Seis meses depois da denúncia do falso padre que celebrava casamentos e batizados nas dioceses de Porto e Braga, em Portugal, os casais que viram o matrimônio ser realizado pelo “padre” Agostinho Caridade ainda não sabem se a sua união vai ser reconhecida oficialmente pela Igreja Católica.

O suspeito, que usava o nome de João Luís Gonçalves Amorim, de 34 anos na época, não tinha formação religiosa mas realizou casamentos, batizados, peditórios e missas, até ser descoberto e detido em Areias, Santo Tirso, em Junho passado. Depois de ouvido pela polícia, foi libertado e desapareceu.

Desde então, os muitos casais que Agostinho Caridade enganou com os seus dotes de oratória tentam saber se o matrimônio celebrado pelo falso padre será ou não reconhecido pelas autoridades religiosas, mas a situação continua indefinida.

Arlindo Silva é pai de uma das “vítimas”: o seu filho continua sem saber se a igreja reconhece o casamento que realizou, em 29 de maio do ano passado, na Igreja Matriz da Maia. Arlindo Silva conta que, na época, a situação causou “um choque muito grande”, admitindo que todos se deixaram levar pelo “dom da palavra, sabedoria e inteligência” de Agostinho Caridade, que “era melhor que muito padre…”. Agora, diz que só gostaria de “saber onde se esconde” o falso padre, e lamenta particularmente que continue sem saber se o filho está casado. “Diz que estão à espera que Roma autorize, eu não sei”, conclui Arlindo Silva.

O imbróglio surgiu quando chegou a altura de perceber se os casamentos seriam reconhecidos oficialmente. “Os especialistas em direito canônico não se entenderam e foi decidido pedir o parecer ao Vaticano”, explicou o padre José Ramos, responsável pela paróquia de Alvarelhos, Trofa, onde o burlão celebrou dois matrimônios. Contudo, desde Junho, o processo pouco avançou.

A Conferência Episcopal Portuguesa disse que a situação não era da sua competência, mas sim das dioceses lesadas – no caso, Porto (onde foi celebrada a maioria das uniões) e Braga (onde se realizou um matrimônio, em plena Sé). Mas entre Braga e Porto ainda não está tudo tratado – embora em 27 de junho, um comunicado da Secretaria Arquiepiscopal de Braga garantisse que “as irregularidades serão sanadas pelas autoridades eclesiásticas”. O cônego José António Marques, da Cúria Diocesana de Braga, explica que ficou encarreguado de contatar o Vaticano mas ainda não o fez porque está “à espera de uma lista de todos os casamentos” realizados por Agostinho Caridade na diocese do Porto. Garante que a Santa Sé não deve colocar entraves à oficialização dos matrimônios. “Ou à anulação dos que já se separaram”, admite.

Do lado da Diocese do Porto, o padre Américo Aguiar explica que a investigação da quantidade de casais vítimas da situação, para envio posterior da lista para Braga, está a cargo do chanceler e secretário-geral, cônego José Maria Fabião. “Estamos fazendo as averiguações necessárias”, assevera, explicando que pretendem apenas mandar a lista completa ao Vaticano, “para não demorar muito para resolver o problema”. Esclarece ainda que a investigação está sendo dificultada porque “se há pessoas que já contataram a Igreja, há outras que ainda não o fizeram”.

Fonte: DN Online – Portugal