União EuropéiaA Comissão Européia – órgão executivo da União Européia – qualificou ontem de ‘inaceitáveis ‘ e ‘desproporcionais’ as reações de protesto no mundo islâmico às declarações do papa Bento XVI sobre o Islã, na semana passada.

‘A liberdade de expressão é uma pedra angular dos valores da União Européia, como é o respeito a todas as religiões, ao cristianismo, islamismo, judaísmo ou laicismo’, afirmou numa coletiva de imprensa o porta-voz da Comissão, Johannes Laitenberger. ‘Na visão da Comissão, qualquer reação deve ser baseada no que foi realmente dito, não em afirmações retiradas do contexto, menos ainda em declarações retiradas deliberadamente do contexto.’

A crise começou por causa de um discurso feito por Bento XVI durante visita a sua terra natal, a Baviera, na Alemanha. Ele citou um imperador bizantino que disse que Maomé ‘só trouxe coisas más e desumanas, como defender com a espada a fé que pratica’.

Líderes religiosos e políticos de países islâmicos exigiram que o papa se desculpasse, mas no domingo ele apenas afirmou lamentar profundamente que os muçulmanos tenham se sentido ofendidos por seus comentários. ‘Estas (passagens) eram a citação de um texto medieval que de nenhuma maneira expressa meu pensamento pessoal’, afirmou Bento XVI em sua tradicional bênção dominical.

A explicação do papa não acalmou os ânimos no mundo islâmico porque ele não disse ter errado ao fazer tal citação. Vários líderes religiosos islâmicos disseram ontem que Bento XVI ficou muito aquém das desculpas exigidas. ‘Ou você diz ‘peço desculpas’ da maneira correta ou não diz’, afirmou Mehmet Aydin, ministro de assuntos religiosos da Turquia, país que o papa vai visitar em novembro, em sua primeira viagem a uma nação muçulmana.

Aydin insistiu que Bento XVI não deveria ir à Turquia se não se desculpar.’Esperamos que as autoridades turcas cancelem a visita. A vinda do papa à Turquia não vai fomentar a união das civilizações, mas um choque de civilizações’, disse Aydin. No entanto, bispos católicos se reuniram ontem em Istambul para planejar os detalhes da viagem e das cerimônias religiosas. O representante do Vaticano na Turquia, George Marovic, disse não haver planos de adiá-la, apesar da crescente hostilidade no país em relação a Bento XVI.

Na capital turca, Ancara, a polícia ontem prendeu um manifestante que tentou forçar a entrada numa igreja protestante. Ele portava uma arma falsa e ameaçou explodir o local se o papa for à Turquia. Em outra evidência da exaltação dos ânimos, a associação dos advogados turcos pediu ao Ministério da Justiça que o papa seja preso assim que entrar no país.

Alguns países pediram que a ONU trate do assunto (leia abaixo). O tema deve ser um dos principais na abertura da 61 ª Assembléia-Geral da ONU, amanhã, em Nova York.

Embora não tenha criticado diretamente o papa, o presidente da França, Jacques Chirac, pediu que a questão seja tratada com mais diplomacia.

‘Não é meu papel nem minha intenção fazer comentários sobre as declarações do papa. Simplesmente quero dizer que temos de evitar qualquer coisa que exalte as tensões entre povos e religiões’, disse o presidente francês, em entrevista à Rádio Europa 1. ‘Temos de evitar fazer qualquer ligação entre o Islã, que é uma religião grande, respeitada e respeitável, e o islamismo radical, que é uma atividade totalmente diferente e de natureza política.’

O chefe da Igreja Anglicana, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, saiu em defesa do papa, por considerar que ele se desculpou. ‘Acho que sua visão sobre isso precisa ser analisada em relação a seu histórico. Ele tem falado muito positivamente sobre diálogo. Há elementos no Islã que podem ser usados para justificar a violência, como há no cristianismo e no judaísmo’, disse Williams à rede BBC.

Bush considera que o Papa é “sincero” ao pedir desculpas

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse nesta segunda-feira, considerar que o Papa Bento XVI foi “sincero” ao pedir desculpas após um discurso que feriu a sensibilidade dos muçulmanos.

Durante uma reunião com o primeiro-ministro da Malaio, Abdallah Ahmed Badawi, Bush aludiu à polêmica, e lembrou que o Papa “tinha pedido desculpas”. “O presidente acredita que o Papa é sincero em suas desculpas”, disse o diretor para a Ásia do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Dennis Wilder.

O Vaticano voltou ontem a afirmar que a polêmica sobre o discurso do Papa se deve a uma “leitura apressada” de uma parte de seu pronunciamento.

No entanto, as críticas não foram aplacadas no mundo islâmico, onde grupos fundamentalistas ameaçaram o Papa e os católicos.

Bento XVI afirmou no domingo estar aflito com as reações suscitadas por suas palavras, “que não expressam em modo algum” seu pensamento.

Fonte: Estadão e EFE