Há mais de um ano, Allabe Kaku Chibok perdeu suas três filhas cristãs. Curiosamente, o fato ocorreu depois da morte de sua ex-esposa. Um tribunal islâmico do estado de Borno concedeu a custódia das meninas a parentes muçulmanos da ex-esposa de Allabe.

Em novembro de 2004, Allabe permitiu que as filhas participassem da cerimônia fúnebre de sua mãe. A ex-esposa de Allabe, Malama Botul Grema, se divorciara dele depois que ele deixou o islã, mas a guarda das filhas ficou com o pai cristão.

As meninas ficaram com parentes mulçumanos na casa da mãe durante uma semana. Quando Allabe foi buscá-las para que fossem à escola, encontrou a policial aposentada Hajiya Maryam Aliyu, que havia ajudado os parentes muçulmanos da ex-esposa a raptar as meninas.

No dia 8 de dezembro de 2004, sem notícias do paradeiro das filhas, que também são cristãs, Allabe foi até a delegacia de polícia de Borno pedir que as buscas começassem e que Hajiya devolvesse as meninas.

Custódia era do pai

Allabe, de 50 anos, ficou com a custódia das filhas depois que Malama Botul Grema se divorciou dele, em 1996. Quando Malama se casou novamente, Allabe manteve a custódia das meninas Zara, Fati e Aisha, que têm hoje 14, 12 e 11 anos, respectivamente.

Em 9 de março, passados quatro meses, não tendo a polícia recuperado as meninas, Allabe, que é membro da comunidade Igreja de Cristo na Nigéria, voltou à delegacia e lembrou ao delegado da urgência do caso.

O pai declarou também que a policial Hajiya enfrentaria “a face dura da lei para servir de exemplo e impedir que outras pessoas agissem da mesma maneira, guiadas apenas pelas emoções”.

Os muçulmanos de Maiduguri ameaçaram retaliações contra os cristãos, caso Allabe não retirasse sua queixa e parasse de exigir a volta de suas filhas.

“Estou em uma situação crítica. Peço, humildemente, que se aja com urgência antes que a situação se torne ainda pior e que o caos, a anarquia ou qualquer desobediência à lei e a ordem se instaure”, escreveu Allabe. “Eu fiz tudo o que se requer de um cidadão nessas circunstâncias”.

A decisão do tribunal islâmico

Prevendo o perigo, o reverendo Joshua Adamu, presidente da Associação Cristã da Nigéria, seção do estado de Borno, mandou uma carta urgente à delegacia de polícia condenando qualquer ameaça contra os cristãos.

Allabe disse ao “Compass” que a polícia ainda não tomou nenhuma atitude. “O delegado de polícia me disse que o rapto das minhas filhas é um assunto de família e que, sendo assim, a polícia não deve se meter”, disse. Segundo ele, “a polícia se recusa a interferir porque o delegado também é muçulmano”.

Hajiya e a família da ex-mulher de Allabe intimaram-no a comparecer diante do Tribunal Superior Islâmico de Borno, para que ele anulasse seu pedido de custódia.

A policial Hajiya e dois parentes mulçumanos de sua ex-esposa deram entrada em um pedido pela custódia das meninas.

Allabe Chibok compareceu ao tribunal e lembrou como as filhas foram tiradas de seu convívio. “Eu sequer sei se as meninas estão vivas ou mortas”, testemunhou.

Policial admite rapto

Hajiya confessou ao tribunal que raptou as meninas porque a mãe delas havia feito esse pedido antes de morrer. Segundo a mulher, Malama pedira a ela que as meninas, que são cristãs, fossem tiradas do pai para que fossem criadas como muçulmanas.

A policial aposentada também declarou ao tribunal que a comunidade muçulmana a autorizava a ficar com as meninas. Segundo ela, líderes islâmicos “me autorizaram a trazê-las para minha casa e disseram que depois viriam e eu as entregaria para eles”, testemunhou Hajiya.

Os advogados de Hajiya e dos parentes da ex-esposa de Allabe alegaram no pedido de custódia que as meninas eram, agora, muçulmanas e não lhes era permitido viver com um pai cristão.

Em 24 de agosto de 2006, o I Tribunal Superior Islâmico de Borno decidiu que, segundo a lei islâmica, um pai não-muçulmano não pode ter a custódia do filho se a mãe da criança for muçulmana – ou neste caso, se os familiares de mãe morta forem muçulmanos.

“Segundo os princípios do islã, o pai não tem nenhum direito de ter a custódia dos filhos” , decidiu o juiz Alkali Usman Gambo. “O pai não pode ser o tutor dos filhos até que fique claro que não há nenhum parente da mãe para carregar o fardo”.

Allabe enfrenta a contradição de ter ganho a custódia das filhas quando se divorciou e de a ter perdido com a morte de sua ex-esposa. Ele disse ao “Compass” que espera que os cristãos e o governo nigeriano o ajudem a recuperar suas filhas.

“Faço um apelo para meus irmãos em Cristo que me ajudem a recuperar a guarda de minhas filhas”, disse. “Também faço um apelo para que aqueles que podem influenciar o governo nigeriano a assegurar a libertação de minhas filhas, que, por favor, o façam”.

Fonte: Portas Abertas