Processado na Aeronáutica porque cobrava para celebrar batizados, casamentos e missas na capela da Universidade da Força Aérea (Sulacap, zona oeste do Rio), o major-capelão Newton de Medeiros, 52, terá o seu caso analisado pela Congregação para o Clero no Vaticano, que tem como prefeito o ex-arcebispo de São Paulo d. Cláudio Hummes.

O IPM (Inquérito Policial Militar) que investigou o comportamento do capelão acabou arquivado por “falta de justa causa”. Ou seja, não ficou comprovada a culpa do acusado. Mesmo assim, Medeiros sofreu prisão administrativa, passou por internação hospitalar e, finalmente, foi transferido do Rio para Brasília.

Em abril, à revelia do capelão, foi encaminhada à congregação toda a documentação sobre o caso. Coube à advogada Glória Jean, que defendeu Medeiros de julho do ano passado a fevereiro deste ano, enviar o relato do caso para o Vaticano. Cópias também seguiram para o núncio apostólico do Brasil, d. Lorenzo Baldisseri.

À Folha de São Paulo, o capelão afirmou que preferia não levar o caso adiante. Ele demonstrou irritação ao saber do procedimento da advogada, que enviou os documentos para autoridades católicas sem consultá-lo.

“Isso pode me prejudicar. Tudo em que entra ódio, raiva, não leva a nada”, disse Medeiros, que confirmou ter sido investigado por suposta má-fé na gestão do que arrecadava na capela Nossa Senhora de Loreto, que fica dentro do campus da Unifa (Universidade da Força Aérea), onde trabalhou nos seis últimos anos.

Em novembro de 2005, foram apreendidos R$ 28,18 mil nos dois cofres da capela. O novo comandante da Unifa, brigadeiro Raul José Ferreira Dias, fora informado de que o capelão estava cobrando pelas celebrações realizadas na capela. Houve também a apreensão de processos de habilitação de casamentos, registros de sacramentos e outros documentos.

Em 30 de outubro de 2006, após o encerramento do IPM, o comandante decretou a prisão disciplinar do religioso por oito dias, embora, no decorrer do IPM, o capelão tenha demonstrado que a cobrança era uma prática antiga e autorizada pela Arquidiocese do Rio.

“Houve a prisão disciplinar porque o novo comandante não tinha conhecimento do que estava acontecendo. Eu teria que avisá-lo. Quando fez o inquérito, ele pensou que eu agira de má-fé”, disse o capelão.

De acordo com ele, o dinheiro guardado nos cofres seria empregado na construção de uma nova capela na Vila Militar da Aeronáutica no Campo dos Afonsos (zona oeste). Agora, os R$ 28,28 mil estão retidos pelo governo federal.

Além da prisão administrativa, o capelão passou dois dias internado no Hospital da Aeronáutica, foi obrigado a desocupar a casa paroquial e a entregar as chaves da capela. Agora, foi transferido para Brasília.

A advogada disse que encaminhou os documentos do caso a autoridades católicas por conta própria. “Agi como católica, não como advogada que trabalhou para o padre Newton, que foi ameaçado.”

Segundo ela, o caso do padre da Unifa mobilizou os capelães católicos da Aeronáutica. Em outubro, houve um encontro dele com seus colegas.

“Os capelães são militares e são padres. Eles têm dois comandos. Isso os preocupa”, disse a advogada.

Outro lado

A Folha tentou ouvir a Aeronáutica sobre o caso. Até a conclusão desta edição, o comando não havia se manifestado.

O brigadeiro Dias trabalha hoje no 5º Comar (Comando Aéreo Regional), no Rio Grande do Sul. Seu ajudante-de-ordens disse à Folha que o comandante estava viajando.

A Arquidiocese do Rio, informado sobre o caso pela Folha, também não se manifestou.

Fonte: Folha de São Paulo