A iniciativa do papa Bento XVI de acolher sacerdotes anglicanos dissidentes de tradição mais conservadora significa um desserviço à causa do ecumenismo e um profundo desrespeito à Comunhão Anglicana mundial.

“No meu entender, isto pode ser caracterizado como uma forma clara de proselitismo desonesto e acintoso”, declarou o pastor reformado e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Zwinglio Mota Dias.

A cúpula vaticana imiscuiu-se em assuntos internos de outra confissão “com o intuito claro e proclamado de atrair os descontentes daquela confissão para suas fileiras”, definiu o pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil ao falar para o Instituto Humanitas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

A Comunhão Anglicana, que congrega em torno de 77 milhões de fiéis em todo o mundo, é constituída por igrejas independentes que se juntam numa espécie de federação. Nos últimos anos, a Comunhão sofreu abalos internos por causa da decisão de algumas igrejas nacionais de ordenarem mulheres e acolherem homossexuais como pastores e pastoras.

O fato de o Vaticano ter expedido uma constituição apostólica específica para anglicanos, acolhendo os de tradição mais conservadora descontentes com a sua Comunhão, é novo e precisará ser discutido entre as duas igrejas e amadurecido, lembrou o secretário-geral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), reverendo Francisco Silva.

“Nós, anglicanos, estamos abertos a esse diálogo, pois entendemos que sair da mesa do diálogo não representa uma contribuição à caminhada ecumênica. O ecumenismo é isso, é a busca de construir o essencial e ter liberdade e respeito pelas questões chamadas secundárias”, disse Silva.

Ele lembrou que o diálogo católico-anglicano tem mais de 40 anos. Por isso, ele estranhou que, em nenhum momento, a intenção do Vaticano de inaugurar “Ordinariatos Pessoais”, que funcionarão como dioceses, para receber anglicanos descontentes tenha sido compartilhada.

“Mesmo estranhando essa atitude unilateral de Roma, continuamos acreditando que é possível estabelecer, aprofundar e ampliar o diálogo e cooperação entre as duas igrejas”, assinalou.

Silva destacou que a preocupação da Igreja Anglicana, hoje, volta-se muito mais à qualidade de vida das pessoas, à questão do meio ambiente, dos valores que regem a sociedade do que a um tema de caráter doutrinal, teológico e dogmático, “pois isso diz respeito às questões internas de cada igreja”.

A teóloga católica estadunidense Mary E. Hunt considera a proposta do Vaticano aos anglicanos descontentes um escândalo. “Roma não muda uma vírgula coma chegada dos anglicanos dissidentes. Ela mantém em seu lugar o seu clero celibatário, enquanto acolhe com gosto anglicanos casados”, comparou.

O líder da Comunhão Anglicana mundial, reverendo Rowan Williams, esteve como o papa Bento XVI, em Roma, em dezembro, após, portanto, o anúncio de acolhida de anglicanos descontentes, assunto que certamente esteve na pauta entre os dois líderes religiosos.

Fonte: ALC