Martinho Lutero - Reforma Protestante
Martinho Lutero - Reforma Protestante

Era corriqueiro pregar recados na porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha do início do século 16.

Membros da universidade local usavam-na como quadro de avisos: ligeiros recados convocavam alunos para arguições orais ou anunciavam cancelamentos de aula. Nada além do prosaico –com a exceção de um deles, que foi capaz de transformar a civilização ocidental.

Em outubro de 1517, o então frade e teólogo Martinho Lutero afixou uma folha impressa contendo 95 teses que dariam início à Reforma Protestante.

O aniversário de 500 anos do episódio tem impulsionado eventos e exposições ao redor do mundo. Estima-se que, hoje, 12% da população mundial seja protestante. Trata-se de um grupo plural, composto por diversas denominações.

As mais antigas preferem ser chamadas de protestantes. Outras se identificam com o termo “evangélico”, que vem do grego e significa “boas novas”. Entretanto, não é errado considerar os dois termos sinônimos, conta o pastor Walter Brunelli, autor da enciclopédia “Teologia para Pentecostais” (Central Gospel, 1.728 páginas divididas em quatro volumes, R$279,99).

No Brasil, 30% se declaram evangélicos –grupo que cada vez mais acumula cadeiras no Congresso (cerca de 80 deputados e um senador) e “likes” na internet.

As denominações mais frutíferas por aqui são as pentecostais, ramo mais recente do cristianismo que se diferencia dos demais, grosso modo, pela prática de “falar línguas” quando em estado de transe religioso.

Adeptas da “teologia da prosperidade”, que promete bênçãos materiais, as igrejas neopentecostais são outro filão em alta –dessa linhagem vêm gigantes como a Igreja Universal do Reino de Deus.

ALÉM DA RELIGIÃO

Corrupção do clero, luxo excessivo em Roma e negligência eclesiástica são causas comumente associados à reforma, diz o historiador Ronaldo Vainfas, professor de história moderna da Universidade Federal Fluminense (UFF). Explicações de natureza socioeconômica.

Ele, contudo, chama atenção para a face teológica do movimento ao citar o historiador francês Lucien Febvre: “Há que buscar causas religiosas para uma revolução religiosa”.

Algo que afligia os cristãos da época era o problema da “salvação espiritual”: como alcançar o reino dos céus?

Lutero, estudioso da religião, havia chegado à conclusão de que as pessoas não poderiam se tornar mais aceitáveis aos olhos de Deus por meio do apego a “coisas religiosas”, como imagens de santos, água benta, missas para mortos ou compra de indulgências –todos estes, produtos e serviços oferecidos exclusivamente pela Igreja Católica, diz à Folha o professor do departamento de religião da Universidade Columbia, reverendo Euan Cameron.

Segundo o acadêmico, a Reforma “representou para a população da Europa sua primeira experiência de mobilização em massa em favor de uma causa ideológica”.

Sola Scriptura, Solo Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria

Não mais do que cem pessoas hoje em dia falam latim fluentemente, afirma o padre Reginald Foster, especialista na língua, em entrevista à BBC.

Não era muito diferente na época de Lutero: praticamente só membros do clero dominavam o idioma. O problema é que, em 1517, as Bíblias e as missas eram em latim.

As frases, que se tornaram símbolo do movimento, significam: “Somente a escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé, glória somente a de Deus”.

A partir desse quinteto, toda a fé cristã ocidental foi transformada, inclusive a católica. Houve maior empenho das igrejas (das novas e da velha) em fazer com que suas doutrinas fossem melhor compreendidas pelos fiéis.

Educação em massa, liberdade religiosa e o embrião da separação Igreja-Estado fazem parte da prole da reforma.

Para o ex-frade alemão, todos os fiéis deveriam ter o direito de ler as escrituras sagradas –anseio que só pôde ser perseguido graças a uma recente invenção, a imprensa de Gutenberg.

Em pouco tempo, Martinho Lutero atraiu a simpatia de grupos como nacionalistas, humanistas e opositores aos privilégios do clero.

A mais nova celebridade do Sacro Império Romano-Germânico conquistou fama suficiente para se blindar de uma possível execução. A excomungação, no entanto, foi inevitável.

Protestantismo tem várias divisões no Brasil

A comunidade evangélica tem duas igrejas no Brasil inspiradas na Reforma de 1517, quando o alemão Martinho Lutero publicou as 95 teses contra as indulgências e, por causa da divergência, foi excomungado pelo papa e rompeu com a Igreja Católica.

As duas denominações nasceram há mais de 100 anos entre colonos luteranos de origem alemã, no sul do País, que trouxeram a sua fé da Europa, mas não tinham assistência espiritual. A primeira foi a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em 1864, e a outra, a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), em 1900.

Os evangélicos, que somam hoje 30% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já se organizavam desde 1811, quando se construiu um cemitério protestante em Sorocaba, no interior paulista.

Apesar das dificuldades dos evangélicos num país em que o catolicismo era a religião oficial, outras comunidades surgiram a partir de 1824, já no Império, com a chegada de imigrantes alemães a Nova Friburgo (RJ) e São Leopoldo (RS). Em 1827, grupos menores se fixaram nas províncias de São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo e, na década de 1850, em Santa Catarina.

Os primeiros 40 anos foram muito duros para os evangélicos, na vida civil e familiar, porque não tinham o direito de professar sua fé em público. Os casamentos dos evangélicos não tinham validade, por isso os casais viviam em concubinato. Os protestantes eram obrigados a sepultar seus mortos em alas segregadas. Os templos protestantes não podiam ter símbolos religiosos, como cruzes, torres e sinos.

Resultado de imagem para martinho lutero 500 anos da reforma protestante

Com a IECLB, começaram a chegar pastores da Europa regularmente. Eram enviados pela Igreja Evangélica da Prússia, a Sociedade Missionária de Basileia (Suíça) e a Sociedade Evangélica para os Alemães Protestantes na América. A IELB foi fundada entre imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, com ajuda de um pastor americano.

A duas denominações professam a mesma fé da Reforma de Lutero, mas têm diferenças na estrutura e nas práticas pastorais. Por exemplo: a IECLB admite ordenar pastoras, o que a IELB, mais conservadora, rejeita.

Três séculos antes da organização das igrejas luteranas, já havia evangélicos no País. Entre os primeiros luteranos, a IECLB registra a vinda de Heliodor Hesse, escrivão que chegou por volta de 1554 e morou em São Vicente, no litoral paulista. Era filho do humanista Helus Eobano Hesse, amigo de Lutero.

Na ocupação holandesa do Nordeste, eram calvinistas muitos dos invasores. Apesar do testemunho de cronistas do século 17 de que havia tolerância religiosa, foram responsabilizados pelo massacre de dezenas de católicos aliados dos colonos portugueses. Das vítimas dos massacres, ocorridos no Rio Grande do Norte, 30 foram canonizados pelo Vaticano no dia 15.

O reformador João Calvino, contemporâneo de Lutero e líder de um dos principais ramos do protestantismo, está sendo lembrado no aniversário de 500 anos da Reforma pela Igreja Presbiteriana, que segue sua doutrina. Os primeiros missionários presbiterianos vieram dos Estados Unidos no século 19 e fixaram-se em São Paulo, onde fundaram o colégio, e depois a Universidade Mackenzie. Ofereceram ensino de alta qualidade a filhos da elite paulista. Fundaram também escolas no Rio e em Juiz de Fora, em Minas.

A comunidade se divide em três denominações – a Presbiteriana, a Presbiteriana Independente e a Presbiteriana Renovada. As três seguem basicamente a mesma doutrina, mas divergem em questões pastorais e de disciplina. A Presbiteriana não admite ordenar pastoras, que a Independente aprova. Fundada em 1903 pelo reverendo Eduardo Carlos Pereira, a Presbiteriana Independente nasceu da dissidência com a Igreja Presbiteriana do Brasil, ao pedir total autonomia em relação aos presbiterianos americanos e discordar do uso dos colégios, no caso o Mackenzie, para converter alunos. Os presbiterianos discordam também no ecumenismo, que os independentes praticam e a Igreja Presbiteriana do Brasil, não.

As igrejas luteranas e as presbiterianas são históricas ou tradicionais, ao lado da Metodista, da Batista e da Anglicana. Todas estão comemorando com maior ou menor ênfase os 500 anos da Reforma. Entre as tradicionais, ainda se inclui a Congregação Cristã no Brasil, de origem americana. Seus primeiros pastores vieram no século 19.

Contemporâneas

As Assembleias de Deus, mencionadas assim no plural, são a maior denominação evangélica do País. Estão presentes em todos os Estados e contam com mais de 12 milhões de membros, segundo o IBGE. Como igrejas livres, no conceito dos líderes suecos, as Assembleias multiplicaram-se em templos locais. Nasceram de um grupo dissidente da Igreja Batista.

Segundo o historiador Gedeon Alencar, autor do livro Protestantismo Tupiniquim, o protestantismo é cismático e divisionista, desde o início da Reforma, como comprovam as divergências doutrinárias entre Lutero, Calvino e, mais tarde, Wesley, fundador do Metodismo.

Em muitos casos, uma nova igreja evangélica surge e caminha em torno de uma liderança, como as denominações fundadas por Valdomiro Santiago, R. R. Soares e Silas Malafaia. Aí se inclui o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, com a diferença de que ele aparece e desaparece no cenário de seus templos. “Edir busca a institucionalização da Universal, de modo que o futuro da sua igreja não dependa da presença dele”, observa Alencar. Até os anos 1990, os grupos pentecostais eram considerados seitas, e não igrejas, pela hierarquia católica, alegadamente por não terem estrutura doutrinária.

Numerosas igrejas protestantes defendem uma nova reforma, ao constatar que abusos denunciados por Lutero, como a venda de indulgências, se repetem sob novas roupagens. É uma crítica e autocrítica que dirigentes de várias igrejas, incluindo a Católica, fazem ao constatar pedidos de contribuição, pagamento de dízimos e venda de produtos supostamente religiosos, em cultos e shows transmitidos pela TV.

O apóstolo Gilson Henriques, presidente da Missão Mundial Tabernáculos de Profetas, que fundou há 17 anos, denuncia a venda de produtos como óleos, porções de terra santa, pedacinhos de tecidos, garrafas de água do Rio Jordão.

As 95 teses

Pregadas na porta da Catedral da cidade Wittenberg, Alemanha, os argumentos do ex-monge Lutero não pediam que a Igreja se dividisse, mas que passasse por uma reforma teológica, abandonando práticas que contrariavam as Escrituras Sagradas. Rejeitadas pelo Vaticano, foram o início do que seria mais tarde a Igreja Luterana.

Entre as propostas de Lutero estava a de traduzir a Bíblia para que todos pudessem conhecer a Palavra de Deus. Até então isso era privilégio do clero. Foi uma verdadeira revolução no cristianismo. Lutero baseava-se em “5 pilares” que são usados até hoje para definir a fé protestante: “Somente a Escritura, somente a Fé, somente a Graça, somente Cristo e Glória somente a Deus”.

Os ideais se espalharam pela Europa e encontraram eco em vários movimentos similares. Essa é a raiz das igrejas evangélicas que se espalham por todo o mundo até hoje. Embora pouco divulgada pelas igrejas no Brasil, o fato é que a Reforma ajudou a mudar a história.

Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução religiosa, iniciada na Alemanha, estendendo-se pela Suíça, França, Países Baixos, Reino Unido, Escandinávia e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria. A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contrarreforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento.

O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformados ou protestantes, originando o protestantismo.

Prestes a completar cinco séculos, a Reforma continua inspirando milhares de cristãos no mundo inteiro. Em 2012, foi lançada pelo evangélico Orley José da Silva a campanha “500 anos de Reforma, 100 milhões de evangélicos no Brasil”.

Segundo Orley, o número de evangélicos no Brasil hoje gira em torno de 50 milhões. Sua proposta é que cada crente do país se esforce para “evangelizar uma pessoa não cristã, levá-la a decidir-se por Cristo e a discipular” até 31 de outubro de 2017. Assim, no aniversário de 500 anos da Reforma teremos 100 milhões de evangélicos no Brasil. “É claro que somente isto não basta, precisamos urgentemente de um reavivamento bíblico, que reflita profundamente na espiritualidade, na moral e na ética, primeiro da igreja e depois da sociedade”, esclarece.

Essas são as 95 teses que deram origem à Reforma:

  1. Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
  2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
  3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
  4. Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
  5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
  6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.
  7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
  8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
  9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
  10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
  11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
  12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
  13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
  14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.
  15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
  16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
  17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.
  18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
  19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
  20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
  21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
  22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
  23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
  24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
  25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
  26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
  27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
  28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
  29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?
  30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
  31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
  32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
  33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.
  34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
  35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
  36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.
  37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
  38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina.
  39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição.
  40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.
  41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.
  42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
  43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
  44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
  45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
  46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
  47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
  48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
  49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
  50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
  51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
  52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
  53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
  54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
  55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
  56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
  57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.
  58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
  59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
  60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.
  61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente.
  62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
  63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.
  64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
  65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
  66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
  67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.
  68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
  69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
  70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.
  71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
  72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
  73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
  74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
  75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
  76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.
  77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o Papa.
  78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I Coríntios XII.
  79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insigneamente erguida, eqüivale à cruz de Cristo.
  80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.
  81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.
  82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?
  83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
  84. Do mesmo modo: Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?
  85. Do mesmo modo: Por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
  86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
  87. Do mesmo modo: O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?
  88. Do mesmo modo: Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
  89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
  90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.
  91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
  92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo “Paz, paz!” sem que haja paz!
  93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!
  94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno.
  95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.

Fonte: Folha de São Paulo, Estadão e Wikipédia