Um levantamento do Vaticano mostrou que, de 1964 a 2004, 69 mil padres abandonaram a batina para se casar e, desse total, 16% “se arrependeram da decisão” e requisitaram o retorno ao sacerdócio.

“11 mil ficaram viúvos ou insatisfeitos com a vida conjugal, se arrependeram da escolha e requisitaram o retorno”, disse Giampaolo Salvini, diretor da Civilitá Cattolica, revista oficial dos jesuítas que publicou os dados do levantamento.

Em entrevista à BBC Brasil, Salvini disse que, ao divulgar os dados, “o interesse do Vaticano é mostrar que há sacerdotes retornando”, em meio à crescente polêmica sobre o celibato.

“A Secretaria de Estado do Vaticano procura demonstrar que não há um abandono em massa de sacerdotes”, disse. “As estatísticas contrariam a posição daqueles que defendem o celibato opcional para os padres”.

No texto, intitulado Padres que abandonam, padres que regressam, Salvini explica que, na realidade, não existe uma estatística precisa sobre o número atual de padres casados. Mas, pelos dados do levantamento, esse total, descontando aqueles que retornaram, seria de 58 mil.

A estimativa oficial é muito inferior à de associações que defendem o fim do celibato clerical, como a Sacerdotes Casados Já.

Segundo a entidade, 150 mil padres em todo o mundo são “casados” (total inclui os que, mesmo no sacerdócio, têm uma companheira e os que deixaram a batina para se casar, mas não abandonaram a fé católica).

Padres “casados”

Segundo a organização, que também contabiliza os dados desde 1964, as cifras do Vaticano são incompletas.

“O mais preocupante nisso tudo não é o Vaticano dizer que apenas 69 mil padres abandonaram o sacerdócio entre 1964 e 2004”, afirmou à BBC Brasil Giuseppe Serrone, um dos fundadores da Sacerdotes Casados Já.

“É escandaloso colocar no centro da discussão o fenômeno do reingresso e ignorar aqueles que ainda estão no ministério e têm uma companheira, este sim um fenômeno amplo. Padres e bispos que vivem com suas companheiras e, com o conhecimento do Vaticano, não entram nas cifras oficiais como padres casados”.

“Tenho conhecimento de uma diocese no Brasil em que todos os sacerdotes são casados, ou melhor, têm companheiras”, disse sem revelar o nome da cidade.

A Sacerdotes Casados Já é uma organização com representantes em vários países e liderada pelo arcebispo excomungado Emmanuel Milingo.

Brasil

Quando um padre se casa, ele não deixa automaticamente de ser padre. Aos olhos da Igreja, o sacramento da ordem, recebido pelos seminaristas quando eles se tornam padres, é eterno – como é o batismo e o casamento.

Só no Brasil, segundo a Sacerdotes Casados Já, em torno de 18 mil (12% do total no mundo) padres são casados.
O números da Santa Sé sobre os brasileiros que abandonaram a batina de forma oficial para se casar, comunicando a decisão ao Vaticano, são modestos.

Um levantamento feito pela Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, apenas com aqueles que pediram oficialmente a dispensa, aponta que, entre janeiro de 2001 e julho de 2005, 148 padres brasileiros receberam respostas positivas a seus pedidos de licenças para se casar, uma média de 30 por ano.

“O que preocupa um pouco são os que deixam o ministério e não pedem a dispensa”, diz o monsenhor Roberto Carrara, oficial da Congregação para o Culto Divino, departamento do Vaticano responsável pelas licenças sacerdotais do Brasil até 2005, quando a função passou para a Congregação para o Clero.

Segundo o monsenhor Carrara, até 1960, não era fácil para os sacerdotes terem seus pedidos de licenças aprovados. Ainda hoje, muitos pensam que é assim e, simplesmente, abandonam o sacerdócio sem fazer qualquer comunicação. Atualmente, o processo leva, em geral, de dois a três meses.

“Muitos destes padres não foram devidamente formados. No decorrer do caminho, apresentaram deficiências psicológicas, espirituais, ou afetivas”, afirmou. “Para ser padre, não basta não ter defeitos. É necessário ter qualidades, superar as tentações da vida e dificuldades”.

Fonte: BBC Brasil