo o padre Júlio [Lancelotti]”, sustentou o advogado.

O procurador de Justiça Roberto Alceu de Assis Júnior chegou a pedir a nulidade da prova e que se reabrisse o processo, mas, no mérito, se manifestou contrário a posição do Ministério Público e pediu a absolvição, dizendo que tinha que seguir a sua consciência.

O recurso que começou a ser julgado é contra a sentença do juiz Júlio Caio Farto Salles, da 31ª Vara Criminal da Capital, que absolveu os acusados com o fundamento de insuficiência de provas. Para o magistrado de primeiro grau, pelo que se colheu na investigação o que poderia existir seria, no máximo, eventual coação no curso do processo.

Outro lado

O advogado dos acusados, Nelson Bernardo da Costa, afirmou que o padre Júlio Lancelotti entregou mais de R$ 600 mil a Anderson e que no processo não havia prova da prática de nenhum dos crimes apontados pelo Ministério Público.

Histórico

Lancelotti é conhecido internacionalmente por seu papel na luta pelos direitos de crianças e adolescentes. Os problemas do padre teriam começado em 2001, quando Anderson Batista deixou a antiga Febem, onde cumpria medidas socioeducativas por roubo. Lancelotti diz que Batista passou a extorqui-lo ameaçando ir à imprensa acusá-lo de ter abusado sexualmente de seu enteado, de oito anos. Lancelotti nega qualquer abuso.

Com base nas acusações do padre, a Justiça na época determinou a prisão de Batista, da mulher dele, Conceição Eletério, e dos irmãos Everson e Evandro dos Santos Guimarães. Todos foram depois soltos.

Fonte: UOL