O chefe dos carrascos do centro de torturas de Tuol Sleng, Kang Ken Iev, conhecido como “Duch” e um dos cinco membros do Khmer Vermelho acusados de crimes contra a humanidade pelo tribunal promovido pela ONU, se tornou pastor evangélico após ficar viúvo, em 1995.

Duch, comandante do centro S-21, situado numa velha escola de Phnom Penh e empregado para interrogar até a morte os “inimigos da revolução”, nasceu em 1941 na província de Kompong Thom. A sua família, de origem chinesa, era proprietária de terras para lavoura.

Aluno aplicado, Duch ainda jovem mostrou uma forte inclinação para a matemática. Decidiu se matricular no Instituto de Pedagogia de Phnom Penh, então dirigido por San Sen, que foi ministro da Defesa do Khmer Vermelho.

Em agosto de 1966, com seu certificado de pedagogo, Duch se empregou como professor no liceu Skoun, na província de Kompong Cham. Exerceu a profissão durante dois anos, até se ver obrigado a fugir por ter sido identificado como membro do Partido Comunista do Camboja.

Detido meses depois pela Polícia, foi preso durante dois anos e sem julgamento na prisão de Prey Sar, onde a tortura era comum.

Beneficiado pela anistia geral declarada em 1970 pelo general Lon Nol, na época primeiro-ministro do Camboja, Duch foi para a região controlada pelo Khmer Vermelho e entrou para a guerrilha.

Depois de algum tempo, assumiu a chefia da seção de Segurança Especial. A sua missão era construir na selva do noroeste do Camboja uma prisão que o Khmer Vermelho chamou de M-13. Foi a primeira de muitas.

Foi então que Duch começou a desenvolver diferentes métodos de tortura para extrair informação. No resto do tempo, cortejava Chimm Sophal, uma costureira com quem acabou se casando.

Após a queda de Phnom Penh nas mãos do Khmer Vermelho, em abril de 1975, a cúpula da organização encarregou ao torturador a tarefa de escolher o local da capital onde ficaria o centro de interrogatórios. Um ano depois, era nomeado chefe do centro de Tuol Sleng e da brigada especial encarregada dos interrogatórios, a “Santebal”.

De 14 mil a 16 mil pessoas, entre elas ministros do regime, diplomatas e estrangeiros, passaram por Tuol Sleng. Foram torturadas, assassinadas e mais tarde executadas no campo de extermínio de Choeung Ek, nos arredores de Phnom Penh.

Duch e seu pelotão de carrascos estiveram entre os últimos a fugir de Phnom Penh em janeiro de 1979, quando as tropas vietnamitas estavam às portas da capital.

Como os dirigentes e milhares de guerrilheiros do Khmer Vermelho, Duch buscou refúgio nas selvas do oeste do Camboja, junto à fronteira com a Tailândia. Anos depois, entrou em contato com ONGs que ajudavam os cambojanos nos campos de refugiados localizados em território tailandês.

Adotou o nome de Hang Pin e passou a ensinar matemática aos refugiados, aprendendo inglês para se relacionar com os voluntários, que desconheciam a sua verdadeira identidade. Ao mesmo tempo, trabalhava na secretaria de Pol Pot, o líder do Khmer Vermelho, que morreria em abril de 1998.

Em outubro de 1991, após a assinatura do acordo de paz de Paris, Duch e sua família se mudaram para uma aldeia do interior do Camboja. Quatro anos depois, por causa da morte de sua mulher, num ataque, mudou-se para Svay Chek. Converteu-se e tornou-se pastor evangélico.

As autoridades cambojanas conheciam o paradeiro de Duch há anos.

Mas ele só foi detido em maio de 1999, quando foi publicada uma entrevista que concedeu ao jornalista Nate Thayer e ao fotógrafo Nic Dunlop, da revista “Far Eastern Economic Review”.

Fonte: EFE