Segundo a pesquisa, 17% dos católicos praticantes dão crédito a videntes e astrólogos.

O consultório fica em um apartamento no elegante bairro de Salamanca, em Madri. É um escritório discreto que divide com uma imobiliária e um advogado. Na decoração sóbria, apenas alguns detalhes orientais e um pôster com as constelações. Sobre a mesa, nem velas pretas nem bola de cristal: há um computador portátil e dois telefones celulares aos quais os clientes mandam mensagens para marcar sessões de 65 euros para que leiam suas cartas.

“Odeio a palavra ‘vidente’, sou uma orientadora. Não tenho poderes, mas uma sensibilidade especial, uma empatia que existe em minha família desde minha tataravó”, diz a cartomante, uma jovem holandesa que prefere não dar seu nome. Não quer publicidade. Há 15 anos atende só graças ao boca a boca. A discrição é fundamental, porque por suas mãos passam políticos, famosos, médicos, advogados e “inclusive religiosos”. “Aqui vem gente de todos os estratos sociais e culturais”, diz.

Um possível cliente se aproxima do consultório. Não acredita “nessas coisas”, mas acha “divertido”, tem amigos que o fizeram e contam coisas incríveis sobre a intuição dessa mulher “que não se diz bruxa”. Também a respeita porque disseram que é “viciante”. É um homem de cerca de 30 anos, sofisticado, ateu e economista. Segundo as pesquisas, tem todas as credenciais para ser um cético, mas está aqui. Não é um bicho raro: um em cada cinco espanhóis dá crédito a “essas coisas”.

Na última pesquisa de Metroscopia para medir o Pulso Social da Espanha, foi incluída a seguinte pergunta: “Atualmente, muita gente se interessa por curandeirismo, astrologia, tarô ou vidência. Para alguns, essas atividades são simples charlatanismo, superstições sem fundamento que não merecem crédito. Outros, porém, consideram que podem ser formas alternativas de explorar e explicar o mundo e que, à sua maneira, são tão válidas e respeitáveis quanto a ciência. Com qual dessas duas opiniões você tende a concordar mais?” A grande maioria – 76% – dos pesquisados disse que eram invenções, mas “contudo, a verdade é que cerca de 20% lhes têm consideração”. Ainda maior é a fé em amuletos e talismãs: 48% dos espanhóis acreditam que têm “alguma influência sobre os acontecimentos que os afetam”.

Manuel Toharia, diretor científico da Cidade das Artes e Ciências de Valência e um cético combativo, não se impressiona com os dados. “Eu esperava que os crédulos fossem muito mais que 20%”, diz, “apesar de as pessoas mentirem diante de uma pergunta assim; respondem o politicamente correto”. E por que são tantos? “No ser humano há uma parte de racionalidade, que nos obriga a seguir pela direita na estrada, que nos faz ler a letra miúda da hipoteca, mas também há uma parte, embora poderosa, daquele macaco esperto que se escondia das tempestades e tinha medo de tudo o que não conseguia explicar.

Gostamos mais de pensar em uma solução provável mas fantasiosa do que buscar uma racional, inclusive muitos céticos no final caem no ‘não creio em bruxas, mas elas existem…'”, responde o físico.
Além da porcentagem, a pesquisa dá outro dado relevante: “O maior nível educacional só modula, mas de modo algum anula, a propensão a lhes atribuir credibilidade: esse tipo de prática constitui ciências alternativas para 24% dos espanhóis com nível de estudos mais baixo, mas também para 16% dos que têm nível de estudos mais elevado”. “E a necessidade de buscar seguranças mágicas é tão velha quanto o homem, e estudar direito não explica como funciona a matéria”, opina o filósofo laicista Fernando Savater. “As crenças esotéricas não dependem de ter ou não estudos, porque a informação ordenada informa, mas não ensina a pensar. Se até a ministra da Saúde usava a pulseira do holograma!”, diz Savater, referindo-se à Power Balance usada por Leire Pajín e que foi denunciada como fraude pela associação de consumidores Facua.

A credulidade varia segundo o perfil dos pesquisados, mas não muito. As mulheres acreditam um pouco mais que os homens, e os jovens mais que os idosos. Os eleitores da Esquerda Unida são mais céticos que o resto (só em 3 pontos). Os católicos praticantes e os não crentes são um tanto mais céticos (só 17% dão crédito a videntes e astrólogos) que os católicos pouco praticantes (23% acreditam neles). “Para um católico convicto essas coisas são pecado e para um ateu que não acredita em nada, besteiras”, resume Toharia, “e os católicos mornos são mornos para tudo.”

Creso foi ver o oráculo antes de entrar na guerra com os persas. Este lhe disse: “Se o fizer, um grande reino será destruído”. Creso pensou que seria o dos persas e foi à guerra. “Mas o império destruído foi o seu, e o oráculo se precaveu graças à mesma ambiguidade que hoje usam os horóscopos”, explica o professor de filosofia da Universidade de Navarra Jaime Nubiloa, para apontar que cremos em parte porque sempre o fizemos. “O ser humano sempre quis saber o que vai acontecer para tomar decisões; porque não sabemos tomá-las, por medo, frivolidade, ignorância, infantilidade, falta de assertividade e porque o futuro é essencialmente imprevisível.”

No entanto, Creso não vivia em uma sociedade altamente tecnológica, racional e científica na qual existem mais ferramentas para compreender o mundo e tomar decisões. Para contextualizar seus resultados, o Metroscopia recorre ao filósofo e sociólogo alemão do início do século 20 Max Weber, que indicou que o processo de racionalização característico das sociedades desenvolvidas representaria um processo paralelo de “desencantamento” do mundo. A ciência seria entronizada como “argumento final, supremo e indiscutível de autoridade”. No entanto, haveria “um efeito colateral não desprezível”: a sensação, para muitos indivíduos, de viver em uma “jaula de ferro”, um lugar árido e sem respostas para “as dimensões não estritamente racionais da vida”. “O resultado é que, inclusive em sociedades muito avançadas, caracterizadas por um indiscutível predomínio dos critérios racionais e científicos, continue existindo a necessidade de explicações não racionais (ou ‘arracionais’) do mundo”, conclui a pesquisa.

A tecnologia não apaga a magia. “Claro que não, nossa sociedade é muito técnica, mas não sabemos por que funcionam os sofisticados instrumentos que manipulamos, o fazemos como o fariam os selvagens, e isso não proporciona verdadeiro conhecimento”, reflete Savater. “Continuamos sem saber, por isso acreditamos; no amuleto e no iPhone igualmente, não temos ideia de como funcionam nenhum dos dois.” De fato, o pensamento mágico digere em seu benefício a tecnologização e o desenvolvimento científico: “Hoje a superstição se disfarça, os homeopatas fingem ser cientistas, as pulseiras do holograma não se apresentam como escapulários milagrosos, e sim como tecnologia”, diz Savater.

“Os charlatães sabem que mentem e por isso usam a linguagem e os conceitos da ciência; fingem investigar, usam avental e enquanto podem usam palavras como ‘quântica’, assim como o curandeiro fala em anatomia”, opina o jornalista Mauricio Schwartz, membro do Círculo Cético, associação para a difusão do pensamento crítico e autor do blog “O retorno dos charlatães”, dedicado a desmascarar fraudes paranormais.

A “tecnologia-magia” dos parapsicólogos com medidores eletrônicos da aura, a que joga com a dúvida, a comprovação e o ceticismo incomoda mais que a que persegue às cegas o milagre. Schwartz também acredita que os crédulos superam os 20%: “Se não, não haveria tanta gente fazendo negócio com isso”. Do fast food para a alma dos astrólogos telefônicos ao glamour de Anne Germaine, a médium que contata (em inglês) os mortos famosos na televisão. Dos best-sellers sobre o poder do pensamento positivo às oficinas “new age” sobre ciências alternativas ancestrais. Acreditamos porque sempre o fizemos, porque temos medo e por ignorância. Mas também porque nos vendem.

É de esperar que haja todo um leque de supersticiosos: desde o que vai tirar cartas por diversão ao que toma decisões importantes segundo lhe saia este ou aquele arcano, também os que abandonam um tratamento médico porque o curandeiro manda. “Pode ser mais ou menos grave”, diz Toharia, “há gente que põe a vida em risco e outras para quem serve como muleta psicológica, mas em todo caso abdicam de seu critério próprio, transformam-se em joguetes.”

À margem das consequências pessoais, “a superstição de uma sociedade vai contra seu progresso”, concordam os céticos. Como evitá-la? “O único antídoto é a cultura científica”, continua Toharia. “Não é a mesma coisa que ciência, mas um conhecimento ao alcance de qualquer um e só enquanto lhe interesse, não imposto pelo que o cientista diga. Cada um deve exercer sua própria curiosidade”, acredita Toharia.

“É preciso fomentar o pensamento crítico, ensinar a pensar e fazer que se cumpram as leis contra a publicidade enganosa”, acrescenta Schwartz. “Os políticos são indolentes, acham que o assunto dá um pouco na mesma.” Também, diz ele, é preciso acabar com essa ideia falsa de que o conhecimento mata a fantasia ou a imaginação e leva à frieza: “O conhecimento não é inimigo da paixão, mas da ignorância”. A jaula de ferro não tem por que ser assim, pode-se escapar sem acreditar no incrível. “Claro que precisamos de uma dimensão não meramente calculável, para isso existem a arte e a ficção”, diz Savater. “Buscar símbolos não o exime de saber como funciona o mundo, quando presenteia uma rosa a sua esposa não deixa de saber que são uma planta e uma mulher; a poesia não é incompatível com a botânica e a obstetrícia.”

A leitora de cartas também crê na ciência. Diz que ela não tem um “dom”: “Isso tem os cirurgiões!” O que ela tem são normas: não atende a menores, não permite que seus clientes façam mais de uma consulta por ano – “porque isto vicia” – e se nega a atender por telefone ou aos que “acreditam demais”. “É um perigo que alguém se agarre a você como a um prego em brasa”, diz. Aos que enxergam “mal”, manda ao psicólogo. Ela mesma vai, “para administrar os terríveis problemas” que ouve todos os dias em seu consultório.

[b]Fonte: El País[/b]