VaticanoO Vaticano abriu nesta segunda-feira os seus arquivos secretos do pontificado de Pio 11 (1922-39) e disse que isso vai desfazer “opiniões injustas” a respeito da relação da Igreja Católica com os judeus antes da Segunda Guerra Mundial.

Uma fonte disse que 60 pessoas foram aos arquivos no primeiro dia, pedindo para consultar os cerca de 30 mil documentos que somam milhões de páginas.

Embora os arquivos sejam do pontificado de Pio 11 (nascido Achille Ratti), a atenção dos acadêmicos judeus se voltará para a figura do cardeal Eugenio Pacelli, que sucedeu Pio 11 em 1939 e assumiu o nome de Pio 12.

Pacelli havia sido núncio apostólico na Alemanha de 1917 a 29, e de 1930 a 39 foi secretário de Estado (espécie de primeiro-ministro) do Vaticano. Seu pontificado durou até 1958.

Historiadores consideram que Pacelli foi cuidadosamente preparado para a sucessão de Pio 11, uma tese que poderia ser confirmada nos arquivos. Críticos dizem que, durante a Segunda Guerra, ele não se empenhou em salvar os judeus da Europa do Holocausto.

Em um longo artigo no L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, o padre Sergio Pagano, chefe dos arquivos, disse que o material relativo às opiniões eclesiásticas sobre os judeus nos 17 anos anteriores à guerra trará surpresas.

“A esse respeito, alguns julgamentos injustos expressos em um recente livro vão talvez ser revertidos”, escreveu Pagano, sem mencionar o nome do livro.

É possível que os arquivos agora abertos contenham notas de reuniões do Secretariado de Estado, inclusive com propostas de Pacelli sobre questões judaicas.

Por exemplo, Edith Stein, alemã convertida do judaísmo e morta em Auschwitz, escreveu em abril de 1933 a Pacelli sobre a repressão aos judeus nos primórdios do regime nazista. Ele respondeu uma semana depois, dizendo ter transmitido o tema a Pio 11.

Os documentos também devem demonstrar as opiniões pessoais do futuro Pio 12 sobre o acordo de 1933 da Igreja com a Alemanha nazista, as relações com a Itália fascista, a Guerra Civil Espanhola (1936-39), a anexação da Áustria pelos nazistas e a tentativa anglo-francesa de “acalmar” Hitler com o Acordo de Munique (1938).

Pio 12 adotou a cautela durante a guerra para não atrair represálias aos católicos na Alemanha e em países ocupados pelo nazismo. Inicialmente, foi elogiado por se manifestar publicamente e por ajudar secretamente a salvar judeus.

Essa visão mudou radicalmente em 1963, quando o autor alemão Rolf Hochhuth escreveu uma peça em que retratava o papa como um cínico que manteve o silêncio apesar de saber sobre o Holocausto.

Admiradores e detratores de Pacelli debatem desde então. Os simpatizantes dizem que ele fez de tudo para salvar judeus, mas os críticos afirmam que o papa era um germanófilo anti-semita, com opiniões formadas nos seus anos como núncio em Berlim.

A abertura dos arquivos de 1922 a 39 foi decidida pelo falecido papa João Paulo 2o., mas a data foi marcada por seu sucessor, Bento 16. A abertura havia sido anunciada em junho.

Terão acesso aos documentos acadêmicos que apresentarem ao Vaticano uma carta de recomendação de alguma universidade ou instituto de pesquisas e anexar uma cópia da sua qualificação acadêmica.

Historiadores cobram do Vaticano também a abertura de todos os arquivos do pontificado de Pio 12 (1939-58), mas não há sinais de quando isso vai acontecer.

Vaticano enfrenta grande retrocesso em relações com Islã

O Vaticano orientou seus representantes em países muçulmanos a explicar as palavras do papa Bento 16 sobre o Islã, mas especialistas afirmaram na segunda-feira que o furor já representa um retrocesso de décadas nas relações entre as duas religiões.

O novo secretário de Estado de Bento 16, que assumiu o cargo na sexta-feira, em meio aos protestos muçulmanos, disse que os núncios da Santa Sé vão visitar líderes religiosos e do governo de países muçulmanos.

O cardeal Tarcisio Bertone disse que os núncios vão ressaltar trechos do discurso polêmico, proferido na semana passada na Universidade de Regensburg, na Alemanha, que o Vaticano acredita estarem sendo “negligenciados”.

Segundo o Corriere della Sera, Bertone disse que houve uma “forte manipulação do texto, que o transformou em algo diferente do que pretendia o Santo Padre”.

No domingo, o papa disse que lamentava profundamente que os muçulmanos tivessem se ofendido pelo fato de ele ter citado um texto medieval que criticava o uso da violência pelo Islã, mas o pedido de desculpas não conseguiu aplacar a indignação de alguns grupos islâmicos.

Na palestra, o papa falou das críticas ao profeta Maomé feitas pelo imperador bizantino do século 14 Manuel 2o. Paleólogo. O imperador disse que o profeta Maomé só trouxe o mal, “como sua ordem para disseminar pela espada a fé que pregava”.

No domingo, o papa disse que a citação não representava sua opinião pessoal. Mesmo assim, a mera citação já foi vista pelos muçulmanos como profundamente ofensiva, e especialistas advertiram para a possibilidade de um rompimento nas relações com o Islã.

Gian Enrico Rusconi, professor da Universidade de Turim, escreveu no jornal La Stampa que as consequências do discurso “indicam um rompimento irreversível, não apenas nas relações entre o Islã e a Igreja Católica, mas também para a imagem do papa no Ocidente”.

Marco Politi, especialista em Vaticano do jornal La Repubblica, de Roma, disse que o papa causou um retrocesso de 25 anos nos esforços feitos por seu antecessor, João Paulo 2o., para se aproximar do Islã.

Para Politi, João Paulo 2o., embora deixasse claro que era errado usar o nome de Deus para justificar a violência, “era respeitado e ouvido pelo mundo muçulmano como um líder espiritual”.

“Tragicamente, tudo isso foi rompido pelo discurso de Regensburg, e resta saber se o papa e seu secretário de Estado vão conseguir sair dessa”, escreveu Politi.

João Paulo 2o., que morreu em 2005, foi o primeiro papa a visitar uma mesquita. Ele foi a vários países de maioria muçulmana e recebeu uma série de líderes políticos e religiosos islâmicos durante seus 27 anos de papado.

Em fevereiro, Bento 16 “decapitou” o departamento do Vaticano para o diálogo com o Islã, removendo seu presidente e fundindo-o ao Ministério da Cultura do Vaticano. O titular do departamento, o arcebispo Michael Fitzgerald, foi enviado para o Cairo, no que foi encarado como um rebaixamento.

Muitos chamaram a saída de Fitzgerald do Vaticano de “exílio” e manifestaram a preocupação com o fato de a Santa Sé não possuir mais um especialista sobre o Islã para assessorar o papa em questões muçulmanas.

Fonte: Reuters