Um novo videogame cujo tema é o “bullying” (intimidação e assédio praticado por crianças e adolescentes mais fortes contra os mais fracos) nas escolas está reacendendo a polêmica sobre a violência escolar e gerando fortes críticas dos especialistas em prevenção do fenômeno, que dizem que o jogo poderá encorajar os adolescentes a recorrer a agressões.

O Instituto Nacional da Mídia e da Família está orientando os pais a prestarem atenção e solicitando às lojas que não vendam o jogo Bully a adolescentes. Um programa internacional de prevenção de bullying da Universidade Clemson, na Carolina do Sul, está encorajando boicotes. No Reino Unido, três grandes redes de venda de equipamentos eletrônicos anunciaram que não comercializarão o produto.

“Não acreditamos que esse jogo seja apropriado para crianças de qualquer idade”, afirma o psicólogo Dave Walsh, presidente do Instituto Nacional da Mídia e da Família, no qual um funcionário jogou durante nove das 40 horas necessárias para se jogar o Bully. “Esse videogame enaltece e recompensa aqueles tipos de comportamentos anti-sociais que os professores combatem todos os dias”.

O jogo não inclui armas, sangue ou ferimentos. No entanto, os críticos garantem que, mesmo assim, ele é violento.

“Em uma cena, o chamado herói senta-se em uma árvore como se fosse um franco-atirador”, conta Walsh. “Em vez de uma arma de fogo, ele porta uma atiradeira. O seu alvo é o time de futebol americano”.

Jack Thompson, um advogado de Miami que representa os pais de três garotas que foram assassinadas por um colega de escola em um tiroteio na escola em 1997, em Paducah, Estado de Kentucky, tentou sem sucesso impedir a venda do Bully na Flórida. “No mínimo porque a a abordagem asséptica da violência torna o videogame mais perigoso”, disse ele em uma entrevista. “O jogador não enxerga nenhuma conseqüência para os seus atos a não ser a vitória… É de se prever que o jogo gere comportamentos imitativos nas escolas do país”.

A companhia responsável pela produção do Bully, a Rockstar Games, já foi alvo de controvérsias antes. Ela criou o Grand Theft Auto: San Andreas, que a Wal-Mart se recusou a vender devido à sua violência, e que a Rockstar recolheu no ano passado, após descobrir que o jogo continha uma cena oculta de sexo explícito. O porta-voz da Rockstar, Rodney Walker, não colaborou em uma entrevista quando lhe pediram para falar sobre o Bully. “Não entendo a sua pergunta”, disse ele várias vezes, quando lhe perguntaram sobre o conteúdo do jogo.

Em um e-mail subseqüente, ele escreveu: “Jamais convenceremos ninguém, mas esperamos que as pessoas se divirtam com a história do Bully, assim como se divertem com histórias similares encontradas em livros, peças de teatro e filmes”.

O Bully gira em torno da figura de Jimmy Hopkins, um garoto novo em um reformatório. Quando vê nerds sendo vítimas de assédio, Jimmy decide ajudá-los.

“Nós encorajamos os indivíduos que estão de fora, os chamados expectadores, a procederem dessa forma”, afirma Barbara Coloroso, autora do livro “The Bully, the Bullied and the Bystander” (algo como “O Bully, a Vítimas do Bully e os Expectadores”).

“Infelizmente, é nesse ponto que terminam as qualidades positivas do jogo”, acrescenta ela. “O que se segue é uma escalada de atos violentos que legitimam a violência como solução de problemas”.

Quando o jogo foi lançado, na semana passada, o seu filho de 29 anos, Joe, e um amigo começaram a jogar. Embora ambos tenham afirmando que o jogo “é legal, de uma forma semelhante a Grand Theft Auto”, Joe afirmou que certas passagens são questionáveis. “Você esbarra em uma professora de ginástica em uma sex-shop”, diz ele. “O jogador subjuga grupos por meio da violência, além de espancar um morador de rua”. Até mesmo quando Jimmy recebe uma boa nota em uma prova de química, a sua recompensa permite a agressão: ele recebe fogos e bombas de gases mau-cheirosos para usar contra os bullies.

“Esse é um exemplo de como o sistema de classificação por idades é inadequado”, afirma Walsh, referindo-se à classificação voluntária feita pela Entertainmente Software Rating Board (Comissão de Classificação de Softwares de Entretenimento). O Bully recebeu a classificação T, para adolescentes a partir de 13 anos. Walsh preferiria a classificação M para o jogo, para indivíduos a partir de 17 anos.

Thompson quer que a comissão mude a classificação do jogo. Em uma carta enérgica enviada à comissão na última quinta-feira, ele argumenta que uma classificação M é recomendável, já que, segundo ficou sabendo por meio de um estudante universitário que nesta semana jogou todo o videogame, nos estágios finais o jogador pode espancar garotas e professores, e até lançar artefatos explosivos, com poucas conseqüências. “O jogo ensina as crianças a se dedicarem a vendetas contra os bullies”, escreveu ele. “Todo especialista em bullying do mundo sabe que esta é a receita para o desastre, uma receita para uma Columbine”.

O que perturba a educadora Marlene Snyder, coordenadora de treinamento nacional do Programa Olweus de Prevenção de Bullying da Universidade Clemson, é o fato de o Bully se passar em uma escola de segundo grau, em vez de em um cenário fantástico, além de o jogo abordar relacionamentos humanos, e não objetos inanimados, como carros.

“Como ele é retirado de um quadro que faz parte da vida real dos adolescentes, o jogo se transforma em um manual”, alerta Snyder. “Em um mundo de violência crescente, não é essa a mensagem que precisamos passar aos adolescentes”.

A atual prática de prevenção de bullying se baseia em conferir poder aos expectadores, mas a ideia é marginalizar o bully, e não recorrer às suas táticas.

“A primeira coisa a se fazer é modificar o clima em uma classe ou escola, de forma que todos saibam quais comportamentos agressivos específicos são inaceitáveis. Por exemplo, estabelecer que em uma sala de aula não se xinga ninguém”, afirma o sociólogo David Finkelhor, diretor do Centro de Pesquisas de Crimes contra a Criança, da Universidade de New Hampshire.

Os alunos precisam aprender formas de demonstrar desaprovação e quando procurar ajuda de um adulto, e os adultos precisam aprender como interferir. “Grande parte dos casos de bullying só é possível porque os adultos permitem que isso ocorra com o seu silêncio”, afirma Nancy Mullin, do Centro Wellesley para Mulheres, e co-autora do currículo anti-bullying “Quit It!” (algo como “Pare com Isso!”).

Segundo Coloroso, é particularmente triste o fato de que a maioria dos jogadores adolescentes terá alguma experiência na vida real com o fenômeno do bullying.

“Para uma criança nova que foi atormentada incessantemente, com medo de ir à escola, socialmente isolada, o jogo proporciona uma espécie de conforto: ‘Legal! Esse cara está dando o troco!'”, diz ela. “Ainda que isso não incite tal adolescente a se comportar agressivamente – algo que os videogames podem ter feito no caso do tiroteio na escola de segundo grau Columbine e em outros locais -, quanto mais eles jogam, mais as conexões nervosas no cérebros passam a associar violência a prazer”.

Pelo menos um psicólogo não vê problema com o Bully, que ele jogou por cerca de uma hora. O autor do livro “From Bullies to Buddies” (algo como, “De Bullies a Companheiros”), e um fã confesso dos jogos violentos, Izzy Kalman, da Universidade de Staten Island, diz ter sido convidado para avaliar o Bully antes do lançamento do jogo. “Recomendo tranqüilamente o jogo”, diz ele. “Se ele incitar a agressão, tenho certeza absoluta de que será no campo da luta fictícia”.

Doug Gentile, psicólogo especializado em desenvolvimento mental e professor da Universidade do Estado de Iowa, não aceita tal argumentação.

“Todos os estudos feitos desde a década de 1960 revelam que não existe nada errado quanto a ver cenas de violência, caso se aprenda que a violência é algo de ruim”, diz ele. “Mas se a mensagem é apenas a de que o mocinho é melhor no campo da violência do que o bandido, temos um problema”.

“Isso remete a um outro problema do Bully”, diz Joe Coloroso. “O jogador às vezes tem a oportunidade de optar pela não violência, mas aí ele perde o jogo”.

Fonte: The New York Times