Há exatamente um ano, o então papa Bento 16 surpreendia o mundo ao anunciar sua renúncia. Em sua carta de despedida, Joseph Ratzinger culpou a “idade avançada” pela decisão, e não demorou para que especialistas de todo o mundo começassem a discutir os reais motivos da renúncia.

Incialmente tratada como um atestado de impotência diante da crise instalada no Vaticano pelo vazamento de documentos sigilosos (caso “Vatileaks”), a decisão do hoje papa emérito Bento 16 foi logo saudada como um ato de coragem, que abriu caminhos e inaugurou um processo de renovação na Igreja Católica –e que hoje continua nas mãos do papa Francisco.

“O grande desafio de um pontífice é o diálogo com o seu tempo, e a igreja já não conseguia manter esse diálogo. Com a saúde debilitada, Ratzinger já não tinha condições de ser o pastor universal que deve ser o papa, já não tinha mais energia inclusive para lidar com uma série de escândalos envolvendo instituições financeiras do Vaticano, nem com a perda de fiéis”, afirma Paulo Bosco, professor de direito da Universidade Católica de Brasília e especialista em direito canônico.

“Tudo isso gerou uma reflexão profunda, que levou à renúncia. Isso, para mim, foi a primeira grande renovação, o anúncio de uma nova etapa para a igreja”, continua Bosco. “O segundo passo foi a escolha de Jorge Mario Bergoglio, um homem eleito para socorrer as necessidades da igreja.”

O episódio que ficou conhecido como “Vatileaks” –que expôs casos de corrupção e má gestão no Vaticano– e seus desdobramentos são apontados como os principais motivos da renúncia do papa, o primeiro caso em 600 anos. A investigação do vazamento rendeu um dossiê encomendado por Bento 16 a três cardeais de confiança, onde são descritas as disputas internas por poder na Cúria Romana (o governo da Igreja Católica), assim como um esquema de chantagem a clérigos homossexuais.

“Sem dúvida os problemas na Cúria foram o principal motivo da renúncia. O papa viu que sua equipe de confiança não era tão de confiança assim. Existem indícios de que Bento 16 sempre teve muito claro para si que um dia renunciaria, de que não tinha a ideia de morrer no cargo, e essa questão da Cúria foi determinante”, diz o professor Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP.

Agora, com o papa Francisco, a Cúria Romana se tornou um dos grandes alvos desse momento de renovação. Francisco, que já chegou a dizer que a Cúria é a “lepra do papado”, criou em setembro o Conselho de Cardeais (“G8 do Vaticano”), grupo de oito religiosos que irá ajudar o pontífice na administração da igreja e na criação de um projeto de reforma da Cúria Romana.

“Ele está conduzindo uma reforma de enxugamento para tornar o Vaticano uma instituição mais simples, visualmente mais pobre. O problema do Vaticano não é a riqueza, mas a ostentação que pode haver em certos momentos. E a Cúria é o órgão que mais tem de passar por isso”, diz o professor Borba. “As palavras mais duras de Francisco são sempre endereçadas aos bispos. Francisco tem uma lógica: quanto mais perto você está dele, mais duro é o discurso que ele faz. Os bispos são aqueles que ele precisa convencer sobre as necessidades de reforma e quem deve dar o exemplo”, completa.

Os escândalos de corrupção envolvendo o banco do Vaticano –formalmente conhecido como IOR (Instituto para as Obras de Religião)– também são apontados como causas da renúncia de Bento 16. O ex-contador de alto escalão monsenhor Nunzio Scarano chegou a ser detido por lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, Scarano se ocupava de uma ampla rede corrupção que fazia falsas doações e que envolveria milhões de euros em contas do banco do Vaticano.

Agora, em um passo importante de suas reformas, o papa Francisco trocou, no início de janeiro, quatro dos cinco cardeais da comissão que supervisiona o banco do Vaticano –entre os substituídos estava o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer. Em novembro, o papa já havia nomeado seu secretário pessoal, Alfred Xuereb, para supervisionar as atividades do banco.

“O grande desafio do papa Francisco é a ênfase no governo interno da igreja, nos assuntos econômicos do Vaticano. A primeira grande tarefa é a modificação da administração de bens temporais. É preciso conservar e administrar esses bens da igreja, pois, sem isso, não será possível se dedicar às demais reformas”, afirma o professor Paulo Bosco. “Muitas pessoas estão sedentas por mudanças de doutrina, mas o desafio é a reforma interna. Ele não pode avançar em reformas de diálogo com o mundo sem antes resolver os seus problemas internos”, completa.

[b]Pedofilia[/b]

Escândalos de pedofilia envolvendo sacerdotes da Igreja Católica também são apontados como causas do desgaste que levou Bento 16 a renunciar.

“O problema seria a vergonha. Os religiosos fazem votos de pobreza, castidade e obediência, mas nada disso Bento 16 via, muito menos castidade. Enxergou, então, uma grande vergonha para a igreja, e isso se transformou em uma situação eticamente insuportável para ele”, afirma o teólogo Ubirajara Calmon Carvalho, professor aposentado de filosofia da UnB (Universidade de Brasília).

Em dezembro, o papa Francisco criou uma comissão específica para prevenir casos de pedofilia na igreja –ideia proposta pelo “G8 do Vaticano”–, no que seria uma continuidade do trabalho de Bento 16. Em janeiro, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, anunciou que cerca de 400 religiosos foram expulsos do sacerdócio por denúncias de pedofilia durante o pontificado de Bento 16.

No último dia 5, a ONU (Organização das Nações Unidas) exigiu que o Vaticano afaste todos os clérigos suspeitos ou acusados de pedofilia e que os entregue à Justiça. Em resposta, o Vaticano afirmou que defende os direitos das crianças, mas disse que o relatório ignora avanços já feitos e mostra uma tentativa da ONU de interferir nas doutrinas da igreja.

[b]Fonte: UOL[/b]