A Universidade israelense de Bar-Ilan, nos arredores de Tel Aviv, rejeitou energicamente a teoria formulada em um livro italiano que afirma que os judeus na Idade Média matavam crianças cristãs para usar seu sangue na fabricação de bolachas e vinho para a Páscoa judaica (Pessach).

O livro, intitulado “Páscoa de Sangue”, gerou grande agitação em Israel e em círculos judeus italianos, já que o autor é ninguém menos que o filho do ex-grande rabino de Roma, Elio Toaff, e docente na citada universidade israelense, de orientação religiosa e conservadora, Ariel Toaff.

Até agora este tipo de libelo fazia parte da literatura anti-semita e nenhum pesquisador judeu o tinha dado como verdadeiro.

“O professor Ariel Toaff é um dos pesquisadores mais importantes de Israel e do mundo no tema do judaísmo medieval e do judaísmo italiano. A Universidade Bar-Ilan defende a liberdade acadêmica como pedra angular de sua atividade de pesquisas”, diz um comunicado do centro.

“No entanto”, acrescenta o texto, “a Universidade condenou e condenará sempre qualquer tentativa de justificar qualquer tipo de ‘libelo de sangue’ contra os judeus”.

O “libelo de sangue” faz alusão ao suposto costume de judeus de matarem crianças cristãs para usar seu sangue em rituais religiosos.

No da Páscoa, o sangue seria usado para a elaboração do pão ázimo – um tipo de bolacha sem fermento – e do vinho.

A própria Igreja Católica, na década de 1960, erradicou totalmente de suas crenças estes libelos por considerá-los falsos e sem fundamento histórico.

Mas Toaff escreve em seu livro, lançado há poucos dias na Itália, que um grupo de judeus fanáticos realizaram o ritual, apesar das insistentes negativas das autoridades religiosas judaicas, que lembram que o consumo de sangue está terminantemente proibido, e não só de humanos, mas também de animais.

Fontes da universidade disseram à agência Efe que o autor se encontra neste momento na Itália e não pôde ser localizado, impossibilitando que o centro contrastasse as informações divulgadas pela imprensa local com o verdadeiro conteúdo do livro.

“De acordo com os princípios da pesquisa acadêmica, e para impedir a difusão de falsas acusações, a direção da Universidade espera o retorno de Toaff para avaliar e esclarecer a questão”, destaca o comunicado.

Durante séculos, a acusação do “libelo de sangue” contra os judeus se traduziu em sangrentos saques em inúmeros países da Europa. Sua anulação pela Igreja foi considerada um marco na aproximação entre as duas religiões, processo no qual o grande rabino Toaff teve um papel decisivo.

O grande rabino da Itália, atualmente com 91 anos, foi quem, em 1986, quando recebeu na sinagoga de Roma o Papa João Paulo II, abriu o caminho à reconciliação judaico-cristã, na primeira visita deste tipo por parte de um Pontífice.

Fonte: Último Segundo