Pense Nisso

A VERDADE E AS VERDADES

Por Ed René Kvitz

“Sabe o que mais me assusta? As piores ofensas, o desrespeito, a falta de honestidade intelectual, vem de quem se diz ‘defensor da fé cristã’”. Esta postagem na conta do twitter do @pefabiodemelo data de abril de 2015 e de lá pra cá parece que as coisas pioraram. Os comentários que recebo em minhas postagens confirmam que a presença nas mídias sociais implica assumir à risca o que me ensinou minha mãe: “quem fala o quer, ouve o que não quer”. O problema é que o contraditório não se destina ao confronto lúcido e minimamente civilizado das ideias, ao debate esclarecido e a troca de informações, a sugestão de pontos de vista variados ou a simples discordância educada.

Recentemente postei no meu perfil do Instagran uma foto da página da Bíblia Sagrada onde sublinhei o texto: “Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem. O estrangeiro residente que viver com vocês deverá ser tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês”, de Levítico 19.33,34, NVI. Fui chamado de comunista, socialista, anti-Trump, e alguém considerou o post uma “alucinação esquerdosa da MI” (uma referência à Missão Integral). Muita gente ficou incomodada com a falta de legenda para a foto, e o fato de que a mera citação de um texto bíblico retirado do seu contexto era na verdade uma forma indireta e sutil de fazer uso ideológico indevido da Bíblia, e houve quem chegasse a afirmar que “já que defende toda a pauta globalista, quero ver se vai ter coragem de defender a pedofilia, também de esquerda”. A convivência com esse tipo de ressonância nas mídias sociais me ensinou pelo menos quatro coisas: existe sempre alguém que comenta o que acredita que você diz, não necessariamente o que você diz; existe sempre alguém que diz o que quer, independentemente do que você diz; existe sempre alguém que interpreta as coisas que você compartilha a partir dos conceitos e preconceitos que tem a seu respeito, e inclusive distorce o que você diz; e principalmente, o que desejo enfatizar, existe sempre alguém que trata você como equivocado, ignorante, não inteligente, e acredita possuir a verdade indubitável e incontestável.

A verdade, entretanto, é uma dama que não se confia a qualquer um. Basta um mínimo de discernimento para sabermos que crença é uma coisa, verdade é outra. Não basta que você acredite em uma coisa para que essa coisa seja verdade. Por essa razão as tradições culturais, filosóficas e espirituais desenvolveram maneiras de lidar com a verdade. Meu amigo Paulo Brabo, em seu imperdível texto A verdade na assembleia dos discordantes, aponta diferentes relações com a verdade. As ideias que seguem são devedoras de sua reflexão.

Primeiro vamos aos gregos, que acreditaram na reflexão racional como meio de acesso à verdade. Na tradição dialética, presente em Platão e Sócrates, a verdade resulta do confronto e análise dos argumentos, num processo de depuração de possibilidades e percepções e compreensões, até que ao final todos chegam às mesmas conclusões. A verdade é aquilo impossível de se negar após a demolição de todos as afirmações contrárias ou verificação da viabilidade de todos os argumentos eventualmente inadequados ou incompletos. O acesso à verdade é possível pelo exercício da conversa exaustiva a respeito de um tema, uma ideia, um conceito. Mais do que afirmada, a verdade precisa ser demonstrada. Na tradição da filosofia grega a verdade é aquilo que sobra depois de todos os questionamentos serem equacionados: o argumento que resistir ao escrutínio da lógica racional é tomado como verdadeiro, e qualquer mente razoável assim concordará.

Ocupados em demonstrar a superioridade do cristianismo, muitos pensadores cristãos seguiram a lógica grega em suas apologias da fé. A partir do quarto século, quando o cristianismo deixou de ser uma seita que precisava se explicar e se defender e se tornou a religião oficial do império, a discordância e o questionamento deixaram de meios de acesso e se tornaram ameaças à verdade. A verdade não precisava mais passar pelo crivo da razoabilidade, bastava que fosse afirmada por alguém hierarquicamente capaz de fazer valer seu ponto de vista. Surgiu a verdade como profissão de fé, dependente da autoridade eclesial. No mundo onde a verdade foi “encapsulada debaixo do peso da palavra dogma – não sujeita ao debate, a fé passou a ser a atividade de não fazer perguntas”.

Mas Jesus não era grego. Nem cristão. Jesus era judeu, herdeiro da tradição hebraica, e principalmente rabínica, nascida no exílio, sem Templo. O judaísmo rabínico se sustentou na oralidade, numa dinâmica ininterrupta de debates ao redor das possíveis interpretações da Torah. Na tradição rabínica a verdade não era única, inquestionável, não sujeita a debate, mas plural e dinâmica – aquilo a que se pode chegar somente no diálogo, nunca depois dele e muito menos sem ele. Discordar, fazer perguntas e questionar respostas não era visto como insubmissão, mas o único modo de encontrar e partilhar a verdade. Isso explica porque Jesus aos doze anos está no Templo debatendo com os rabinos de sua época, e também porque todos se admiravam de seus ensinos e sua autoridade do tipo “ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo”.

O Talmude é a coletânea das discussões rabínicas concluída entre 400 e 600 d.C. Suas páginas registram a discordância praticamente como método. As diferentes interpretações são apresentadas sem a pretensão de apontar uma versão final ou superior. “As questões permanecem em aberto, aguardando o engajamento e o posicionamento de um novo interlocutor: o próprio leitor e sua época. Debaixo dessa ortodoxia generosa as autoridades não servem para decidir em nosso lugar, servem para nos ajudar a pensar”, diz Brabo. Os rabinos dessa tradição não estão ocupados em chegar a conclusões e fazer afirmações categóricas a respeito da verdade, mas consideram a busca uma espécie de devoção. Não querem fechar questão, mas perpetuar a discussão. Isso ajuda a entender a famosa anedota do humor, que conta da conversa que alguém entabulou com um rabino: – Por que um judeu sempre responde uma pergunta com outra pergunta?, e o rabino respondeu: – Por que não?

Jesus é uma virada radical a respeito da verdade. Até então a verdade era a descrição ou interpretação de um fato, um fenômeno, uma coisa, ou mesmo alguém. Falar a verdade era afirmar alguma coisa a respeito de outra coisa. Mas Jesus se apresenta dizendo “Eu sou a Verdade”. A verdade deixa de ser uma ideia, um conceito, uma explicação, e passa a ser uma pessoa. Jesus inaugura uma outra categoria de abordagem da verdade. A filosofia grega buscou a verdade pelo caminho da dialética, certa tradição cristã afirmou a verdade como dogma, e a tradição judaica rabínica colocou a verdade na ordem do diálogo. Jesus é a verdade em pessoa, ou melhor dizendo, é a Verdade revelada em pessoa, e isso implica a relação, e mais precisamente a relação de amor.

Para defender ideias, conceitos e preconceitos você pode escolher entre a dialética, a dogmática e o debate ou o diálogo. Mas para “defender a fé cristã”, isto é, a Verdade que é uma Pessoa, você precisa ouvir o novo mandamento que a Verdade nos deixou: “amem uns aos outros. Assim como amei vocês, amem uns aos outros. Dessa maneira todos irão reconhecer que vocês são meus discípulos, quando eles virem o amor que vocês têm uns pelos outros”.

 

Pastor Ed René Kivitz
Pastor Ed René Kivitz

É teólogo, conferencista e escritor. Autor de Vivendo com propósitos, Outra Espiritualidade, O livro mais mal humorado da Bíblia, e Talmidim, publicandos pela Editora Mundo Cristão. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Idealizador do Fórum Cristão de Profissionais. Atua, desde 1989, como Pastor presidente da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.